quarta-feira, 31 de maio de 2017

1972-05-31 - Semana Portuguesa Nº 33

EDITORIAL
GOLPE

Saíram do exterior as informações e foram dirigidas ao Prof. Marcelo Caetano, sobre um golpe que se preparava para o destronar.
Conferidas por indícios e pelo comportamento de certas pessoas menos cuidadosas, depois de não restarem nenhumas dúvidas, foi encomendado um protejo para no mínimo espaço de tempo possível ser posto em prática, para serem tomadas as medidas cuidadosas e prudentes, como convinha, dada a importância das pessoas envolvidas.
Prender, civiciar e conseguir “confições” como seria com qualquer filho do Povo, não seria possível, dados os riscos naturais a correr, e principal e especialmente, porque medidas desse tipo envolveriam toda uma problemática, que acabaria por arrastar também o Prof. Marcelo.
O plano muito engenhoso, diga-se até inteligente, porque nestes casos de repressão policial, são inegáveis as competências, começou a funcionar em 24 horas. Foram dadas algumas liberdades sindicais como a de sindicatos elegerem directorias de sua livre escolha. Sabia-se de antemão que os sindicatos não iriam eleger ninguém da simpatia dos ultras, e assim eles iriam pondo a cabeça de fora. Assim foi. Muitos dos comprometidos foram chegando lenha para a lareira que os havia de queimar.
O cotelo começou a funcionar numa espécie de operação sem dor nem estardalhaços. Primeiro os menos importantes, candidatos a importantes, como cônsules e etc. com protenções a embaixadores para entre outros, os embaixadores, com pretensões a ministros, para seguidamente os ministros com pretensões a posições mais importantes e mais rendosas.
Como poderá concluir um observador arguto, o plano ainda está sendo executado.
Os estudantes foram animados a procedimentos “rebeldes”, o tempo necessário para que certas áreas menos vulneráveis caíssem na rede. Certas áreas da oposição começaram a cindir-se e certos presos perigosos a fugir especialmente aqueles que dessem ao Professor Marcelo Caetano, pelo seu labor justificação para serem tomadas medidas de controle absoluto.
Os atos de terrorismo, as bombas e tudo mais necessário para justificar a aprovação de leis que entregassem o poder ao Sr. Primeiro Ministro, tudo isto aconteceu, e Sua Excelência hoje é senhor da força necessária para ter debaixo de controle os golpistas.
As cadeias encheram-se e continuam a encher-se de inocentes, mas isto não é importante nem para os ultras, nem para os caetanistas, nem para certas áreas da oposição, porque são filhos do Povo, e filhos do Povo são para isso mesmo; para servir aos interesses de uns e outros, mesmo nas cadeias, nas guerras, no trabalho pago com baixos salários.
Para quem tenha condições de ter acesso aos segredos de estado, tudo isto seria facilmente provado, mas como neste caso este acesso é impossível, vamos dizer que isto tenha sido um sonho.

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