quarta-feira, 31 de maio de 2017

1972-05-31 - DO 3º ANO DE MECÂNICA À FACULDADE - Movimento Estudantil

DO 3º ANO DE MECÂNICA À FACULDADE

Ao concluir vitoriosamente una luta na defesa dos seus interesses pedagógicos, o 3º Ano de Engenharia Mecânica considera importante, neste momento, fazer um balanço de todo o processo relacionado com a transferência da cadeira de Termodinâmica II da Fac. de Ciências para a Fac. de Engenharia.
Um dos aspectos importantes a salientar foi a justa definição do objectivo principal deste processo.
A transferência da cadeira da Fac. de Ciências para a Fac. de Engenharia.
Qual a importância do aspecto atrás referido? Parece-nos que ela residiu na possibilidade que deu ao Curso, em cada momento da luta, de não deixar marginalizar a questão, isto é, desviar para aspectos secundários os esforços que colectivamente realizávamos.
Assim, por exemplo, quando do Ministério da Educação Nacional nos diziam, a certa altura, que o problema se resolveria em oito dias, independentemente de irmos ou não às aulas, a manutenção firme da abstenção às aulas foi a nossa resposta, pois sabíamos (até já por experiência própria) que a abstenção era nesse momento a única garantia que tínhamos para poder atingir o nosso objectivo.
Foi ainda a clara formulação do objectivo principal que permitiu que a unidade do Curso se mantivesse quase integralmente, mesmo nos momentos mais difíceis, quando o cepticismo e a falta de confiança na nossa força, faziam vacilar alguns de nós.
É exemplo do que atrás afirmamos aquilo que se passou quando o espectro da reprovação por faltas começou a surgir. Em alguns sectores do Curso gerou se um ambiente de descrença. O intenso trabalho de discussão à volta da justeza do processo e daquilo que dele pretendíamos permitiu ultrapassar esta fase.
Um segunde aspecto deste processo, igualmente fundamental, foi o aproveitamento de todas as formas de luta ao nosso alcance.
Convém aqui recordar que este processo se iniciou com um abaixo assinado dirigido ao MEN, em que definíamos e justificávamos o nosso objectivo.
"Mas será o abaixo assinado uma forma de luta?" perguntarão alguns com "radicais" pretensões. Só os cegos não verão que não foi o abaixo assinado a solução do problema. O abaixo assinado apenas teve importância (e muita ela foi) enquanto reduziu o campo de manobra das autoridades, isto é, enquanto não lhes permitiu invocar o desconhecimento do problema para impedir a sua resolução.
A experiência dos estudantes já o demonstra, que as autoridades postas perante as reivindicações daqueles, tentam na maioria dos casos, evitar a sua satisfação, usando formas mais ou menos repressivas consoante o conteúdo das reivindicações e a força com que os estudantes as apoiam.
Também neste processo esta táctica foi utilizada. Tendo o abaixo assinado sido entregue a 2 de Fevereiro, a 16 de Março (data da Reunião de Curso que decretou a abstenção às aulas) ainda não havia qualquer indicação de que o MEN tivesse tomado o problema em consideração.
Como resposta a esta manobra de "esquecimento" respondeu o Curso elevando o nível das formas de luta, isto e, decretando abstenção às aulas.
Entretanto as autoridades continuavam na esperança de poder dividir o Curso. Como? Ora "esquecendo", ora adiando, dizendo "que daqui por 8 dias", "daqui por mais 10 dias", etc., esperavam que o problema das faltas obrigasse o Curso a desistir do seu justo objectivo. Tendo-se nesta altura o Curso apercebido que os circuitos burocráticos eram uma das formas que revestia a táctica do adiamento, foi resolvido que representantes do Curso fossem ao Ministério da Educação Nacional a fim de esclarecer exactamente onde estaria a causa de todos estes adiamentos, ao mesmo tempo que a abstenção às aulas se mantinha. Ao que apuraram e problema residia em que a Fac. de Ciências não estaria disposta a transferir a cadeira para Engenharia.
Foi nesta altura que se concluiu que o Reitor da Universidade do Porto poderia resolver este problema. Contactada esta autoridade em meados de Maio, pela primeira vez ela teve conhecimento do caso.
Perante esta situação de facto - 1º O Curso continuava firme na abstenção às aulas; 2º do MEN diziam que o Reitor podia resolver a situação — o Reitor viu-se na situação do ter de iniciar imediatamente contactos para a resolução do problema. Na parte final do processo esta autoridade convocou o Curso para lhe pedir que levantasse a abstenção como uma prova de "boa vontade". O Curso depois de reunir e discutir esta proposta decidiu levantar a abstenção às aulas por um dia.
Recuo táctico ou oportunismo do Curso?
A primeira hipótese é a correcta pois que ao mesmo tempo que não abdicávamos de um firme posição de princípio (isto é coloração das formas de luta ao serviço do objectivo principal) reduzíamos a margem de manobra das autoridades, não deixando empancar a resolução do problema por uma questão marginal.

A UNIDADE DO CURSO E A UTILIZAÇÃO DAS FORMAS DE LUTA QUE CADA SITUAÇÃO CONCRETA EXIGIA. FORAM AS CAUSAS PRINCIPAIS DO NOSSO ÊXITO:
Ao narrarmos à FEUP esta luta orienta-nos o princípio que um processo como este contem experiências o ensinamentos que não podem ficar restritos às limitadas fronteiras de um Curso.

— Aprovado por dado Reunião de Curso do 3º Ano de Engenharia Mecânica em 31 de Maio do 1972

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