terça-feira, 16 de maio de 2017

1972-05-16 - Pela UNIDADE dos Estudantes Portugueses - Movimento Estudantil

Pela UNIDADE dos Estudantes Portugueses

informações de Lisboa,  Porto e Coimbra

Porto - O nosso colega Mesquita, aluno do Liceu D. Manuel II, foi solto no Sábado, dia 13 pela manhã.
A atitude firme do nosso colega recusando-se a prestar quaisquer declarações à PIDE, exigindo a presença do advogado no interrogatório, constituí um comportamento exemplar. Durante os dias que esteve detido denunciou numa carta dirigida ao Director da PIDE as péssimas condições higiénicas em que se encontrava. A rápida divulgação da prisão do Mesquita feita por algumas Associações, a posição tonada pela Reunião Geral do Colaboradores dos Liceus que decidiu fazer ma concentração no Liceu D. Manuel II, acompanhando assim as Direcções de Engenharia e Medicina que já tinham decidido pressionar o Reitor deste Liceu e a concentração convocada pela Comissão Associativa do Liceu D. Manuel II no sábado, foram as formas de luta levadas a cabo pelos estudantes, que contribuíram, conjuntamente com a atitude firme do nosso colega, decisivamente para que a sua prisão não se prolongasse.
Coimbra – Em 1972, Coimbra tem assistido a uma ofensiva dos sectores mais reaccionários da Academia. Ela assenta em algumas estruturas – ORFEON, OTUC (antiga Otec), CIDADELA, ACM - onde sectores se vinham entrincheirando deliberadamente, actuando marginalmente à espera da sua hora e perfeitamente sincronizados com todas as outras ofensivas da reacção desencadeadas pelas autoridades académicas e civis. Ultimamente eis que surgem Comissões provenientes ou assentando nessas estruturas que apoiadas na barreira da censura e com o beneplácito das autoridades se lançam à organização de "latadas" e “queimas". Assim é convocada uma serenata para quinta feira à noite omitindo-so o local da fantochada. Mais de 3 mil pessoas concentram-se junto à Sá Velha sendo na sua grande maioria estudantes dispostos a boicotar a serenata. A polícia informa entretanto que a serenata não se realizaria ali. Gritam-se esporadicamente alguns slogans como "abaixo a queima", "abaixo o fascismo", “abaixo a guerra colonial" etc. Após certa confusão que se gerou os estudantes dispersam-se pelos acessos à Sé Velha.
Soube-se entretanto que a serenata, estava a ser realizada por um pequeno grupo de reaccionários no Penedo da Meditação. Apesar da distância um grande grupo de estudantes dirigiu-se para lá. Mal lá chegaram, os reaccionários dão por terminada a serenata. Os vários palhaços que nela tinham tomado parte são insultados e alguns que se transportavam em automóvel foram apedrejados pela multidão de estudantes que ali se encontrava. Elementos da PIDE que tomavam parte ma evacuação dos serenateiros provocadores sofreram a mesma sorte. Como resultado, ficarem com os vidros completamente destruídos e com amolgadas 3 automóveis, sendo um do chefe Costa da PIDE, outro de uma mulher-PIDE e outro do fascista Trajano. Foi também apedrejado um edifício da Opus Dei, quando já os estudantes dispersavam, apareceu a polícia de choque que carregou sobre as pessoas concentradas na Bissaya Bar­reto e nas ruas que lhe dão acesso. Em virtude da carga policial, uma colega de Letras caiu e teve que receber tratamento hospitalar. Sabe-se também que três elementos reaccionários receberam tratamento hospitalar.
Sábado à noite estava programado um baile na Escola Industrial e Comercial Brotero Dias antes os alunos desta Escola fizerem sair um comunicado protestando contra tal facto. As ruas de acesso ao local estavam interrompidas ao trânsito, impedindo a polícia que as pessoas se dirigissem para lá. Entretanto há um grande ajuntamento de carros e pessoas no Bairro Solum. Os estudantes lá concentrados apedrejaram vários carros entre os quais o do filho do Queiró, Director da Fac. de Di­reito e ainda as forças policiais que responderam com dois tiros para o ar. Logo a seguir a polícia carregou sobre as pessoas concentradas na Av. dos Combatentes, donde resultaram três feridos, entre os quais uma criança de 10 anos. Em face do impedimento de permanecer no Bairro da Solum as inúmeras pessoas presentes dirigiram-se para a baixa onde teve lugar uma manifestação. Apesar de todos os apoios o baile foi um fracassão nele tendo participado reduzido número de palhaços. A partir da uma hora da manha a polícia percorreu a cidade, encerrando cafés e avisando as pessoas de que estava decretado o recolher obrigatário. De noite todos os carros que circulavam no Bairro da Solum eram interceptados, sendo os condutores identificados e revistadas as malas.
Domingo estava programado o "Dia do Novo Grelado". Receando a reacção que por certo não se faria esperar, tal acontecimento a ter sido realizado, foi-o clandestinamente, já que em nenhum dos sítios públicos se teve oportunidade de o ver.

Lisboa - ECONÓMICAS
6ª feira, dia 5 de Maio estava marcada para a noite uma reunião de cooperativistas nas instalações da Associação de Económicas. A partir das 18.30 a PSP cercos a Faculdade e só deixou sair pessoas. Impedidas, portanto, as entradas não chegou a efectuar-se a Reunião. As autoridades mantiveram as instalações encerradas no sábado, tendo-as reaberto na 2ª feira. Houve uma RGA com a participação de cerca de 500 pessoas e foi decidida uma greve de dois dias, que foi cumprida. Dia 11 estava marcada uma reunião ao fim da tarda, de estudantes e cooperativistas, mas de manhã foi tornado público que o Ministério do Interior havia proibido a Reunião. Em face disto, houve uma manifestação na Av. da Liberdade com mais de 200 pessoas que foi dispersada pela polícia. Foram presas 11 pessoas, 4 das quais ficaram na PSP tendo sido soltas na manhã do dia seguinte (uma das quais da Direcção de Económicas). Os restantes sete estão em Caxias, sendo dois estudantes de Agronomia e os outros cinco de Económicas. Durante a manifestação foram partidas as montras de dois Bancos e da Caixa Geral de Depósitos. Foram também danificados alguns automóveis da PIDE.
TÉCNICO
A partir da reorganização dos Cursos de Engenharia a frequência era praticamente geral, senão apenas tido em conta o numero de faltas. Foi sempre dito, contudo, que a frequência dependia também da informação sobre o aproveitamento, muito embora nunca tal se tivesse verificado. No decorrer do primeiro semestre deste ano, contudo, não cadeiras; de Análise Matemática I e Álgebra Linear foram eliminados alunos com base no aproveitamento.
Em RGA dos primeiros anos foi marcada greve a exames destas cadeiras, o que foi cumprido a 100%. A Direcção da Faculdade distribui uma informação em que faz apelo aos alunos que se consideram prejudicados pela greve que entrem em contacto com o director. A meio das férias da Pascoa esses alunos recebem pelo correio uma credencial e a marcação de um dia para fazerem exame. Este facto, apesar do secretismo em que foi feito, transpirou, e no dia e hora marcados concentraram-se no Técnico algumas pessoas para impedir a efectivação dos exames. A entrada no IST, com tudo, só era permitida às pessoas que possuíssem credencial e para garantir isso havia uma barragem de polícias e logo a seguir uma barragem de contínuos. Nesta ocasião fizeram exame mais ou menos 113 alunos entre os 1.100 que têm as cadeiras. Houve ainda uma segunda data secreta de exame mas parece que desta vez não houve nenhum furo, ou a ter havido, foram apenas 4 os furadores.
Após as férias da Páscoa houve uma RGA do lº ano que aprovou uma proposta no sentido de toda a malta independentemente do facto de ter ou não frequência, pudes­se ir a um exame extraordinário.
Uma RGA do IST aprovou uma greve de um dia, de apoio ao lº ano, o que foi cumprido a 100%. Foi apenas necessário boicotar uma aula da NATO.
Como o assunto não tivesse sido resolvido uma posterior RGA do lº ano decidiu greve às aulas de Análise Matemática II e Álgebra Linear (no 1º semestre esta cadeira destinava-se apenas ao curso de Electrotecnia). A greve tem sido cumprida e o processo continua.
ELEIÇÕES NO TÉCNICO
Começou no passado dia 12 e prolonga-se até 17 a votação para a eleição dos corpos gerentes da Associação de Estudantes do IST a que concorrem duas listas. O “liberal" Fraústo (Director da Faculdade) tem posto obstáculos ao direito de informação e reunião. Tem sido sistematicamente recusada a cedência de salas, pelo que as pessoas as têm ocupado. Durante a noite os contínuos retiram os cartazes e demais propaganda eleitoral.
INDUSTRIAL
Iniciou um processo relacionado com o melhoramento das condições da Cantina. AS reuniões nesta escola estão proibidas desde há muito, pelo que durante uma Reunião realizada na cantina apareceu a PSP que se manteve à porta. O Director entrou na Reunião e quis proibi-la. Às pessoas continuarem a Reunião e aprovarem uma série de pontos reivindicativos, exigindo que a Direcção do IIL dê uma resposta até terça feira dia 16 Nesse dia haverá nova Reunião que decidirá das formas de luta a adoptar em caso de não satisfação.
AGRONOMIA
Nas eleições para a Direcção da Associação de Estudantes de Agronomia, e como é hábito em todas as AAEE legalizadas, havia duas urnas: uma para os sócios da Associação e outra para os estudantes da Escola não sócios; isto porque sempre os estudantes procuram romper os esquemas legais que o Governo pretende impor (até quando legaliza uma AE) alargando as decisões a um número máximo de participantes. É claro que a votação que na realidade tem sido válida para os estudantes é aquela que é aberta a todos eles (sócios e não sócios). Acontece que em Agronomia na urna dos estudantes (não sócios) e no conjunto das duas ganhou a lista, “Pela Unidade do Movimento Associativo” e perdeu a lista “Por um ensino Popular”, acontecendo o inverso na urna dos sócios. Ora, esta última lista, enveredando pelo mais genuíno legalismo não se, conformou cora os resultados, reivindicando para si a vitória.
E as coisas estão assim neste impasse...

Porto, 16 de Maio de 1972
- DIRECÇÃO DA ASSOCIAÇÃO DE ESTUDANTES DE ENGENHARIA
- DIRECÇÃO DA ASSOCIAÇÃO DE ESTUDANTES DE MEDICINA

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