segunda-feira, 29 de maio de 2017

1972-05-00 - Unidade Popular Nº 014 - PCP(ml)

AS GUERRAS COLONIAIS
Outra maneira de explorar os trabalhadores

Há mais da dez anos que o governo fascista arrasta o povo português para a guerra de opressão dos povos coloniais e tenta fazer acreditar aos trabalhadores portugueses que as colónias fazem parte de Portugal. Mas esta pretensão não tem nada a justificá-la e esconde mal o simples interesse da burguesia portuguesa em continuar a explorar o trabalho e as riquezas que pertencem aos povos africanos.
O desenvolvimento da humanidade, dando-se duma forma desigual, fez com que os povos africanos estivessem mercê das nações europeias mais desenvolvidas. Depois das "descobertas", umas atrás das outras. Portugal, a Espanha, a Inglaterra, a França, a Alemanha, etc., vieram instalar-se nas terras africanas, traficando com as suas riquezas e com os negros, que embarcavam à força para as Américas vendendo-os como os antigos escravos. Mas, pouco a pouco, estas barbaridades exercidas pelos europeus foram deparando com maior oposição.
A meados do nosso século, a luta dos povos negros pela sua independência transforma-se num dos mais importante movimentos social da época. O povo africano aprendeu, através da sua longa resistência aos colonialistas, que tinha de recorrer às armas para se podar libertar. De contrário, as potências coloniais não deixavam de o oprimir. Foi o que já sucedeu em Angola, Moçambique, Guiné e Cabo Verde. Para prolongar o domínio e exploração que exerce sobre os trabalhadores locais, a burguesia portuguesa não hesitou em recorrer à força das armas, cometendo os mais hediondos crimes contra os povos africanos.
Através da guerra que tem custado inúmeras vidas de trabalhadores portugueses, a burguesia exploradora não visa só prolongar a espoliação das colónias. A própria guerra é o melhor meio da burguesia aumentar a sua riqueza, assenhorear-se dos bens das camadas mais pobres, que caem em ruína, e embolsando grande parte dos capitais desviados para a maquina de guerra: material militar, transportes, etc.; Para se ter uma confirmação disto, basta ver como os grandes grupos financeiros têm crescido nos últimos anos ao mesmo tempo que os trabalhadores do campo se arruínam, são obrigados a abandonar o lar, emigrando para as cidades ou para o estrangeiro.
As guerras são conduzidas para proveito da classe burguesa. Frequentemente, alguns capitalistas têm cinicamente confessado que "as guerras coloniais produzem riqueza". Pois, o Estado encarrega-se, ainda por cima de sobrecarregar os trabalhadores com as despesas que ela acarreta, sem contar as vidas e os sacrifícios que lhes exige. Mais de metade do orçamento do Estado é gasto com a guerra, e a polícia ("segurança"). A verba directamente destinada para esse efeito, pois através das despesas de diversos ministérios outras se escoam para lá, somava em 1962, 6117 milhares de contos: em 1970 passou a 13 698 milhares de contos; e os orçamentos de 1971 e 1972 previam ainda um aumento de mais de 10% em cada ano.
Para cobrir esta soma, tão elevada com as despesas militares, o governo capitalista aumentou os impostos, criou outros novos  e contraiu empréstimos à esquerda e à di­reita; aos capitalistas, portugueses e aos estrangeiros. Assim, enquanto em 1961 o Estado Sobrou 8699 milhares de impostos, em 1965 cobrava 12 224 milhares e, em 1970 arrancou 24 530 milhares de contos das bolsas dos contribuintes. Quer dizer, em anos o montante dos impostos quase triplicou. Escusado é dizer que todo este, dinheiro é produto do esforço dos trabalhadores, portugueses porque só eles criam riqueza. Mas, ainda que seja a eles que lhes caiba a menor parte o fruto, do seu trabalho, esse soberbo aumento dos impostos foi na sua maioria suportado por eles. Na realidade, de todos os impostos, foram os indirectos – os que mais tocam as classes trabalhadoras – que mais subiram. Em 1960, eles representavam 3670 milhares de contos, em 1965, já aumentaram para 5738 e, em 1970 atingiram 12 390 milhares de contos. Só o chamado “imposto de consumo”, o imposto de guerra, rendeu, em 1970, 3433 milhares de contos.
Para evitar um maior descontentamento do povo que lance a revolta, o governo fascista deita mão aos empréstimos e hipoteca o país a as colónias aos estrangeiros. A divida do Estado que até 1960 somava 17 250 milhares de contos, em 1970 passou a 38 658 milhares de contos.
Desta forma, nos últimos anos, mais da, décima parte das receitas ordinárias do Estado as receitas extraordinárias são constituídas por, empréstimos e só pioram a situação, são consumidas tipicamente com os encargos da dívida do Estado, as amortizações e os juros. E a divida é já tão grande que, mesmo que a situação não piorasse. O povo português levaria dezenas de anos a amortiza-la.
Os números aqui referidos demonstram bem o esforço consentido pelo povo trabalhador durante estes dez anos de guerra. Enquanto a burguesia se enche, ele tem vindo a apertar o cinto para alimentar uma triste aventura que só convém aos grandes senhores do capital. Quem paga a guerra são os trabalhadores e estes não necessitam de explorar outros povos.
A guerra de libertação do povo africano tem a apoia-la a lei da história. É uma guerra justa contra a opressão colonial, que recebe o apoio de todo o mundo voltado para o socialismo. O capitalismo português, ao opor-se a esta poderosa corrente histórica, só pode cavar mais fundo as contradições entre as classes trabalhadoras e a burguesia. À medida que o esforço de guerra aumenta, a classe operária descobre, melhor o seu verdadeiro inimigo e acaba por virar as armas contra ele.
Para oprimir os povos coloniais a burguesia portuguesa conta com o apoio do imperialismo internacional (particularmente através da NATO a reacção interna e dos inimigos da revolução. E por isso que, a par da luta contra a burguesia, o proletariado tem de visar também esses seus aliados, que procuram prende-lo a sua ideologia reformista e paternalista em relação aos povos africanos. O proletariado português é um irmão de luta dos trabalhadores africanos, vítimas da exploração do mesmo opressor, e a terra africana pertence aos africanos como a terra portuguesa são trabalhadores portugueses, Como dizia Marx, não pode ser livre um povo que oprime outros povos.

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