sexta-feira, 14 de abril de 2017

1977-04-14 - Voz do Povo Nº 143 - UDP

Editorial
REVIVER LÁGRIMAS DE ALEGRIA OBTENDO NOVAS VITÓRIAS E REFORÇANDO O CAMPO POPULAR
MANUEL FALCÃO

1. Há três anos, este jornal não se publicava. Não se podia publicar. A 14 de Abril de 1974 era ainda impensável que passados apenas onze dias, as liberdades seriam restauradas em Portugal, após uma longa noite de tirania, perseguições e obscurantismo que durou 48 anos.
48 anos de estagnação, de corrupção, de exploração desenfreada, de miséria, de repressão sistematizada sobre o povo e de censura. Mas também, e sobretudo, 48 anos de resistência democrática, de resistência popular, de lutas e de algumas vitórias.
A ditadura, Salazar e Caetano, tinham todas as armas na mão, tinham poderes ilimitados, atiravam para a prisão quem quer que se lhes opusesse. Queriam amordaçar a voz de um povo. Mas não conseguiram. Nem com todo o poder que aparentavam puderam vencer. Nem com todas as paradas militares de ostentação e intimidação nos conseguiram sufocar. Apodreceram e definharam, tal como as plantas ruins que nascem em terra que é tratada.
E este Portugal, que é a nossa pátria, apesar de vendido e roubado, foi sempre estimado pelo seu povo, foi uma terra onde a semente da liberdade foi crescendo, e se foi fortalecendo. As ervas daninhas apodreceram.
Matavam e estropiavam a nossa juventude, os filhos de Portugal. Mandavam-na, contrafeita, para uma guerra criminosa, injusta, que só aos senhores do poder beneficiava. Mas foi também dessa guerra que se levantaram as espingardas que a 25 de Abril arredaram os tiranos do pelouro.
O 25 de Abril foi a liberdade, foi o combate à miséria em que 48 anos de ditadura colocaram o nosso povo.
2. Na situação política actual, as comemorações do 25 de Abril e do 1o de Maio revestem-se da maior importância. Elas vão ser o palco da luta política nos tempos imediatos. Os partidos burgueses procurarão-capitalizar para si essas comemorações, extraindo os respectivos dividendos.
Mas essas comemorações não são pertença exclusiva de ninguém.
Essas datas, feitas de luta e alegria, pertencem ao povo.
Quando há meses atrás Vasco Lourenço apelava a que o 25 de Abril de 1977 constituísse uma grande jornada antifascista, nada faria supor que o Conselho da Revolução, arvorado em promotor das comemorações, chamasse a si o seu monopólio, nem tão-pouco que deturpasse por completo o significado de “jornada antifascista”.
    3.   As comemorações oficiais merecem um comentário.
A nítida intenção dos seus promotores, é a de orientarem essas comemorações no sentido de darem igual significado ao 25 de Abril e ao 25 de Novembro, mostrarem um paralelismo, que de facto não existe, entre essas datas.
Já o dissemos uma vez, e voltamos a repeti-lo. O 25 de Abril e o 25 de Novembro não têm nada em comum. O 25 de Abril trouxe-nos a liberdade, o 25 de Novembro é a porta que se abre para a limitarem, como é cada vez mais patente.
Por outro lado, a forma como essas comemorações oficiais estão orientadas, faz pensar numa afirmação de poder, uma afirmação intimidatória. Aqui está a Autoridade, á qual o povo tem que se submeter, ou a bem ou a mal, tal parece ser a ideia que se pretende transmitir.
Mostrar a força do Poder parece pois ser outra das intenções dos promotores das comemorações oficiais.
4. O 25 de Abril foi a queda da ditadura fascista. Foi uma jornada de unidade e de luta.
Para os revolucionários, para os antifascistas, o único significado que hoje em dia podem ter essas comemorações é o de uma jornada de alegria, de unidade na luta contra o fascismo, de unidade na luta pelo progresso e pelo bem-estar social.
Uma jornada que exprima de forma inequívoca a unidade entre o povo e os soldados, que exprima que em Portugal a classe operária, os camponeses, os trabalhadores, os intelectuais progressistas, os estudantes, todo o povo, estão dispostos a avançar em conjunto contra o fascismo, da mesma forma que fizeram em Abril de 74, para que esse Abril se torne de uma vez por todas numa realidade constante, que não retrocede, antes avança e se consolida.
Para os revolucionários, o 25 de Abril é uma jornada de luta contra os ladrões imperialistas, pela Independência Nacional.
Para os revolucionários, o 25 de Abril é uma data que desmente que a liberdade seja a causadora da miséria, apontando os verdadeiros culpados da crise, os ricos sabotadores, exigindo que sejam eles a suportar as suas consequências, em vez de serem acarinhados e estimulados a prosseguirem com os seus negócios.
    5. Para os revolucionários, finalmente, não pode haver 25 de Abril sem lembrar esses militares patriotas hoje caluniados, que desinteressadamente se colocaram ao lado do povo pobre, acompanhando e apoiando as suas lutas. Por isso, exigimos a reintegração dos capitães de Abril.
O 25 de Abril tem que mostrar que o nosso povo não abdica do que alcançou, tem que constituir o aviso solene aos fascistas, de que eles não lograrão a vitória dos seus criminosos intentos.
Se assim procedermos, o 25 de Abril será uma jornada de massas, uma comemoração verdadeiramente patriótica, uma festa de unidade do povo trabalhador, será a melhor preparação para um 1° de Maio que se quer de luta.

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