segunda-feira, 24 de abril de 2017

1977-04-00 - CONCENTRAÇÃO ANARQUISTA

CONCENTRAÇÃO ANARQUISTA
•1 Maio * Praça da Figueira * 16.30 h*

Os carcereiros que nos tinham metido debaixo do ferrolho em 28 de Maio de 1926, isto é, os militares que depois nos puseram em liberdade vigiada a seguir ao 25 de Abril de 1974, são tipos mesmo generosos. Concederam-nos a liberdade de aplaudirmos as suas incursões e manobras inclusive no domínio das nossas vidas, obrigando-nos sorrateiramente, por pessoa interposta, a gritar que ”O povo está com o MFA" e não o inverso, o que aliás seria impossível.
Com o auxílio dos políticos profissionais que estavam no estrangeiro e, surpreendidos, tomaram o comboio ou o avião à pressa e, bem entendido, com a mãozinha dos que cá estavam e mudaram oportunamente de rumo, os mais ou menos veteranos das forças pretorianas e das guerras coloniais cozinharam um sistema cada vez mais integrador, continuação natural do passado, ao qual estão a dar os últimos retoques e pinceladas. Dentro desta ordem de ideias, distribuíram entre si cargos, prebendas e conchegozinhos, cortaram o espólio em fatias e, nacionalmente autorizados, lançaram-se nos grandes empréstimos internacionais. Uns, com a fidelidade estulta e incondicional de stalinistas, apontavam para a Moscóvia e para as suas benesses; outros, com o rigor comercial de merceeiros, esticaram o braço suplicante para as gorjetas dos yankees e do Mercado Comum Europeu; outros ainda, fedelhos de menor expressão, gostariam de nos ver atrelados ao incipiente capitalismo de Estado chinês. Apesar dos arrufos entre as diferentes franjas dos candidatos a membros das classes dominantes, a massa lá tem chegado, sob a forma de marcos ou dólares, instantaneamente derretida nos artigos de primeiríssima necessidade, equipamentos metálicos para os militares brilharem nas paradas; material "dissuasivo" para a P.S.P., a G.N.R. e a Polícia Judiciária militar e civil criarem mais umas dezenas de milhares de postos de trabalho| material nuclear para uma ou várias centrais que os principais interessados (os países capitalistas mais desenvolvidos) não querem no seu próprio território; complexos siderúrgicos gigantescos e poluidores que só nos integrarão cada vez mais na lógica do desenvolvimento pelo desenvolvimento, sem sentido; etc.
Marginalizado mal o processo contra-revolucionário se pôs em movimento; esgotado por lutas partidárias que a nada levaram (nem podem levar); manipulado como um boi que suporta sucessivas cangas e cabrestos mas é paciente e fiel, o “bom povo português” lá tem sobrevivido com muita dificuldadezinha. Contudo, se um mínimo de revolta e de salutar desconfiança o tivessem sacudido, logo desde o início, facilmente teria ele compreendido que cama lhe andavam a fazer. Na verdade, ainda o foguetório do primeiro 1º de Maio ia na praça, começaram logo as prometedoras distorções. Pois quem discursou logo nessa primeira "festa do trabalho", à sombra das baionetas? Álvaro Cunhal que, ao que sabemos, não é metalúrgico; Mário Soares que, segundo consta, não é operário do têxtil; e ainda um ou outro político profissional, caído com as últimas chuvas, ante a atenção expectante de quem trabalha e aplaude. Depois, como, apesar de tudo, ainda houve pelo país fora uns ameaços de ocupações menos teleguiados e alguns movimentos grevistas com um pouco mais de autonomia, todas as boas vontades políticas, patronais e militares se concertaram para, entre si, escolherem quem seria polícia, inquisidor, bombeiro da revolução, capataz das batalhas de produção ou, como hoje se diz, zelador pela hierarquia das competências. Foi assim que desabrochou o Ministério do Trabalho assalariado, sucessivamente ocupado pelos mais influentes e respeitáveis do momento; a prometedora legislação do trabalho que espartilha a greve e favorece os amarelos; a Intersindical que nem sequer, como a Fénix, teve que renascer das cinzas do corporativismo fascista e hoje defende, face à carestia da vida e ao desemprego, uma nova modalidade de sindicalismo: o sindicalismo constitucional.
Na Roma antiga, os imperadores diziam que uma importante válvula de segurança do sistema, para que a marmita não rebentasse, residia na aplicação da fórmula pão e circo. No Portugal de hoje, com muito circo e pouco pão, apesar das promessas de quatro campanhas eleitorais em tempo record, optou-se pela mesma via, ou, como estamos num Estado de Direito, quem de Direito lá optou por nós … Assim, o calendário das festas está bem recheado. Depois de uma festarola fúnebre em que, na Páscoa, o “Deus feito homem” primeiro foi morto, para depois poder ressuscitar; temos um 25 de Abril a passo cadenciado e encarnado e verde que, como toda a gente sabe, são as cores do brio nacional; a seguir, um lº de Maio, convertido em festa ritual e simbólica da humilhação do trabalho assalariado; para tudo culminar, a 13 de Maio, na Cova da Iria.
Povo trabalhador, desempregados e segregados de toda a espécie, explorados e oprimidos, humilhados e ofendidos á tempo de reagirmos e de recobrarmos a dignidade que queriam e querem roubar-nos. Que o próximo 1º de Maio seja um dia de indesmentível afirmação de todos nós, mais uma pedra para empreendimentos mais audaciosos. Não nos deixemos mais organizar pelos outros! Organizemo-nos a nós próprios e habituemo-nos a prescindir dos prestáveis servicinhos de todos os nossos benfeitores, de todos os nossos defensores oficiais e oficiosos, de todos os burocratas políticos e de todos os bonzos sindicais! Historicamente, o 1º de Maio está ligado às lutas pelas oito horas de trabalho (enquanto hoje se corre atrás das horas extraordinárias) e às execuções dos anarco-sindicalistas de Chicago, em 1887. Se, só muito depois, os socialistas politicantes da 2ª Internacional o vieram reivindicar, no congresso de 1889, para o transformarem em ridícula "festa do trabalho"; se, na sua esteira, os tonsurados e ratos de sacristia da Igreja Católica o vieram converter em festa do S. José Carpinteiro; se, enfim, os patrões do Kremlin o converteram na paranóia das grandes exibições militaristas, isso é lá negócio de todos eles. A nós, anarquistas, incumbe-nos reatar com a tradição revolucionária e reavivar a memória do povo, esse Caliban infelizmente adormecido.

VIVA A REVOLUÇÃO SOCIAL!
VIVA A ANARQUIA!
POR UM 1º DE MAIO LIBERTÁRIO!

Os grupos editores de "Voz Anarquista" e "Acção Directa", os grupos anarquistas "Lanterna Negra", "A Ferro e Fogo", "Os Solidários", "A Liberdade" e Núcleo de Intervenção Anarquista       
Abril de 1977

A BUROCRACIA SINDICAL NA TRIBUNA DO 1º DE MAIO OFICIAL

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