terça-feira, 25 de abril de 2017

1972-04-25 - José Manuel JARA, membro da Direcção da CPA de MEDICINA, BARBARAMENTE ESPANCADO ontem à noite, na RIA - Movimento Estudantil

José Manuel JARA, membro da Direcção da CPA de MEDICINA, BARBARAMENTE ESPANCADO ontem à noite, na RIA

Compareceu ontem à noite a delegação da Pró-Associação a uma Reunião Inter-Associações (RIA) cuja ordem de trabalhos tinha como ponto único a luta contra a Repressão. No começo da RIA a delegação de Ciências propõe como ponto prévio que esta reunião tome uma posição face aos provocadores.
A delegação de Ciências adianta que conhece um provocador pidesco… esse provocador pidesco era o Jara (!!!); e como se isto não bastasse para espanto total de todos os estudantes de boa-fé que ali estavam, inicia-se o “julgamento" sem a presença do "réu".
Para quem não quer ver de que vale ter olhos? Assim a um dirigente da CPA da Faculdade de Medicina, dirigente que sempre defendeu o Movimento Associativo, que foi eleito democraticamente pela grande maioria dos estudantes desta Faculdade, que sempre mereceu confiança destes para cumprir as suas decisões maioritárias, tenta-se um processo maquiavélico de o "queimar" inquisitorialmente. Quando a força não se impõe pelas ideias, impõem-se as ideias pela força, a murro…
Ao chegar a Económicas (onde se estava a realizar a RIA) o Jara (que tinha estado numa reunião com a direcção da Ordem dos Médicos) constata imediatamente que estava preparado o assalto logo à entrada: agressão brutal imediata por alguns “indivíduos-estudantes" o que provocou a interrupção da RIA e gerou uma escaramuça, pois logo acorreram a defendê-lo vários estudantes.
Trégua para continuar a "farsa"...
Estava em fase de discussão a proposta "forjada" pela delegação de Ciências em que se considera o Jara "provocador" e se pede por esse "motivo" a sua expulsão da Reunião Inter Associações...
O Zê Manuel Jara explica perante a Reunião (Tribunal-Farsa) que confirmava (e repetia) ter dito em conversa pessoal (aquilo que trágico comicamente se considera o delito) com um membro da Direcção de Ciências, que considerava incorrecto o procedimento dessa direcção pelo seu abandono dos estudantes de Ciências, quando estes desenvolviam no final do ano passado a luta pela reabertura da sua Associação... Esse elemento da direcção de Ciências, afirmara logo numa reunião de estudantes de Medicina, que ia convocada uma RIA para tratar da "conversa" e que não se espantassem se o membro da direcção fosse espancado por "estudantes de Ciências".
A maquinação e a trama não se ficou por aqui. Como esta questão não fosse suficiente" (?) para a "condenação" fizeram-se alegações falsas de intuito deliberadamente provocatório e não provadas sobre "outra conversa pessoal".
É votada a expulsão do Jara com 3 votos a favor (!...). A direcção de Medicina afirmou imediatamente em declaração de voto que não estará presente na R.I.A. enquanto não for revogada a decisão.

BARBARISMO DE TEDDY-BQYS!
Depois da parte "legal", passam à violência. Verdadeira organização militar impede a saída do Jara. Piquetes "policiais" em atitude agressiva rodeiam os estudantes que o apoiam e que estão em minoria (houve uma verdadeira concentração deliberada para efeitos agressivos!). Chovem provocações das mais mesquinhas!
Tendo-se encerrado a Associação todos os presentes se deslocam para o corredor da entrada. Cresce o clima de tensão. Outros dois elementos da direcção (Sita Vales e Ferreira Mendes) que apoiam e protegem o colega são agredidos. São entre 30 e 40 indivíduos, com atitudes do mais refinado gangsterismo. Chovem murros e pontapés sobre o Jara que não responde às agressões e avança para a saída. As várias dezenas de valentaços cercam-no e utilizam novo "processo": utiliza-se a tortura mais vergonhosa: "hás-de falar, senão comes", "hás-de confessar que és um provocador”, "estás aqui se for preciso até às 6 da manhã a levar até te esmigalharmos", "se for preciso até te matamos", "fala", etc...etc tudo isto acompanhado de agressões violentas que lhe rebentam com o lábio e o obrigam a receber tratamento no banco do Hospital de Sta Maria. Um outro colega do Industrial que tentou defender o nosso colega foi também selvaticamente agredido (os Valentões partiram-lhe os óculos provocando-lhe vários ferimentos na cara com os vidros).
Os esbirros apenas desistem porque instantaneamente tomam consciência da inutilidade dos seus actos… durou uma hora a exibição de vandalismo dumas dezenas de teddy-boys (dois deles "estudantes" de Medicina colaboraram activamente: Pedro Paulo e João Moreira, este já conhecido pelas suas práticas anti-associativas ao roubar livros na exposição organizada aquando da semana de recepção aos novos alunos)
Os estudantes de Medicina não podem deixar de se pronunciarem sobre este grave acontecimento. Este facto não pode ser considerado apenas como lesão pessoal, ninguém é por acaso espancado.
O Jara foi espancado por umcomplot" organizado para desprestigiar o Movimento Associativo de Medicina. Todo o desenrolar do "processo" exige que os estudantes da nossa Escola se pronunciem duma forma clara e inequívoca. Nunca será de mais realçar a barbaridade, o sadismo, o espírito gangsterista de quem não tem mais nada ao seu, do que agressão a dirigentes que têm a confiança dos estudantes (Isto num momento repressivo em que todas as direcções se deviam unir para fazer face à escalada governamental de sufocação das AAEE).
Os estudantes de Medicina devem ter em conta que os interesses dos estudantes de Lisboa não se confundem com as atitudes teddy-boyescas" de alguns pseudo-dirigentes. A estes dirigentes há que desmascará-los. Só as mais violentas polícias são capazes de tais actos…
Não podemos permitir que tal volte a suceder, que se abram precedentes a este nível.
Lutemos por uma R.I.A. autêntica, onde o Movimento Associativo seja condignamente representado.
Todos, hoje na Assembleia Geral Extraordinária!

25/Abril/72
A Direcção da Pró-Associação de Medicina

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