sábado, 15 de abril de 2017

1972-04-00 - Unidade Popular Nº 013 - PCP(ml)

AS GUERRAS COLONIAIS
cavam a divisão na burguesia

A questão da transferência de dinheiro das colónias para Portugal tem dado lugar a violentas críticas à política colonialista marcelista dirigidas de vários sectores da Sociedade portuguesa e das colónias. Os atrasos das transferências, do dinheiro depositado nos bancos das colónias, que chegam a atingir dois anos, tem lesado as famílias dos soldados arrastados, para as criminosas guerras coloniais, sectores do funcionalismo colonial a mesmo outras camadas da burguesia portuguesa ligada ao comercio com as colónias. Isto no que se refere à população portuguesa. Daí que a imprensa colonialista, particularmente nos últimos anos, depois da entrada em vigor, em 1963, do chamado “espaço único português”, quando o problema começou a acentuar-se tenha frequentemente aludido aos entraves que ele causa sobretudo ao comércio com as colónias. Na verdade, esses atrasos nos pagamentos das mercadorias exportadas para as colónias (com destaque para Angola e Moçambique) criem sérios problemas aos patrões industriais, nomeadamente dos ramos têxtil, vinhos, cordoaria, conservas de peixe, produtos alimentares, calçado, cutelarias, etc. Muitos deles estão condenados a deixar de contar com o mercado das colónias, onde colocam as suas mercadorias sem concorrência do estrangeiro a um preço que lhes garante bons lucros. É nessas circunstâncias, grande parte deles têm o seu futuro de exploradores contado, pois não fabricam em condições de competir com os países mais avançados tecnicamente.
Este sector da burguesia portuguesa juntamente com a angolana, directamente atingida, tem ­ pressionado o governo a encontrar uma solução para os seus  problemas. Todavia o problema das transferência é uma consequência directa da exploração colonialista movida aos povos das colónias e só pode solucionar-se com a supressão pura e simples do domínio colonial. O suposto débito das colónias em relação a Portugal, que motiva, na lógica colonialista os atrasos das transferências, só se verifica porque os colonialistas portugueses, vão buscar o produto do trabalho do povo angolano, moçambicano, guineense, cabo-verdiano, etc., transferindo livremente os lucros das empresas que administram nas várias colónias e, nas relações comerciais, os espoliam ainda mais vendendo-lhes os produtos caríssimos e pagando a preços impostos e irrisórios as ricas matérias primas criadas pelos povos coloniais. Nas próprias transacções financeiras, as moedas das colónias são roubadas em relação ao escudo e nas relações internacionais estão completamente dependentes dele. O escudo exerce sobre elas um domínio semelhante ao que tem exercido o dólar sobre as moedas ocidentais, incluindo o escudo.
No momento presente, despesas gastas com a máquina de guerra e policial em todas as colónias, bem como o receio dos colonialistas em investirem os imensos lucros nelas devido, ao alastramento da luta de libertação e a renúncia dos povos africanos em se deixarem explorar mais pelos colonos estrangeiros, portugueses ou não, agrava ainda mais a situação.
As medidas tomadas em Dezembro pelos chefes de fila colonialistas de S. Bento não poderem agradar nem a gregos nem a troianos. Eles não podem matar o mal pela raiz uma vez que a burguesia portuguesa, na sua maior parte, vivi do negocio com as colónias. E os remendos de momento também não apaziguam os ânimos dos mais tocados. Um representante das Associações Económicas de Angola pôs bem a claro o carácter colonial de tais orientações que cada vez mais se cavam entre a burguesia portuguesa e a angolana. Esse seu representante mostrou (segundo o seu ponto de vista de neocolonialista, que só se dá conta dos malefícios da sua classe e não da exploração movida aos trabalhadores “africanos”) como o tal “débito” de Angola (o caso das outras colónias é idêntico) derivava do facto da administração da colónia ser feita por Portugal. A sua contabilidade é decretada por S. Bento e assim por diante. Esse industrial angolano indicou que em 1970 os colonialistas portugueses arrancaram de Angola 495 000 contos de “rendimentos de capitais”, que Angola entregou a Portugal 1 415 000 contos de moeda estrangeira “para reduzir atrasos“ e 326 000 contos de ordenados e mesadas. Referindo-se ao comércio ele mostrou que os angolanos são obrigados a pagar o vinho por três vezes mais que os outros países africanos; o seu transporte, como o das restantes mercadorias e custa-lhes dos outros, etc.
Tudo isto indica que as contradições da burguesia portuguesa e colonista com outros sectores da burguesia nacional e da das colónias se tem aprofundado. Nas colónias, forma-se pouco a pouco um amplo sector partidário da auto-determinação neo-colonialista. Em Portugal, o governo depara de dia para dia, com maiores dificuldades em repartir os benefícios da exploração colonialista com os diferentes grupos burgueses. Juntando-se ao proletariado novas camadas da burguesia inferior reconhecem a verdadeira natureza do domínio colonial. O apoio social à guerra de extermínio vai-se reduzindo. E, à medida que o Partido Comunista organiza a classe operária, nascem as condições para que em Portugal se transforme essa guerra opressiva num assalto revolucionário ao poder capitalista e colonialista, numa insurreição popular vitoriosa.

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