quinta-feira, 30 de março de 2017

1977-03-30 - O Proletário Vermelho Nº 73

Editorial
O EXACTO
TAMANHO DE UM COPO DE ÁGUA
- ou as implicações de uma estratégica tempestade!

Foi o país atento abalado pela questão da Disciplina Militar. O que demonstra uma boa dezena de coisas. Entre elas que os militares, agitando-se, podem perturbar a "tranquilidade” do país atento. Entre elas, que os militares são, ainda e cá em casa, o obus definitivo com que se faz a política. Entre elas que as questões da Disciplina Militar estão, apesar de tudo, por resolver.
Disseram, através das suas “fontes geralmente bem informadas” os jornais ditos da “grande informação” que os generais estariam agitados, dispostos a atear o rastilho da demissão contestatária, a despoletar a granada do “pedido de explicações” ao Presidente da República e Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas.
Disseram, corrigiram piorando, corrigiram de novo, reduzindo, desdisseram recorrendo à parábola do copo de água com tempestades dentro, e não se sabe bem se ficarão por aqui. Duvidamos. Que se fiquem. Quer os jornais, quer os próprios, poucos que sejam os generais.
Assim desceu — se fez descer! — a onda que os próprios levantaram. Mas desceu atabalhoada em calhaus, lodo e espuma negra. Por isso, talvez, não tenha descido.
A CONTESTAÇÃO NASCIDA POR DETRÁS DE UMA SINDICAL QUESTÃO DE ESTRELAS
Ocorre entre nós que a incompetência não seja característica da direita fascista nem da direita social-fascista. Ocorre mesmo que nem só de uma e de outra; todavia, de uma e outra é, com a certeza da prática que já nos deram.
Duas coisas há que em termos de povo, em termos de país, não podem andar de mão dada: a competência e o individualismo cego, a competência e a repressão, a competência e a partidarice golpista. E, cá por casa, andam. De mãos dadas. Amiúde.
Se um general não percebe as razões de um Presidente da República não pode invocar a disciplina e a deontologia militar para... contestar a autoridade do PR! Ou aceita a disciplina do seu Chefe de Estado Maior General... ou quebra o código deontológico militar como qualquer “tarata” que contesta as ordens do sargento invocando o RDM. Serão contradições do RDM — velho de podre fascista - serão as contradições entre os “rasos” e os “chicos”. Não podem ser contradições entre generais e o seu Chefe de Estado Maior.
Não podemos admitir uma nova Brigada do Reumático, do contrário, uma repetição de trás para a frente e com as posições políticas invertidas dos diferendos de alta patente que levaram - dizem-no - ao 25 de Abril, se bem que por outras vias. Não é, decerto. E por isso, sendo tempestade, a questão não se fica no copo de água. Porque nasceu cá bem atrás nos bastidores da política e porque quer morrer (?) bem para lá das questões de estrelas a mais ou a menos sobre o “dólman”.
Ninguém contestou ao ten.-cor. Loureiro dos Santos a capacidade de ser vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. Ao que dizem os entendidos, tem qualidades políticas e militares para o ser. Faltam-lhe, apenas, no “dólman”, as estrelas de general.
Contestou-se... o atropelo da hierarquia. CONTESTOU-SE A AUTORIDADE MILITAR DO CEMGFA, À LUZ DO PRÓPRIO CÓDIGO DE DISCIPLINA MILITAR!
E é isso que é grave. É isso que nasceu por detrás de uma sindical questão de estrelas a mais ou a menos, por detrás de uma corporativa questão de hierarquia e de carreira burocrática fardada. É isso que nasceu nos bastidores da política. De certas forças políticas. Das forças políticas que antes de disparar querem encostar o PR à parede. Obrigar o PR à “definição”, à opção partidária. Para fazer dele um mito ou um alvo exposto.
Por isso a tempestade - que não foi num copo de água - não morreu placidamente como uma maré viva. Deixou atrás de si os efeitos. Efeitos importantes.
OS EFEITOS E OS... CICATRIZANTES
Deixou os efeitos de uma contestação de alto escalão militar - no país instável que ainda somos - à autoridade de decisão do Presidente desta República.
Deixou os efeitos de o país-povo se ter apercebido de que os pruridos hierárquicos de um grupo de oficiais puderam ter posto em crise, ainda que por momentos, a unidade dos altos escalões militares.
Deixou os efeitos de um Presidente da República que deve, além do seu povo, explicações aos seus generais. Efeitos que, todos à uma, procuraram ocultar com pomadas e cicatrizantes, sarar com a penicilina do desmentido e a sulfamida das “culpas dos jornais”, do “empolamento dos jornais”.
Como se os jornais, não fossem, ainda, o país, e dentro do país, as classes. Dentro das classes, os partidos. E dentro dos partidos, as “direitas” e as “esquerdas”.
UM PROGRAMA NA MIRA
A “prova de força” teve mais um episódio. A contagem de espingardas continua a ameaçar. A desestabilização permanece possível de piorar.
Não brilham, pela competência, os inimigos internos deste país. O que é grave. Grave pois que poderão brilhar pela baioneta. Grave porque aos interesses de um povo sobrepõem — dizem-nos que sobrepõem - a rivalidade carrei­rista e algumas estrelas no “dólman”.
Grave porque um Presidente de unidade patriótica pode ser assim encostado, sub-repticiamente, à parede. Pode ser, assim, forçado a apoiar-se só numa parte das forças que o sustentam. Espartilhado que fique entre duas direitas, pode ser forçado a servir-se de uma para resistir à outra. Pode ser obrigado à decisão de força para fazer sobreviver o seu programa, os seus 60 por cento de votos.
Este programa está na mira de uma certa direita. Mais exactamente, na mira de uma direita que quer fazer a outra pô-lo em prática. Destas duas, a menos perigosa é a mais minoritária, a menos apoiada nos trabalhadores, a que tem atrás de si a equimose extensa de 50 anos de governo.
A mais perigosa, não é essa. É a que quer monopolizar a democracia, a que diz ter a “força dos trabalhadores”, a que nos quis convencer de que era “o 25 de Abril”. A mais perigosa é a outra.

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