terça-feira, 7 de março de 2017

1977-03-07 - Democracia 76 Nº 13 - CDS

editorial
As novidades ou as insistências

Facto sem dúvida saliente dos últimos dias é a entrevista que Sá Carneiro deu ao «Jornal Novo» e em que aceita a ideia de uma fusão PS/PPD, admitindo mesmo a possibilidade de desaparecimento do seu partido, além do Partido Socialista. Não deixa de ser curioso que, depois de tanta excitação a respeito de um falado mas inexistente «namoro» CDS/PS (partidos que se distinguem doutrinariamente de uma forma clara), seja o PPD, que era afinal o principal «acusador», a propor não só um namoro, mas mesmo um casamento, como que a lembrar que, em matéria de «noivados socialistas», ele é que sabe. Esta afirmação de Sá Carneiro que se mistura com afirmações erradas a respeito do CDS, na mesma entrevista, confirma a incapacidade em que tem estado o PSD para manter uma linha estratégica coerente, na medida em que de novo aparece a tentativa de aproximação (e mesmo fusão) com o PS. Em lugar do espírito duro de Madrid, ressurge o casamenteiro espírito de Leiria, significando, entre outras coisas, que o PPD/PSD, apesar de falar de «maioria democrática estável», continua a preferir o entendimento a sós com o PS à estabilidade real da maioria presidencial. É evidente que não conseguirá concretizar este seu objectivo, nomeadamente por não possuir uma linha de actuação clara, definida, constante e persistente, que é condição essencial para se conseguir algo em política. Embora, perante estas declarações de Sá Carneiro, se torne agora claro qual o motivo profundo da recente «dureza anti-PS» exibida pelo PPD (não a alternativa, mas o casamento), é também claro que o PS não esquecerá por seu lado os «arrufos» do PSD. Mas o que se torna mais grave é que, ao insistir nesta linha errada, o PPD/PSD, escolhendo um parceiro que a sós é inviável, está a adiar a concretização de um sólido entendimento de todos os partidos democráticos mais representativos, no quadro, amplo e legitimado, da maioria presidencial, que, este sim, poderia em muito reforçar a consistência da situação política portuguesa, permitindo o ataque eficiente às crises que nos afectam.
Também nos últimos tempos outra entrevista merece destaque: a do Major Melo Antunes à revista espanhola «Cuadernos para El Dialogo», sendo curioso notar que a imprensa espanhola parece ser agora a favorita de alguns políticos portugueses para lançarem declarações polémicas — fora Sá Carneiro ao «El Pais» e agora Melo Antunes àquela revista. Melo Antunes insiste uma vez mais em fazer declarações que põem em causa a estabilidade da vida política portuguesa, alimentam boatos, fomentam especulações e empurram sabe-se lá o que mais. O Sr. Major Melo Antunes esgrime com o Programa do MFA e não será descabido recordar que, afinal, esse Programa nada tem que obrigue ao socialismo, que nele nem se sequer se prevê o Conselho da Revolução e que não consta que o Sr. Major Melo Antunes se tenha preocupado excessivamente com as diversas violações sofridas por esse Programa (por exemplo, em matéria de descolonização) na altura em que era guia constitucional em Portugal. Sucede que Portugal tem uma Constituição Política e, nestes termos, a referência ao Programa do MFA (aliás, deixada no vago, sem fundamento claro), feita por um membro de um órgão de poder militar, o Conselho da Revolução, que se considera historicamente como a reminiscência do MFA, é altamente preocupante e dá margem a bastantes especulações. Tal como fizera na posse da Comissão Constitucional, Melo Antunes foi longe de mais e desestabilizou, merecendo severa crítica. É certo que Melo Antunes se escuda, dizendo que as suas opiniões são livres como a de qualquer simples cidadão. Mas é importante que Melo Antunes não se esqueça de que não é um simples cidadão, mas um membro do Conselho da Revolução e que, como tal, as declarações que produz assumem a dimensão dos cargos que ocupa e cujas responsabilidades não pode esquecer. Se Melo Antunes quer ser um «simples cidadão» e dizer o que lhe passa pela cabeça, que se demita dos seus cargos. A estabilidade em Portugal muito ganharia com a maior ponderação das suas palavras ou, caso insista em não as ponderar, com a sua qualidade de «simples cidadão»...
Por outro lado, não podem passar despercebidas as acusações de que o PCP foi alvo pelo Comandante da Região Militar do Centro, Brigadeiro Hugo dos Santos. O PC desmentiu, mas o sr. Brigadeiro insistiu, dizendo que tem provas do que afirmara — o envolvimento do PC e de organizações de tipo FEPU em actividades desestabilizadoras dos meios militares. Ficámos assim a saber uma vez mais o que já sabíamos e que constitui um novo motivo de vigilância, O PC não desiste do seu projecto totalitário para Portugal. Não desiste do «companheiro Vasco» e dos SUVs. Não desiste de procurar abafar as liberdades. Não desiste de instabilizar a situação política, procurando comprometer a democracia. Resta-nos a satisfação da determinação e da firmeza das Forças Armadas — aqui demonstrada pelo Brigadeiro Hugo dos Santos — em não tolerar essas manobras e em garantir, contra quem quer que seja, a consolidação da vida democrática. Determinação que naturalmente acompanhamos com a maioria esmagadora dos portugueses e que tem como pólo dominante a figura de Ramalho Eanes, Presidente da República democraticamente eleito. Determinação que conduzirá ao isolamento progressivo dos candidatos a ditadores, já que a sua derrota é inevitável num País que quer a liberdade e o progresso.
Mais uma vez ficam claras as intenções de Álvaro Cunhal e seus acólitos das «amplas»
Mais uma vez fica clara por seu turno, a determinação de quem, contra esses e outros que vierem, contrapõe à tirania a liberdade, à manipulação a seriedade, à intriga a verdade. Firmemente! Mais firmes os democratas que os tiranos!
Cunhal e outros não desistem de que o Leste seja um modelo de opressão para Portugal, mas nós e outros não desistimos de que Portugal seja um exemplo de libertação para o Leste!

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