sexta-feira, 3 de março de 2017

1977-03-03 - Luta Popular Nº 530 - PCTP/MRPP

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Força ou fraqueza?

Em plenário de sindicatos, realizado anteontem, a Intersindical da Traição, entre sucessivas arengas «de protesto» contra a política antioperária e antipopular do governo, aprovou uma moção onde, a par da «rejeição» do «cabaz das compras», se aponta para uma manifestação, a realizar no dia 24 do corrente, contra a «alta do custo de vida». Esta manifestação integrar-se-ia em sucessivas «acções de massas» tendo em vista o «combate à carestia», que hoje tais lacaios revisionistas se propõem alegremente liderar. Paralelamente a Intersindical aprovou também «Um Manifesto aos Trabalhadores Portugueses» e um documento Intitulado de «resolução», onde exprime o conteúdo táctico da sua política antioperária para os próximos meses.
Não é difícil de concluir que tal manifestação visa prosseguir a política de «maioria de esquerda», colocando uma vez mais a reboque o movimento operário e popular. No entanto, o observador atento não deixará de notar ser este a primeira manifestação convocada pela Intersindical da Traição, após a derrota do golpe social-fascista do 25 de Novembro. E perguntará certamente se estamos ou não perante uma manifestação de força da central sindical social-fascista, bem como do sector da contra-revolução que ela representa. E mais, interrogará se esta iniciativa exprime ou não o reforço das posições do revisionismo no movimento de massas.
Em primeiro lugar convém lembrar que o plenário de sindicatos que decidiu da manifestação teve apenas e presença de 140 sindicatos, ou seja, menos de metade dos que compareceram ao Congresso da Intersindical, realizado em fins de Janeiro. O porquê dessas ausências não deve ser alheio ao desmascaramento nesse congresso das direcções sindicais revisionistas, operado pelos sindicatos defensores da linha sindical «Luta! Unidade! Vitória!» que obtiveram nessa tarefa um êxito concludente. O facto de só terem comparecido 140 sindicatos ao «magno plenário» de anteontem elucida-nos bem claramente que, dentro do movimento operário, a tendência principal é para o isolamento dos social-fascistas e não para a consolidação das suas posições. Comprova-o o facto de dificilmente consolidarem tais posições adquiridas no Congresso da Inter.
Em segundo lugar, a convocatória desta manifestação não pode ser encarada à parte da proliferação das traições dos revisionistas ao movimento operário a que vimos assistindo.
Não é verdade que a Intersindical revisionista foi recebida pelo primeiro-ministro logo após o Conselho de Ministros extraordinário da última sexta-feira, tendo em vista a aceitação da parte daquela do famigerado «pacto social» que visa domesticar a revolta dos trabalhadores face à política contra-revolucionária e antioperária do governo? Não é verdade que, depois de tal recepção, não só o governo continuou a falar na urgência e viabilidade desse «pacto social» como aliás o próprio P«C»P, em sucessivas ocasiões, entre elas na RTP, assinalou a «urgência» e tal «viabilidade»?
Não é também verdade que a primeira declaração da Intersindical contra as medidas do governo adveio dias após a sua publicação, pois os caciques da central sindical revisionista tiveram o cuidado de discutir previamente com os seus patrões do Kremlin a oportunidade de as atacar verbalmente?
Não é também certo que a mesma Intersindical mesmo hoje só crítica prudente e mitigadamente e mesmo assim somente aspectos secundários de tais medidas, nomeadamente o facto de elas terem sido tomadas «sem audiência dos trabalhadores». isto é da Intersindical?
Não é também certo que a mesma central sindical apoiou medidas do mesmo tipo, tomadas pelos sucessivos governos provisórios capitaneados por Vasco Gonçalves, desde o aumento generalizado dos preços dos bens de primeira necessidade até à recusa de aumentos de salários? Não é verdade que os sindicatos social-fascistas mantém na gaveta importantes contratou colectivos de trabalho, como o dos metalúrgicos e da construção civil, há mais de dois anos sem que, entretanto, tenham mexido uma palha em defesa dos interesses dos operários.
Hoje as massas populares começam a aperceber-se da situação em que estão os contratos e movimentam-se no sentido de impor uma solução aos problemas tratados nesses documentos que tem que passar pela agudização das formas de luta até hoje adoptadas, única forma de impor as suas legítimas pretensões ao patronato e seus lacaios. Os metalúrgicos movimentam-se. Os operários da construção civil escolhem a greve. Os têxteis estão em greve. Outros exemplos poderíamos apontar.
No entanto, essas lutas já despertam ou estão na iminência de despertar. Ninguém dos revisionistas falou no plenário da Intersindical da Traição. E ninguém falou simplesmente porque essas enormes batalhas de classe em questão implicam uma movimentação considerável de energias pela classe operária e seus aliados que mesmo os revisionistas não estão de forma nenhuma interessados em despoletar.
A estes interessa uma reforma mais que se traduza no reforço das posições da «maioria de esquerda» dentro do aparelho de Estado, base para o incremento da penetração nesse aparelho dos interesses do social-imperialismo revisionista soviético. Convocando tal manifestação, os social-fascistas pensam poder desviar dos seus objectivos essas batalhas, querem trair as reivindicações justíssimas dos operários. Julgam poder assim evitar as greves iminentes e outras formas de luta que os sectores dos explorados em movimento venham a julgar da sua conveniência adoptar.
Força ou fraqueza da Intersindical da Traição? É quanto a nós a sua fraqueza que a convocatória do dia 24 demonstram. A fraqueza da linha política e ideologia da burguesia para mobilizar os operários em proveito dos interesses contra-revolucionários da classe dominante. Convocar uma manifestação desmobilizadora para impedir o desencadeamento de greves e lutas operárias é próprio de quem já não dispõe de outros argumentos para apresentar aos trabalhadores que querem lutar, que exigem lutar e reclamam uma direcção comunista para os próximos combates.

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