sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

1977-02-24 - Improp Nº 23 - III Série - Movimento Estudantil

Avaliação de Conhecimentos:
OS VELHOS MÉTODOS NÃO VOLTARÃO À ESCOLA!

A avaliação de conhecimentos, se sempre tem assumido um papel de grande importância no funcionamento da nossa escola, dada a sua estreita ligação com todos os outros aspectos do processo de ensino e aprendizagem (métodos e conteúdos das aulas, ritmos de matéria, etc.), vem neste momento, com a saída da legislação sobre a matéria, a estar novamente na ordem do dia.
A NOSSA EXPERIÊNCIA NESTE CAMPO
Quando logo a seguir ao 25 de Abril, encetámos as transformações no campo da avaliação de conhecimentos, estas corresponderam a alterações mais profundas no que respeita a conteúdos de matérias, métodos pedagógicos, ritmos de matérias, etc, que tinham por base, uma concepção de ensino diferente da até então aplicada: não um ensino baseado na "sabedoria toda poderosa" dos professores, que do alto da sua cátedra despejavam as suas teorias (por vezes as mais aberrantes) e que os estudantes na sua "humilde ignorância" teriam de acatar, sem discussão, em que só interessava pois, decorá-las; não é um ensino virado para a criação de uma mentalidade competitiva e individualista, através de meios como a ultra-selectividade da avaliação de conhecimentos, a imposição do trabalho individual, etc; mas sim um ensino virado para a compreensão crítica das matérias, que combata o estudo pela competição e pelo tacho, e que ao contrário, incentive o espírito de entreajuda entre os estudantes, de trabalho colectivo, etc.
MUDAM-SE AS MOSCAS MAS A PORTARIA E A MESMA
E assim que a legislação do MEIC sobre a avaliação de conhecimentos sur­ge depois de toda uma série de outras medidas, sobejamente conhecidas, como seja os "numerus clausus" nas Medicinas (e que já se anunciam para os ramos educacionais - será que agora há professores a mais?), o corte de verbas dos serviços sociais, a imposição de um decreto anti-democrático de gestão que restringe a participação dos estudantes na vida da escola, o reaparecer das ameaças de intervenção das forças policiais (encerramento da FEP e do ISCSP)...
O objectivo do MEIC está nestas medidas claramente traçado: repor o carácter selectivo e elitista do ensino superior, e a sua última nota oficiosa dá já a entender que será nesse mesmo se sentido que sairá o decreto que irá regulamentar a avaliação de conhecimentos, fomentando a divisão e a competição entre os estudantes com a corrida á nota, o voltar ao autoritarismo dos professores, que põem e dispõem à vontade, em que a única "motivação" para o estado são os exames.
De nada serve ao sr. ministro tentar convencer-nos de que o que ele pretende com a regulamentação da avaliação de conhecimentos é acabar com o "abandalhamento da universidade" de que ele considera ser um aspecto as formas pedagógicas correctas defendidas pela escola. A experiência que temos tido até agora mostra à evidência que isto é falso: basta ver que o facto de terem sido abolidas as faltas não levou a uma menor afluência às aulas; pelo contrário, no geral, esta afluência até aumentou, principalmente nas cadeiras onde esses métodos pedagógicos foram aplicados, reflectindo assim maior interesse dos estudantes pelas mesmas.
NÃO PERMITIREMOS O RETORNO AO PASSADO!
Nada de bom temos a esperar da portaria que irá sair, mas se o MEIC, servindo-se dos meios legais ao seu dispor, nos poderá impor determinado sistema de classificação, mais difícil será impedir os estudantes de estudar e aprender da forma mais correcta, se para isso não ficarmos passivos perante estas medidas do MEIC; se a elas respondermos firmemente; se, por um lado soubermos, nas turmas garantir que cada vez maior número de estudantes se una na defesa dos métodos pedagógicos e avaliação de conhecimentos correctos, e na correcção dos desvios existentes, e por outro participando massivamente nas reuniões em que este assunto seja tratado, em particular a A.G.E. que brevemente será marcada, ainda mais importantes se tornam estas medidas, se tivermos em conta que aqueles que até hoje já tentaram deturpar e desviar as decisões da escola, irão agora actuar com muito mais desfaçatez.
Estes são somente alguns dos aspectos que nos parecem importantes a serem tidos em conta por todos nós aquando da discussão dos moldes de funcionamento de uma cadeira.
Caberá neste campo às Comissões de Curso incentivando nas turmas a discussão acerca dos problemas de avaliação de conhecimentos, assim como em relação a todos os aspectos de funcionamento das cadeiras que estejam ligados com a consolidação de uma aprendizagem e um ensino críticos e baseados na compreensão, já demonstrado na prática ser o mais correcto.
Esta será uma condição essencial para que a AGE a realizar corresponda de facto à afirmação de que a FCL não embarca nas velhas teorias sobre o ensino, já tão nossas conhecidas dos tempos de Veiga Simão e que Cardia agora pretende repor nas escolas, reafirmando:
- NÃO A UMA AVALIAÇÃO DE CONHECIMENTOS COM FINS SELECTIVOS E COMPETITIVOS.
- POR UMA AVALIAÇÃO DE CONHECIMENTOS ENCARADA COMO UM FACTOR DE APRENDIZAGEM.
- NÃO A UM ENSINO SELECTIVO E ELITISTA.
- POR UMA APRENDIZAGEM CRITICA.

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