quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

1977-02-23 - O Proletário Vermelho Nº 67-68

EDITORIAL
CACIQUES E PEDINCHÕES

Na «tradição» social que meio século de fascismo consolidou após toda a longa monarquia absolutista, existem alguns «personagens» que, talvez por pudor, os romancistas de usos e costumes pouco desenvolveram. Dois deles habitam ainda hoje os comportamentos e os raciocínios de boa parte, enorme parte do português. Trata-se do cacique e do pedinchão.
SOMOS ASES
Em cada um de nós que aprendemos o alfabeto e as maneiras pela cartilha marcelista da Mocidade, existe uma boa dose de um e outro, desequilibrados para o lado que a condição social e a força económica justificam. Ser lusíada é pois ser igualmente um pouco de cacique e um pouco de pedinchão.
Se a vida corre de feição e os ventos da fortuna afloram os tectos do casebre, lá vai o português à rua, de calça afiambrada e bota de prateleira, se não de chapéu à mazantina e espora a tilintar, ostentar espaventos, franzir o ce­nho à malta de ontem e botar o óbulo na mão do senhor cura. Na curva seguinte da vida porém, quando arriba o tempo das vacas magras e se encurta o olho de azeite no caldo das cebolas, ei-lo a exportular misérias e desditas lamurientas com a mesma desenvoltura dos arrotos de pescada da véspera.
Não é que sejamos únicos; todavia, nisto de extremos emotivos, nisto de arengar à canalha ou estender, esmolar, a mão entrapada a fugir, somos ases. Melhor: tomaram-nos ases.
Salazar e o salazarismo foi isto. Exactamente. O corporativismo, a ditadura terrorista foram isto. Entroncando no velho patriarcalismo latino que obriga o senhor a dar o pão à medida do porrete (a inversão das quantidades já é coisa mais explicável de outros modos), fazendo do clericalismo um esteio e da quietude uma bandeira de governo, foi também nesta dicotomia caciquismo-pedinchice que apoiou as patas a besta de 50 anos.
Ora, corridos que vão os tempos da história e esventrados pelo desenvolvimento capitalista os usos da sociedade antiga, resta-nos porém no hábito essa raiz. É assim que, não obstante os quase 3 anos passados sobre a Abrilada, vemos hoje, a todos os escalões alastrar os usos velhos.
UMA MALEITA QUE SE ESTENDE
Anda um primeiro-ministro pela estranja. E que faz? Pedincha. Será forte a expressão porém pouco difere da verdade. Pedincha-se o apoio, o beneplácito. Pedincha-se o «consenso» e o voto. Pedincha-se a nova ordem económica e a reconstrução. Pedincha-se a trégua e o pacto social. E o ciclo da pedinchice.
Após meio século de arrogante império - temperado embora pelo declínio dos últimos 15 anos - meio século de colonização e chicote, de espezinhamento e prepotência; meio século de caciquismo todo-poderoso em que cada senhorete de meia-leca se imaginava um César se tinha três vinténs na bandoleira; meio século ou quase, em que ao desaire se respondeu NÃO, sofrendo-lhe embora os coices mas «orgulhosamente solitários», veio o contraponto. Aí está ele e promete durar.
Não que nos pareça sobrarem ao secretário-geral da social-democracia «de inspiração marxista» as soluções melhores. Bem sabemos que não é fácil resolver a míngua de recursos e a penúria de alicerces produtivos. Não é isso. Falamos apenas porque vem a talho de foice. E é, de resto, verdade.
Porque tal maleita não se fica por aqui, ao grande nível. Estende-se por aí fora até ao último escalão da nova hierarquia. O meu vizinho de ontem que, apenas porque me via direito e abastado, curvava a cerviz e arriscava a espinha, lança-me hoje olhares de vingança e ameaça: foi eleito para a comissão de moradores.
E aqui, quando é a hora da «passagem de classe» esquece-se tudo: promessas, passado, precauções, alianças e princípios. É hora de caciquismo.
Vamos indo nisto enquanto isto durar. Se és fraco, se sentes sob os pés o chão fofo e instável, ameaçador de aluvimentos e trambolhões, agacha-te! Põe-te de acordo com o máximo de coisas possível. Presta-te à farsa da unidade incondicional de pontos de vista e objectivos. Amanhã o vento muda: Alto lá! É chegada então a hora de oprimir, de desprezar, de calcar a pés os pactos de ontem. É a hora de exigir a rendição de tudo e todos, especialmente daqueles que tu próprio procuraste no mau tempo.
E assim se vão os caciques da lei da pedinchice libertando. Voltam aos dedos, os anéis e ao punho o chicote. Esquece-se até, perigosamente, que importa ao menos não engrossar o número de inimigos, não enviar para o seu lado — porque contra nós indispostos — os aliados de ontem.
O QUE O TEM DE APRENDER
Foi assim que o planeta girou, dizia o poeta. Assim há-de girar ainda. E girando desta feita, de mudança em mudança e solavanco em solavanco, há-de girar de vez, a roda da sorte dos perdulários de aliados.
Porque se pode não estar de acordo mas não se pode desprezar assim por muito tempo o passado. Especialmente não se pode pôr, contra nós, esse passado.
Isto tem o de aprender, este valor de ser inteligente e não apenas astuto, de ser estratega e não apenas táctico, de ser pois general de comandos e não somente capitão de cruzada.
Tem de aprender que por cada um destes erros cometidos em nome do orgulho e da vazia glória pagará sempre o preço de mais um braço ao serviço do inimigo. Mesmo que seja apenas por ter deixado de ser seu aliado, por ter transformado o enxovalho de vítima em ódio de inimigo ou em desconfiança de gato escaldado. Se é possível, com efeito, ir sendo hoje pedinte e amanhã cacique, não é improvável ser hoje suzerano e amanhã vilão desvalido. E nessa hora voltarão a fazer falta os aliados. Se restarem.
E quando se é governo de um país ou de um partido, é importante, mais que galgar as escadas do sucesso e instrumentalizar todos os trunfos para subir melhor, assegurar as consequências dos desaires, preparar as condições da queda, aforrar aliados na «alta» para os ter a bom mercado na «baixa». Não o contrário.
Às emoções, é preciso escoá-las, sim, mas convém temperar a arrogância e moderar a lamuria. Para que com lamuria excessiva nos não julguem mais desvalidos ainda e com arrogância ofensiva nos não retribuam na mesma moeda quando nos convier o contrário.
Tratar os aliados como trapos velhos é mau negócio portanto. Que não se esqueça a justa voz popular que manda «arrecadar o que não presta para saber o que é preciso».

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