terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

1977-02-21 - Luta Popular Nº 522 - PCTP/MRPP

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O «PORTA A PORTA» DO PRIMEIRO MINISTRO

À hora em que, o nosso jornal sai das máquinas já deve ter chegado a Portugal o primeiro-ministro do Governo Constitucional, Mário Soares, sendo que o avião transportador teria, em princípio, de aterrar no aeroporto da Portela às 12.45 horas, segundo as informações oficiais recebidas.
Encerou-se assim a primeira etapa do ciclo de grandes visitas que o primeiro-ministro se propôs efectuar nos principais países da Europa «dos nove», do Mercado Comum Europeu, ciclo esse que culminou no passado sábado quando Soares foi recebido no Vaticano pelo Papa Paulo VI, mas cuja continuação está prevista para dentro de breves semanas com o recomeço do cruzeiro soarista.
Com esta última recepção pretende o primeiro-ministro, certamente em posição de vã expectativa, obter o aval da massa dos trabalhadores católicos para as medidas anti- populares que o Governo diariamente deita cá para fora, do mesmo modo como mostra lançar o apoio desse sector da opinião à política de inteira submissão ao imperialismo europeu posta em prática pelos governantes «socialistas» traduzida no recente pedido de adesão à CEE.
O que seta decisivo na definição das tomadas de posição que tais trabalhadores venham a assumir não é com certeza o palavreado demagógico de Soares, mas as condições de vida das massas populares sujeitas a uma deterioração progressiva de dia para dia. Sendo assim, ninguém poderá esperar que os trabalhadores cruzem os braços e virem as suas atenções para as hipócritas propostas de «reconstrução nacional» e de «paz social» que lhes são feitas pelo primeiro-ministro, mas pelo contrário tudo leva a crer que eles lutem e esmaguem uma a uma as medidas do Governo vende-pátrias e vende-proletários.
Adianta o Governo, pretendendo assim escusar-se da manobra política reaccionária que é o pedido de adesão de Portugal à CEE, dizendo que estamos em face da aplicação no campo dos negócios externos do Governo de uma «política de diversificação», diversificação que seria antagónica à submissão de Portugal a qualquer potência estrangeira.
Nós já tivemos uma experiência do que seja tal «política de diversificação» a qual vem do modo como foi definida e levada à prática por Melo Antunes.
A «diversificação» preconizada pelos lacaios do capital é a venda de Portugal não apenas a um único imperialismo, mas a diversos imperialismos: é fazer do nosso país e do nosso povo moeda de troca entre diversas potências imperialistas e é, ainda, alienar por inteiro a nossa Independência Nacional, colocando-a nas mãos de clubes capitalistas internacionais prontos a tentar espezinhar a classe operária portuguesa e todo o povo trabalhador de Portugal.
Foi essa a política de Melo Antunes. Ou não é verdade que, quando este senhor se encontrava à cabeça do Ministério dos Negócios Estrangeiros, ao tempo do VI Governo Provisório, se deu o reconhecimento da RPA pelo Governo português, reconhecimento inteiramente repudiado pelo nosso povo?
Ou não é verdade que, durante esse período, se deu a constituição da Aminter e se celebraram outros negócios desiguais com o social-imperialismo tão ruinosos como aquele?
Ou não é verdade que, durante o consulado do major Antunes, Portugal contraiu toda uma cadeia de empréstimos imperialistas (obtidos em viagens afanosas do senhor em questão) que hoje está a pagar a peso de ouro?
É verdade. Como o «Luta Popular» tem vindo a denunciar a política do PS, prolongando no essencial a actuação do major Antunes, leva até ao fim os seus objectivos da agravar a dependência e a exploração do nosso povo, preparando a cama aos diversos imperialismos e às superpo­tências que lutam pela partilha do território pátrio.
Alguns oportunistas entendem que devendo essa «política de diversificação» ser teoricamente combatida, no entanto Portugal tem de entrar para a CEE a pretexto que essa entrada enfraqueceria as posições do social-imperialismo soviético, sendo portanto uma medida positiva o pedido de adesão do governo.
Tal significa, não contribuir para a unidade do povo europeu e da classe operária, mas contribuir antes para a enfraquecer, pondo os seus interesses próprios revolucionários a reboque dos interesses contra-revolucionários dos capitalistas europeus e dos monopólios imperialistas desta zona do Velho Continente. Os Estados Unidos da Europa capitalista, se alguma vez existirem, jamais passarão de uma associação de bandidos imperialistas, como o é já o Mercado Comum, forjada com o intuito de explorar e oprimir ainda mais as massas populares.
A esse respeito o povo português não pode nem deve tergiversar. E pelo contrário, ele deve apontar a dedo e desmascarar implacavelmente todos aqueles que o pretendem, a pretexto de teorias como as estigmatizadas, manter amarrado ao carro da exploração capitalista e imperialista.
Por isso denunciamos o «porta a porta» de Soares na Europa Ocidental como um roteiro inteiramente humilhante e absolutamente contrário aos interesses do nosso povo; como a manifestação mais acabada de uma política reaccionária de sujeição ao imperialismo e ao social-imperialismo; e, também, como uma verdadeira provocação aos sentimentos profundamente patrióticos do povo português.
Os novos desenvolvimentos do movimento operário constituirão sem dúvida a melhor resposta das massas à política do Governo e tirarão com certeza o sono à Europa dos monopólios imperialistas que nos pretende oprimir e explorar ainda mais.

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