quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

1977-02-16 - Bandeira Vermelha Nº 057 - PCP(R)

EDITORIAL
TRABALHADORES EM LUTA CONTRA A MISÉRIA, CONTRA O FASCISMO E CONTRA O IMPERIALISMO

Reveste-se de grande importância política actual movimentação maciça dos trabalhadores de resistência às medidas antipopulares do governo, de rejeição da política de recuperação capitalista e de repúdio pela protecção dada à reorganização dos fascistas. A extensa ofensiva grevista e reivindicativa abarca largas centenas de milhares de trabalhadores e, pelas suas características, eleva a luta de massas ao ponto mais alto dos últimos meses.
Por todo o país se encontram empresas ou sectores de trabalhadores em luta o que confere ao actual movimento uma dimensão nacional.
A acção estende-se por zonas do interior e do norte do país, facto revelador de que não só as grandes concentrações operárias e as grandes fábricas se movimentam, mas sobretudo que novos sectores de trabalhadores e de empresas se decidem a resistir e a opor-se à ofensiva capitalista.
A actual onda grevista e reivindicativa conjuga a extensão com a profundidade das lutas: as amplas movimentações assumem formas radicais que tendem a generalizar-se.
Acresce ainda que não se assiste apenas a uma multiplicação das lutas por todo o país, mas também à definição de grandes blocos que constituem a espinha dorsal do movimento por agregarem sectores afins de trabalhadores com objectivos de luta comuns a nível nacional: os operários têxteis, os pescadores, os trabalhadores da função pública os electricistas e os metalúrgicos.
Verifica-se finalmente que o actual movimento não se limita aos trabalhadores que entraram já em luta; pela natureza das reivindicações, pela amplitude das lutas e pelo estímulo que representam abrem possibilidades ao desencadeamento de novas lutas em novos sectores.
UMA MOVIMENTAÇÃO QUE PÕE EM CAUSA A POLÍTICA DE RECUPERAÇÃO CAPITALISTA E DE ENTREGA AO IMPERIALISMO
Nas circunstâncias de crise geral do capitalismo em que continuamos a viver, a onda de lutas que agora sobe de tom não representa apenas uma resistência à ofensiva económica burguesa. A resistência dos trabalhadores sobretudo da forma maciça que agora se apresenta, vem pôr directamente em causa todo o plano de recuperação capitalista a todos os níveis.
O confronto directo com as medidas do governo, com a legislação saída e as formas extremas que as lutas tendem a assumir são mostra de que se trata de um conflito de classes com uma importância política imediata. Nestas condições, as respostas do governo aos trabalhadores em luta têm o significado da reafirmação, pela cúpula dirigente do PS, da sua política de entrega do país ao imperialismo, de recuperação capitalista (com especial protecção dos grandes capitalistas), e de cedência frente às exigências dos reaccionários.
O Governo resolveu, assim, inaugurar uma nova política de ataque aos legítimos direitos e às justas exigências dos trabalhadores, marcada pela ameaça terrorista de envolver forças militares no conflito que o opõe aos trabalhadores, para o que utilizou os serviços do ministro da defesa, de proceder à requisição civil, como no caso dos pescadores, e, inclusivamente, de negar direitos constitucionais básicos, como aconteceu no caso da prevista greve dos trabalhadores da Função Pública, sobre a qual o conselho de ministros emitiu um comunicado que, no fundo, declarava sem direito à greve os funcionários públicos.
O quadro em que esta acção do governo se desenrola é o de um progressivo envolvimento político feito pela direita reaccionária e aceite pelos dirigentes direitistas do PS. As declarações do chefe do CDS feitas recentemente a um jornal governamental, provam este envolvimento. Mais: declaram expressamente que a táctica da direita fascista é proceder a um apoio calculista do Governo de modo a amarrá-lo a uma política cada vez mais de direita, cada vez mais favorável aos propósitos antipopulares dos grandes capitalistas e do imperialismo.
Mas alargando ainda mais a visão da situação, verificamos que a acção do governo e toda esta manobra da direita se desenrolam, por sua vez, no quadro da integração de Portugal no Mercado Comum. A política do Governo, a manobra dos fascistas e do imperialismo conjugam-se com os projectos de integração de Portugal na CEE. Tanto os social-democratas e o PS, como os democratas-cristãos reaccionários e o CDS convergem neste objectivo. Todos estão de acordo em exigir não só mais sacrifícios ao povo português, como sobretudo em impor-lhe restrições à liberdade e aos direitos adquiridos, tanto mais quanto a pressa de integração na CEE não é determinada por imperativos económicos, mas, prioritariamente, por exigências políticas. O preço exigido pela "Europa dos Nove" de bom grado aceite pelos reaccionaristas, é a "pacificação" da situação política à conta dos direitos, do nível de vida e das liberdades do povo português.
APOIAR O CRESCIMENTO E OS OBJECTIVOS POLÍTICOS DAS LUTAS
Por tudo isto, as actuais lutas dos trabalhadores assumem um alto significado político. As suas potencialidades são enormes, como mostram a determinação dos pescadores e dos operários têxteis. Encontram pela frente, porém, um factor que as entrava, as desvia e as desmoraliza — a acção divisionista e sabotadora dos dirigentes revisionistas e dos seus representantes no movimento sindical. O exemplo vergonhoso que esses agentes da burguesia já deram a respeito da luta dos trabalhadores da função pública, alerta-nos para o propósito que alimentam de desviar dos seus objectivos mais fundos as movimentações dos trabalhadores. Os burgueses revisionistas farão tudo para, na sua táctica de entendimento por qualquer preço com a cúpula soarista, amortecerem com as armas que tiverem na mão as lutas, apagarem o surto grevista e reivindicativo e retirarem aos trabalhadores a iniciativa na oposição às medidas reaccionárias do Governo.
Contra tudo isto, é preciso que as organizações sindicais, com especial responsabilidade para os sindicalistas revolucionários, desenvolvam todos os esforços para impedir a desmoralização e os entraves causados pelos revisionistas e procurem estimular a confiança dos trabalhadores nas suas forças.
As actuais lutas e as que estão em perspectiva têm três qualidades essenciais nas quais se deve apoiar a direcção política do movimento.
São lutas que se desencadeiam em defesa de conquistas alcançadas pelos trabalhadores e postas em risco pelo Governo e pelos reaccionários; ou que fazem legítimo uso de direitos adquiridos para melhorar a sua condição de vida, como é o caso das contratações colectivas.
São lutas que, pelas suas implicações na política seguida pelo governo, entram em choque com a entrega do país ao imperialismo e aos grandes capitalistas e com as condições políticas impostas pela social-democracia europeia para a integração de Portugal na CEE.
São lutas que, pela ligação da política do governo com as ameaças fascistas se levantam contra a avançada da direita e a rendição do governo aos reaccionários.
Pela força que mostram ter, pela amplitude que podem alcançar, estas lutas têm possibilidades de elevar a um degrau superior o movimento operário e popular no nosso país, pondo em cheque a política de recuperação capitalista antipopular do Governo, as manobras de diversão dos revisionistas e a sua conivência objectiva com esta política, e os propósitos dos imperialistas e dos fascistas de instauração de um regime reaccionário.

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