sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

1977-02-10 - Revolução Nº 099 - PRP-BR

EDITORIAL

O perigo de um golpe de direita vem tornar cada vez mais importante a unidade necessária a vários níveis.
Na verdade há sinais visíveis da ameaça de um golpe fascista. O à vontade com que a extrema direita se organiza, escreve, movimenta é característico de quem tem sinal verde para actuar. A forma como os grupos de retornados reaccionários se organizam para formar «esquadrões da morte»; a reorganização dos antigos da Legião Portuguesa; a utilização dos ex-pides para «trabalhos» especiais; o estranho envolvimento em casos de delito comum de figuras ligadas a partidos políticos tudo isso nos faz pensar que existe um sector de organização da direita cuja fronteira com o poder é difícil de definir.
Mas é já em pleno centro do poder que se assiste a movimentações da extrema direita, militar e civil, que tomam claro que se forja um golpe fascista. É de resto dentro do poder também que ele é praticamente denunciado pelas palavras de Vasco Lourenço em Mafra.
Esta organização de direita tem também a sua campanha de agitação e propaganda, a qual se encarrega de criar, ao nível social, um clima propício à sua actuação. Os agitadores de direita, que nos sítios públicos fazem caminho ao fascismo, conjugam-se com os jornais de extrema direita, mais ferozmente pró-nazis do que foram no tempo do antigo regime.
E, claro, como último degrau da escalada faltava o elogio de Silva Pais, que juntamente com o regresso de Tomás e Caetano, serão as portas a franquear para que se crie um clima de aceitação do fascismo.
A par disto, o «Relatório das Sevícias» foi um pretexto legal para liquidar os oficiais progressistas. Atrás de Rosa Coutinho outros irão, para que sejam afastados pelas vias, por enquanto, legais.
É perante tudo isto que a questão da unidade se torna urgente e importante. Mas a unidade é sempre a «difícil unidade». Difícil porque exactamente significa que têm que estar juntos aqueles que não são iguais.
A unidade por outro lado não é um conceito abstracto. Tem que se concretizar no dia-a-dia, em cada táctica, em cada luta.
A unidade de carácter superior que era o projecto do MUP autodestruiu-se. No entanto esse projecto fica de pé, como a possibilidade de uma auto-superação dos partidos, como a possibilidade de unir simultaneamente vários níveis de organização. Mas isso já nada tem a ver com aquilo a que se chama MUP, dominado por um partido stalinista, longe das lutas e da realidade concreta.
No entanto, em todos os momentos e em cada passo da história, a unidade é uma questão que tem de ser resolvida, faz parte imprescindível da táctica dos revolucionários.
A unidade que hoje se põe aqui vai desde a unidade revolucionária de base até à ampla unidade antifascista, que inclui todos aqueles que são objecto da perseguição fascista.
Para os trabalhadores, nos bairros, nas fábricas, nos campos, interessa fazer unidade à volta de problemas concretos - A luta por uma informação revolucionária, a luta contra os despedimentos, a luta contra medidas sobre as empresas em autogestão ou intervencionadas que correm risco de fechar, a luta por melhores salários nas empresas com baixos salários. Estas lutas concretas não devem, no entanto, fazer esquecer a luta pela tomada do poder pelos trabalhadores, única possibilidade de operar transformações profundas que solucionem os problemas.
Por isso os trabalhadores não podem esquecer outras formas de unidade sectores da pequena burguesia atingidos pela crise, pequenos camponeses funcionários públicos, etc.
Tem que ser em clima de unidade que os militares nos quartéis têm que resistir à avançada fascista, que aí mais que em qualquer outro lado se as sentir.
E em unidade talvez então seja possível impedir o fascismo.

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