sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

1977-02-10 - Luta Popular Nº 513 - PCTP/MRPP

Comentário
UMA CANDIDATURA EM SOBRESSALTO

Da reunião havida anteontem em Bruxelas entre os ministros dos Negócios Estrangeiros dos países da Comicidade Económica Europeia (vulgo Mercado Comum} não saiu a certeza tão ansiada pelo Governo Constitucional, da aceitação da adesão de Portugal àquela organização. O comunicado final conserva a ambiguidade, da atitude da CEE face à candidatura apresentada pelo Governo «socialista»: «Os Estados membros alegrar-se-iam com o alinhamento político na Europa de Portugal democrático. Mas os Estados membros exprimem a sua preocupação perante os problemas postos a Portugal pela integração nos domínios económico, social, financeiro e agrícola, assim como para a comunidade, a qual deve preservar o seu desenvolvimento interno e externo».
As reservas dos capitalistas europeus quanto à entrada de Portugal na sua organização de classe reaccionária mantêm-se... Para procurar dissipá-las, o Primeiro-Ministro Mário Soares vai partir para Bruxelas no dia 14 do corrente. O sentido mendigante dessa viagem que significa um autêntico cruzeiro de humilhação nacional promovido por um Governo disposto a sacrificar até à mínima parcela a Independência da nossa pátria e do nosso povo já foi diversas vezes denunciado nas nossas páginas. Do mesmo modo, o Luta Popular teve ocasião de mostrar as raízes das divergências entre os países membros da CEE acerca da entrada de Portugal para a organização, raízes que assentam fundamentalmente nas inevitáveis divergências entre os diversos representantes do capitalismo europeu, ávidos em saquear o trabalho e os recursos de cada povo e disputando-se ferozmente entre si para o fazer.
O que há de essencialmente novo nesta deslocação é o facto de ela ter lugar num momento em que se ergue um grande movimento grevista contra a fome, a miséria e o desemprego e quando o Governo «socialista» ameaça com a intervenção da notícia, os despedimentos e os processos disciplinares para tentar domesticar este combate popular da envergadura. Mais; para justificar a repressão que prepara contra os trabalhadores do Estado, os pescadores e os operários têxteis, o Governo adianta simplesmente que as suas lutas constituem, um poderoso obstáculo ao deferimento pelo imperialismo europeu da pretensão manifestada por Portugal em relação à entrada para a CEE, uma campanha de boicote à candidatara em julgamento em Bruxelas e um factor de «desestabilização» obviamente «antidemocrático». Tal o juízo para que aponta o comunicado final do Conselho de Ministros de terça-feira.
Se outras razões não existissem, esta última bastaria para demonstrar a natureza imperialista do Mercado Comum e a política vende-pátrias do Governo, inteiramente subjugada às exigências das potências europeias e vergando-se saloiamente aos seus cada vez mais gravosos ditames. Para não desagradar aos capitalistas da CEE o Governo pequeno-burguês não hesita em ameaçar e preparar medidas de extensão repressiva inédita vara atacar o movimento operário e popular português. Pensa que dessa forma poderá quebrar as hesitações dos senhores ministros europeus, tão claramente expostas na sua reunião de Bruxelas.
No entanto, as perspectivas não são risonhas para o Governo Constitucional. A França e a Itália receiam a concorrência portuguesa em relação aos produtos agrícolas da zona mediterrânica (vinhos, citrinos, fruta e legumes) e não escondem a sua divergência face à entrada de Portugal na CEE, entrada por sua vez defendida pelo mais forte dos imperialismos europeus (a RFA) bem como pela Inglaterra, os quais actuam desta forma como porta-voz dos interesses do imperialismo americano por sua vez extremamente interessado em dispor de uma testa de ponta no Mercado Comum, capaz de servir as ambições que experimenta de conseguir penetrar na economia interna dos seus países membros.
Por isso mesmo, não é de prever que a entrada de Portugal para a CEE se verifique com a facilidade e rapidez que estariam nos projectos governamentais. E, se lembrarmos que o centro da propaganda do PS nas últimas eleições legislativas consistiu no hoje estafado «slogan» «Europa connosco» poderemos calcular facilmente as repercussões que traria uma recusa cuja possibilidade não está de modo nenhum afastada,
O que se está a passar quanto à candidatura de Portugal de adesão à CEE é um reflexo em matéria de política externa do que se passa internamente a crise de um Governo, de um Partido e de uma conjuntura que os catapultou para o poder. Os próximos acontecimentos poderão abrir o campo de nova conjuntura. Mas a classe operária e o povo têm um papel dirigente em todas as mudanças de tomo que se produzam nesta sociedade. E a conjuntura que poderá sair do desenvolvimento das contradições existentes, por mais reviravoltas que dê entretanto a actual, reflectirá necessariamente esse papel.

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