sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

1977-02-10 - A luta pelo contrato colectivo - Sindicatos

AOS TRABALHADORES DO SECTOR DE FABRICANTES DE MATERIAL ELÉCTRICO E ELECTRÓNICO

A luta pelo contrato colectivo
TODOS AO PLENÁRIO – DIA 12
SÁBADO – 15 HORAS – NA VOZ DO OPERÁRIO

Há 7 meses que se arrastam as negociações do nosso C.C.T.
7 meses foi o tempo de que as direcções sindicais e a comissão negociadora (C.N.) precisaram para tirarem esta "difícil" e "surpreendente" conclusão: "As entidades patronais não querem aceitar as reivindicações dos trabalhadores!"
7 meses foi o tempo necessário (talvez exagerado se não déssemos por esquecida a experiência passada), para que, a partir dos factos, também nos tenhamos de concluir que a comissão negociadora está a entreter os trabalhadores, está a actuar como capa das manobras dos patrões e, no fundo, a sua actuação, a continuar assim, não nos lavará a obter vitórias, mas a acumular derrotas.
Mas vamos aos factos:
Em todos os plenários a comissão negociadora repete as mesmas lamentações contra a "ingratidão" dos patrões que não há meio de "compreenderem e aceitarem" as reivindicações dos trabalhadores! Mas apesar de tudo, lá andam entretidos uns com os outros (e a tentar entreter-nos a nós) há já 7 meses; e preparam-se (e preparam-nos), para mais uns meses de cavaqueira inútil pelas salas alcatifadas dos ministérios, enquanto nós continuaremos a ser chamados a ir aprovando umas moções de "repúdio" e de "protesto", cujos resultados não são nenhuns a não ser criar-nos ilusões.
Mas qual é a realidade que se esconde aos operários? Qual é a realidade que certas pessoas não gostam que se saiba e que pensam esconder indefinidamente com gritos de "unidade" e com acusações berradas de "divisionismo!” - esses sim responsáveis pela divisão e pelo aumento de exploração dos operários?
— Quando, no plenário de delegados do dia 3, um delegado sindical perguntou a C.N. se pensavam apresentar aos patrões uma proposta salarial mais baixa do que aquela que está aprovada, a resposta foi:
"Nós vamos apresentar uma proposta, mas não lhes podemos dizer (aos delegados) qual e, porque não queremos que o patrão saiba!" E acrescentaram: "Essa proposta será com base na crise do sector!" Só depois é que vieram a acrescentar, a título de explicação: "E, claro, também com base no aumento do custo de vida!"
Então em que ficámos? C.N. agora já não dá a conhecer aos operários aquilo que pretende negociar com os patrões, para apanhar os patrões (e os trabalhadores...) de surpresa? Para a C.N., nestas coisas, o segredo é a alma do negócio, e os delegados sindicais já não lhe merecem confiança?!
- Quando, no plenário de delegados do dia 3, uma operária, delegada sindical da J.B. Corsino, apresentou uma moção aprovada na sua fábrica, em que se censurava a forma "branda, e fraterna" com que a C.N. trata os patrões, e ao mesmo tempo informou que essa moção tinha sido afixada na fábrica para conhecimento de todos os operários, foi grandemente criticada por alguns dos presentes que acharam que as críticas publicas a uma tal comissão eram uma posição contra-revolucionária e que iam colocar os trabalhadores ao lado dos patrões!
- Quando alguns delegados presentes atacaram a C.N. por ter aceite no contrato a lei dos despedimentos feita pelo governo e que permite aos patrões despedirem quem entenderem, sem grandes encargos, logo um conhecido "filósofo palrador" da Standard se apressou a dar a saída brilhante para os maus lençóis em que a comissão estava metida face aos trabalhadores. Diz ele "Os despedimentos não são uma causa perdida, porque a comissão negociadora concordou com eles; mas a causa logo ficou perdida quando saiu a lei!”
Por aqui se vê a convicção com que esses "contestatários" e profissionais da gritaria "combatem" as leis anti-operárias do governo! Na sua opinião, uma vez publicadas as leis, nada mais restaria aos operários senão “curar" a revolta com uns gritos ou umas moções de protesto, pedir ao governo o favor de anular as leis que fez, e, entretanto, ajoelhar, suportar e calar.
Mas a brilhante teoria dessa brilhante cabeça ainda foi mais longe a explicar como é que é possível a C.N. "limpar-se" perante os operários da traição cometida ao aceitar os despedimentos. Veja-se a explicação:
"A adenda sobre os despedimentos vai ser discutida na arbitragem.
Aí quem vai decidir é o árbitro do ministério, o árbitro dos patrões e o árbitro sindical. Os dois primeiros vão votar a favor da lei e o árbitro sindical vota contra". E então dá-se o milagre: "democraticamente" o árbitro sindical (leia-se os operários) é vencido "por maioria". E a rematar a sua intervenção: "Não queremos que os trabalhadores digam que fomos nós que os pusemos com um mês de indemnização por cada ano!"
Nem mais: a arbitragem acaba assim por ser uma coisa "boa", porque apresenta aos trabalhadores, como sendo apenas uma imposição do governo e dos patrões, aquilo que antes já mereceu a concordância da comissão sindical! Quem sabe, sabe!...
Convirá lembrar que já na anterior revisão, precisamente um dia antes de os patrões serem forçados a aceitar os 6 e 8 meses de indemnização que agora a comissão negociadora aceitou trocar por 1(!) mês, um dirigente sindical tinha proposto, já nessa altura, que se abdicasse da nossa proposta e se reduzisse para 4 e 6 meses, para ser mais fácil o acordo! A história já é velha!
É por isso que, sempre que os trabalhadores querem lutar, aparecem logo esses "bombeiros" da luta de classes a fazer discursos inflamados para ver se assustam os operários: "Lutar não, porque isso é dar trunfos à di­reita! Lutar não, porque isso é desestabilizar a situação!" Como se a vida dos operários estivesse agora, ou até agora alguma vez, estabilizada, a não ser em dificuldades e sobressaltos!
Pensamos que a comissão negociadora deve não só defender intransigentemente aquilo que os trabalhadores já conquistaram (como é o caso dos despedimentos), mas também defender intransigentemente o direito dos trabalhadores a uma melhoria das suas condições de vida e de trabalho, de acordo com a proposta que foi aprovada pelos trabalhadores.
Os trabalhadores deste sector já têm uma grande experiência que nos ensina que sem luta nada conseguiremos de bom.
A condição da unidade e da vitória é a fidelidade que a comissão negociadora e as direcções sindicais devem manter à proposta que os trabalhadores aprovaram, apoiando-se exclusivamente na nossa necessidade e vontade de lutar.
PELA DEFESA DA PROPOSTA DOS TRABALHADORES!
CONTRA A LEI DOS DESPEDIMENTOS!
PELA DEFESA DAS REGALIAS JÁ CONQUISTADAS!
TODOS AO PLENÁRIO!
LUTA! UNIDADE! VITÓRIA!

Lisboa, 10.2.77
UM GRUPO DE DELEGADOS SINDICAIS DO SECTOR DE MATERIAL ELÉCTRICO

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