quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

1977-02-09 - O Proletário Vermelho Nº 66

EDITORIAL
ESTES PEQUENOS BURGUESES QUE NOS QUEREM GOVERNAR

Aconteceu-nos de facto, uma estranha coisa. Seria mesmo ainda mais estranho se não houvera acontecido. Poucos são os que conseguem explicar hoje a «estranha coisa» que foi a longevidade do salazarismo. Daí que acabe de ser natural que os sucessores se debatam (e sejam reflexo) da estranheza.
Sucedeu pois assim que não temos hoje nem direita que «preste», nem esquerda que lhe arrime no toutiço! Do governo aos partidos, dos partidos à informação, da informação ao exército, as situações oscilam entre a mediocridade, os «complexos históricos» e a apatia incapaz. E, de tal feita, se vai levando um povo em quase três anos de história! E assim — dizem — nos vamos «da herança fascista libertando». Morrendo... de «liberdade» inútil. Estiolando de «democracia» ineficaz. Amolecendo de «independência» palavrosa.
Pobre burguesia esta condenada a governar a sua própria condenação!
APOSIÇÃO QUE TEMOS
Os liberais, na oposição, têm jornais, apoios, dinheiro, influências. Mas que fazem? Jogam às palavras, fazem mau - horrível — jornalismo, malbaratam as influências, ocultam os dinheiros.
Os social-democratas «de inspiração marxista» têm o poder, votos, «a possibilidade de fazer». Mas que fazem? Enredam-se nas suas próprias contradições, dividem-se, gastam munições contra os social-democratas «não marxistas» e reeditam o patriarcado impossível de um país em auto-gestão anárquica com um conselheiro fiscal dito «governo».
Os outros, os «não de inspiração marxista», enchem o cachimbo, apertam o laço do no pescoço gorducho, pilotam o seu «Porsch», avançam a «boutade» de tertúlia em vez da proposta de lei de oposição e passeiam no estrangeiro a sua incapacidade de lutar contra a corrente.
Ficam os fascistas. Fica Kunhal e Caúlza. Os inimigos e os saudosistas. Os que avançam em meio da confusão e os que puxam a labita do passado como quem se agarra a fundilhos de luxo, desabafando em raivinhas a frustração da derrota.
São pois apenas perigosos de intenções os que se não corrompem de poder ineficaz nem apodrecem de oposição inconsequente.
Soturnamente, como a noite, avançam sobre o terreno, colhendo do povo ignaro os frutos prestigiados de quem pouco erra, porque não fala, e pouco perde, porque não arrisca.
Perante os pequenos burgueses que querem, ridiculamente, governar-nos esbracejando, são aqueles quem marca os pontos, quem marca os ritmos, quem comanda os tempos.
QUANTAS ALTERNATIVAS MAIS?
Se o primeiro ministro anuncia 1977 como o «ano do golpe fascista»; se o governador militar de Lisboa anuncia estar o exército apto á «arrancada necessária contra o fascismo»; se do miradouro do poder, pequeno e burguês, só o mirrado e caquéctico fascismo horizonte, é fácil ser oposição.
Se, porém, na oposição, uma parte se perde social-democraticamente em «boutades» de efeito cénico, ou «centristicamente» em namoros dengosos ao poder estabelecido, então o terreno está óptimo para fazer germinar o «contra-golpe». Que não será do governo, obviamente, nem dos que no horizonte não vislumbram o fascismo. Mas sim dos que necessitam dele para distrair as atenções.
E lentamente, corroendo a fé do povo na própria liberdade e a esperança na própria democracia, o contra-golpe social-fascista avança. O processo histórico repete-se: a alternativa democrática corrompe-se e dá à luz um novo crepúsculo totalitário.
Do marcelismo para o spinolismo; do spinolismo para o gonçalvismo; do gonçalvismo para o meloantunismo; do meloantunismo para... onde?
Quantas alternativas mais até à exasperação dos sentidos, á perda da confiança na própria democracia dos burgueses pequenos? Quantas alternativas até à alternativa do «Grande Burguês Moscovita»?
Vivemos a época histórica da degradação do capitalismo, vivemos a maior crise histórica do poder burguês quando, perante ele próprio, se abre apenas a viela escura da opressão ou a cova funda do cemitério. Incapazes de serem eles próprios os nossos pequenos burgueses, atropelam-se ridiculamente, partido contra partido, fracção contra fracção, tendência contra tendência, dando-nos o espectáculo ridículo da aranha enredada na própria teia, do D. Quixote contra os moinhos de vento que a própria história ultrapassou.
Cada um deles esperneia quando se sente arrastado, para se acomodar quando se sente «livre» e ficar à espera... do próprio suicídio!
Esgrime-se com a «herança fascista» para ocultar a incapacidade de a alijar das costas do país com uma dose necessária de trabalho e não de «complexos de culpa».
Coloca-se a táctica à frente da estratégia e assim se vai fazendo o país marchar, sem rumo nem sentido, ao sabor dos percalços e contingências do «prec».
SABOTAR AS CONTAS QUE ALGUNS FAZEM
E o Zé?
O assiste, sofre a porrada maior em cada hesitação e nova «experiência», produz como pode na mira de sobreviver e cansa-se de esperar. De esperar inimigos que se vejam bem e soluções que o aconcheguem finalmente.
O pensa a própria confusão. Cogita, c’os botões da camisa e, sem polo que o guie à força de correr atrás de estrelas cadentes, amadurece para a Revolução que se exige se o não deixar apodrecer de desalento. Se q não fizerem votar contra o seu próprio futuro... para sobreviver AGORA! Se o não levarem a aceitar novas experiências para, desesperadamente, tentar a saída da viela sombria da falta de alento e fé. Na falta de perspectivas.
Se o não levarem, com tanto e tão inconsequente «anti-fascismo», a aceitar a alternativa fascista. A tentar encontrar no fascismo Kunhalista a porta de saída para qualquer lado.
São as contas que, na sombra, o Grande Burguês faz. As contas que às claras, é preciso sabotar JÁ. Sendo cada um aquilo que é e não outra coisa.
Sendo, cada burguês, pequeno, à portuguesa, ele mesmo e não o outro. Sendo o governo que aí está, o governo de Portugal e não, apenas, como até aqui, o vigilante de uma crise para a qual não é capaz de apontar a saída.
EVITAR QUE SEJA TARDE DEMAIS
Se a eficácia tem de estar dramaticamente na mão da oposição mais nítida, é urgente que um poder vá, a essa oposição, buscá-la. É urgente meter ponto final à «maioria de esquerda» em nome da «maioria do povo». Para que venha a ter, do seu lado, o povo contra a oposição que restar. Contra aquela oposição que hoje, surdamente, espera que seja tarde demais para saltar às goelas da liberdade. Contra o Kunhal-fascismo, o único perigo que nos ameaça a sério.
Que é essa a única saída destes burgueses pequenos que nos governam: aliarem-se contra o Grande Burguês que nos ameaça! E assim, 1977 não será com efeito «o ano do golpe fascista».

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