quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

1977-02-08 - Unidade Popular Nº 107 - PCP(ml)

Devido à inoperância do Governo e à conciliação
O PS patenteou no Congresso do Porto a sua crise aguda

No mesmo dia 30 de Janeiro em que terminava em Lisboa o II Congresso fantoche da Intersindical - prova de força e arregimentação nazi do partido de Cunhal -, o PS levava a cabo, num ambiente de desmobilização, confusão e anarquia, a última sessão do seu Congresso iniciado em Outubro.
Esta sessão do Congresso do PS, cujo único ponto da ordem de trabalhos era a aprovação dos novos estatutos, vincou mais profundamente a crise do PS.
Não fora o PS o partido de Governo, o maior partido em eleições, o partido que granjeia actualmente o apoio das principais forças ocidentais, e a sessão do Porto só nos proporcionaria momentos de bom humor. Mas as responsabilidades do PS na vida nacional são grandes e obrigam-nos a prestar a devida atenção à crise que poderá conduzi-lo à ruína.
Da desmobilização à falta de quórum
Deveriam estar presentes no Congresso 914 delegados. No entanto, o número máximo rondou as cinco centenas e meia, o que significa que faltaram à sessão cerca de 40% dos delegados. Foi este o aspecto mais gritante da total apatia e desmobilização que caracterizaram o Congresso. Mas esta situação agravou-se quando, durante os trabalhos, houve deserções de delegados ao Congresso ou à sala de trabalhos, em preferência pela porta da entrada ou a confraternização no bar. A certa altura, António Arnaud, da mesa do Congresso, ordenou o encerramento do bar para que não deixasse de haver quórum!
Essa medida tão «ditatorial», porém, não resolveu o problema: ao início da noite já não havia o quórum necessário para continuar os trabalhos. Sendo necessários 458, estavam na sala 437 delegados apenas.
No discurso do encerramento precipitado pela falta de quórum, Mário Soares haveria de «justificar» a desmobilização com dois «brilhantes» motivos: o primeiro era que discutir estatutos é «ingrato», nada «apaixonante»; o segundo, pior ainda, que estava «muito frio» na sala do Liceu Garcia da Orta!...
Dois dias depois do Congresso, Mário Soares voltou a deitar água na fervura. Querendo minimizar a vergonha da falta de quórum, Soares disse que ela tinha sido «perfeitamente normal». Por seu lado, Jorge Campinos diria que o assunto a discutir era «árido» e as condições de trabalho pouco «agradáveis». Tantas e tantas vezes - e fê-lo também no Congresso - tem Soares gritado que o PS é o «maior partido nacional», o «mais implantado», que foi o PS que «salvou Portugal do gonçalvismo»! Nem os mais ingénuos caiem na esparrela: o «maior partido nacional» não pôde terminar o Congresso porque não conseguiu reunir um pouco mais de meio milhar de militantes.

Os submarinos aproveitaram-se da bandalheira
Esta situação grave, ridícula e humilhante foi logo aproveitada pela ala pró-social-imperialista dirigida ali abertamente pelo submarino Lopes Cardoso. Durante todo o Congresso, Lopes Cardoso levou uma grande parte dos delegados a contestar as posições da ala de Mário Soares. A ala dos submarinos conseguiu apreciável número de votos e inclusivamente a vitória numa votação sobre métodos de trabalho. O grupo do submarino Lopes Cardoso aproveitou-se às mil maravilhas da péssima organização do Congresso e das numerosas gaffes da ala de Soares. O ex-Ministro da Agricultura pós o dedo na ferida quando apontou os motivos da desmobilização e a falta de democracia. É inegável que o submarino Cardoso tinha efectivamente razão. Ele tinha razão, por exemplo, quando disse que muitos militantes e mesmo delegados ao Congresso não haviam tido conhecimento do projecto de Estatutos senão três dias antes do Congresso ou nem isso. Lopes Cardoso tinha igualmente razão quando, no canto do cisne do Congresso já sem quórum, acusou de antidemocrática a proposta que Jaime Gama, para salvar o barco, fez aprovar no sentido de remeter para a Comissão Nacional do partido a aprovação dos 48 artigos do projecto de Estatutos que não chegaram a ser votados (efectivamente, de 85, o Congresso só aprovou 37!). Mas se Lopes Cardoso tinha razão nos motivos invocados é mais que evidente que as suas intenções eram outras: as de enrolar a mesa e a ala de Soares, as de promover a sua ala pró-social-imperialista. A demagogia de Lopes Cardoso foi aliás bastante eficaz e não se mostrou tarefa difícil para ele «desmascarar» à sua maneira a política de Soares.
Apesar de «proibida» a organização de fracções, o direito de tendência ficou consagrado nos Estatutos do PS. Os seus membros têm «o direito de se identificarem com tendências internas compatíveis com os seus objectivos».
Nas nossas páginas, foram já várias as vezes que explicámos que, parecendo um método muito democrático, o direito de tendência é, na realidade, um atropelo à democracia. Não sabemos quais os motivos que levaram a ala de Soares a incluir este método democratista - mas não democrático — no projecto de Estatutos que elaborou. Seria para «apaziguar» a ala pró-social-imperialista e mantê-la colada ao PS? Seria para dar ares de «muita democracia»? Será que Soares já está a pensar na hipótese de vir a estar em minoria? Não sabemos. O que importa aqui referir é que a ala de Soares permitiu aos submarinos do estilo Lopes Cardoso e António Reis uma grande margem de manobra e que mantivessem a apregoada «oposição disciplinada».
O artigo 5 dos Estatutos do PS, que estipula o direito de tendência, virá no futuro a provocar azedumes aos seus próprios autores que são, aliás, os primeiros a fomentar o fraccionismo: atente-se por exemplo, nas seguintes declarações de Jorge Campinos: «Teremos talvez dentro de pouco tempo uma tendência organizada dentro do Partido, que se poderá exprimir livremente». Campinos regozijou-se por ser o PS «a primeira organização» a admitir «oficialmente» o direito de tendência.

O Congresso trará consequências nefastas para o PS
Com este Congresso, o PS apareceu a toda a opinião pública portuguesa e internacional como um partido frágil, que um sopro do inimigo poderá abater. Mantendo-se a actual situação no seu interior, dificilmente poderá o PS livrar-se dessa imagem que, infelizmente, corresponde à realidade.
Se o PS não aniquilar o resto da frota de submarinos, se não reforçar a sua organização e espírito de militância, tornar-se-á um alvo fácil numa próxima investida do partido social-fascista de Cunhal que, apoiado, mantido e dirigido pelo social-imperialismo, é senhor de uma poderosa organização.
Não pode haver dúvidas de que é a total inoperância do Governo PS, a sua incompetência em diversos sectores, a conciliação com os sociais-fascistas no interior do partido e na vida nacional que leva à desmobilização dos militantes anti-sociais-fascistas do PS e à desconfiança que vão nutrindo em relação aos dirigentes do partido.
Quem vai ganhando com esta situação é o partido de Cunhal e os seus agentes no PS, como Lopes Cardoso, que aproveitam o descontentamento e desmobilização da base do PS para levar a cabo as suas intenções.

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