terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

1977-02-07 - Luta Popular Nº 510 - PCTP/MRPP

Manuel Alegre comunica
DESEMPREGO EM MASSA NA IMPRENSA

•  Encerramento da SNI «O Século» a partir de 2.a feira
•  Ataque à Imprensa Operária e Popular

Depois de várias vezes anunciada e não cumprida tivemos ontem através dos écrans da RTP o Secretário de Estado da Comunicação Social, Manuel Alegre.
 A sua intervenção largamente preparada e anunciada já era esperada nas medidas que anunciou. Os jornais burgueses de sábado passado já traziam em parangonas essas medidas o que mostra cabalmente que o Governo tratou de criar o terreno às medidas agora tomadas, pois sabe que elas são de molde a provocar da parte dos trabalhadores da informação em particular e do povo em geral a mais viva indignação e a tomada de formas de luta adequadas.
A intervenção de Manuel Alegre e as medidas que anunciou têm sido aliás pronunciadas pelo nosso Partido e pelo nosso jornal. Tem-se na medida das nossas forças explicado aos trabalhadores da informação quais as medidas que o Governo do Partido Socialista preparava e de como essas medidas se revestiam de um carácter antioperário e antipopular.
Vamos entretanto analisar com mais detalhe essas medidas para podermos compreender todo o seu significado e dimensão.
O SIGNIFICADO DA CRISE NA IMPRENSA
Tratou Manuel Alegre, logo ao iniciar a sua intervenção, de explicar a crise que atravessa a imprensa e anunciando uma medida, para solucionar essa crise, que começa por reconhecer no seu primeiro ponto que existe uma «crise na imprensa».
Trata-se não há dúvida de uma medida «brilhante», antes de mais e sobretudo para esconder as verdadeiras razões da crise, no que se fundamenta e quais as suas causas próximas e remotas.
A crise da imprensa de corre antes de mais e acima de tudo da própria crise de todo o sistema do Capital que actualmente grassa no nosso país. Era inevitável que essa crise que abana até aos alicerces toda a estrutura capitalista da economia portuguesa, e toda a sociedade burguesa, se viessem a reflectir na imprensa burguesa.
Isso é assim porque a imprensa burguesa é uma parte indissolúvel da ditadura da burguesia, um meio importantíssimo para transmitir e veicular a propaganda intoxicante da burguesia e neste sentido ela é um dos instrumentos principais para a manutenção e defesa da ditadura do Capital.
Ele não podia, pois deixar de reflectir toda uma crise que se estende aos mais diversos sectores e domínios da sociedade burguesa.
A razão fundamental da crise da imprensa burguesa está, claro, em que ela não serve o povo, nem a classe operária, é uma imprensa que serve aos exploradores e aos opressores do povo, que serve ao imperialismo e ao social-imperialismo que serve a todo o tipo de parasitagem mas que não serve aos trabalhadores deste país.
A juntar e como dedução imediata de tudo isto, está que logo após o 25 de Abril o que se assistiu na imprensa burguesa foi a mais feroz disputa e a mais execrável partilha dos órgãos de informação burgueses existentes, disputa e partilha em que durante um largo período os social-fadistas tiveram a parte do leão, nomeada e especialmente logo após o 11 de Março.
Nesse período toda a gente o sabe os jornais existentes, caso do «Século», do «Diário de Notícias» etc., acumularam dívidas monstruosas, défices gigantescos pagos com o suor do povo, com dinheiro roubado ao povo trabalhador.
Esta realidade absolutamente do domínio público escamoteou-a na sua intervenção de ontem o Secretário de Estado da Comunicação Social — Manuel Alegre.
FASCISTAS SOCIAL-FASCISTAS E O GOVERNO
Temos assim que os responsáveis pela crise que actualmente atravessa a Imprensa é o controlo que sobre ela foi e é exercido pelos fascistas e social-fascistas, e, deve-se dizer, pela política governamental de abocanhar para si e para a propaganda da sua política grande parte desses órgãos existente. Ora não se pode esperar que a um Governo desacreditado, isolado e odiado crescentemente pelo povo corresponda uma imprensa por si controlada que possua algum crédito. Que assim é mostram-no o número de vendas dos principais jornais oficiosos tipo «Diário de Notícias» «A Luta», etc.
A partilha existente nos diversos órgãos de imprensa teve um objectivo claro — impedir, evitar a todo o custo que o proletariado tenha a ela acesso, que ela transmita os pontos de vista, os interesses e a propaganda do proletariado. Com este objectivo foi feito, e continua a ser praticado, todo o tipo de discriminações contra-revolucionárias contra o nosso Partido e, portanto, contra o proletariado revolucionário e contra o povo.
 Quando o Secretário de Estado da Comunicação Social vem chorar a crise da imprensa burguesa está, antes de mais e sobretudo, a carpir-se da ineficácia da imprensa que serve a burguesia, do isolamento a que o povo a vota, do ódio que a classe operária lhe tem.
REESTRUTURAR O QUÊ E PARA QUÊ?
O Secretário de Estado da Comunicação Social, Manuel Alegre, anunciou a reestruturação da imprensa a tomada de medidas drásticas para obstar à situação.
Convém antes de mais realçar que as medidas agora anunciadas visam a centralização nas mãos do Estado de todo o sector nacionalizado e dessa feita favorecer o controlo governamental e do sector da burguesia a quem serve Governo, desses órgãos de informação.
Reestruturar e centralizar para melhor servir a burguesia, para melhor servir fascistas e social-fascistas eis aqui a via que as medidas tomadas preparam. Neste domínio é exemplarmente demonstradora a medida tomada em relação ao «Diário de Lisboa» que favorece descaradamente os social-fascistas e um seu órgão que tem sido mantido com os avales do Estado ou seja com o dinheiro do povo.
Por outro lado a reestruturação anunciada prepara o desemprego em massa dos trabalhadores.
Aliás o sr. Manuel Alegre foi claro neste ponto ao dizer nomeadamente que:
— «Existe um excedente de pessoal»;
— «Existe um pluriemprego»;
— «Que existe uma indisciplina», etc.
De onde se infere portanto que a primeira consequência da reestruturação vai ser o desemprego em massa de trabalhadores da informação — linotipistas, compositores, impressores, revisores, jornalistas, etc.
Uma reestruturação para servir a burguesia e a sua «informação» não podia deixar de se virar antes de mais contra os trabalhadores.
Anunciou ainda Manuel Alegre a criação de um quadro geral de adidos para esses trabalhadores o que para além de não solucionar o  problema constituirão somente um passo inevitável para o desemprego, para a situação de miséria, sem um salário, sem ter onde ganhar o pão para si e para a família, etc.
Eis, pois, o significado imediato das medidas apresentadas pelo Secretário de Estado. Elas são medidas que naturalmente irão levantar contra si os trabalhadores da Imprensa numa revolta que é inteiramente justa e que se enquadra na luta mais geral do povo português contra a sociedade podre e caduca do capital.
A SUSPENSÃO DE «O SÉCULO» E AS PERSPECTIVAS QUE SE ABREM AOS TRABALHADORES
Uma medida anunciada mas já há muito tempo esperada foi a da suspensão de «O Século».
A suspensão de «O Século» é o corolário de toda uma série de outras medidas que o Governo veio tomando em relação a esta empresa e que oportunamente o nosso Partido e o nosso jornal revolucionário.
A suspensão de «O Século» é o prosseguir da política que levou ao encerramento de «A República» de «O Jornal de Comércio» e os trabalhadores de «O Século» vão ficar numa situação idêntica aqueles seus outros camaradas de trabalho o que o mesmo é dizer a um passo do desemprego em massa que é no fundo o que o Governo está a preparar.
Os trabalhadores de «O Século» devem levantar-se contra esta medida, acorrer em massa ao plenário que amanhã se realiza e aí decidir medidas de luta que tenham em conta este verdadeiro significado da medida que contra si é tomada.
Os trabalhadores de «O Século» devem ainda ligar a sua luta à luta mais geral dos trabalhadores deste sector, pois que os problemas são os mesmos, e os objectivos da política governamental são igualmente os mesmos — o desemprego em massa.
UM ATAQUE À IMPRENSA OPERÁRIA E POPULAR;
Em última análise a alocução de Manuel Alegre constitui igualmente um ataque à imprensa operária e popular, visando calar a voz dos explorados e oprimidos.
Este aspecto das medidas anunciadas está indissoluvelmente ligado às outras consequências já analisadas.
Eis aqui em traços largos o significado da comunicação ontem anunciada por Manuel Alegre.
Os trabalhadores da imprensa aos diversos níveis devem mobilizar-se e tomar medidas adequadas, só a sua mobilização e unidade pode obstar que graves consequências das medidas agora anunciadas venham recair sobre os trabalhadores.

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