domingo, 5 de fevereiro de 2017

1977-02-05 - Luta Popular Nº 509 - PCTP/MRPP

Comentário
REMODELAR O QUÊ?

Um movimento grevista que pode vir a assumir consideráveis proporções despontou nos últimos dias. Ele abrange em primeiro lugar largos sectores dos trabalhadores do mar, dos pescadores aos estivadores, mas os novos desenvolvimentos da lula pela contratação colectiva podem vir a reforçá-lo e engrossá-lo muito em breve de forma decisiva.
Entretanto, a imprensa da burguesia tem dado guarida às mais variadas especulações acerca de um remodelação governamental que estaria na forja e começa aliás a ser aceite pelos diversos partidos representativos dos vários sectores da classe dominante como hipótese inevitável. Os recentes acontecimentos desenrolados nesta semana na Assembleia da República demonstram aliás como esses partidos se comportam já tendo em vista a remodelação que se vai fazer e de acordo com os dividendos que esperam obter imediatamente dela.
É evidente que entre estes dois parâmetros da actuai situação politica, o movimento grevista e a remodelação governamental preparada na sordidez dos gabinetes de S. Bento e outros bastidores equivalentes do poder burguês, existe uma estreita ligação, uma associação fundada nas leis dialécticas que regem os fenómenos da sociedade.
O movimento grevista traduz o descontentamento e revolta popular contra as medidas de um Governo incapaz de resolver a crise económica que abala o sistema capitalista na nossa pátria e antes pretende lançar o seu peso para as costas das massas exploradas e oprimidas. É um movimento de características eminentemente políticas, pois coloca em causa todo um sistema e toda uma política de exploração do homem pelo homem de uma forma cada vez mais frontal, enquanto educa e exercita o povo para próximos combates certamente mais duros e prolongados.
A remodelação governamental em perspectiva traduz a intensidade da crise do poder burguês existente e a impotência do actual Governo em resolver o mais elementar problema que afecta as massas trabalhadoras. É a falência do Governo Constitucional, da sua política conciliatória e anti-operária, que documentam todas as atoardas acena do sentido da remodelação governamental. Por outro lado, elas traduzem também o facto do grande capital necessitar cada vez menos do Governo PS e se sentir levado ao seu despedimento à medida que sente chegada a ocasião de impor o seu próprio gabinete ministerial.
Os recentes apelos do Primeiro-Ministro à «unidade nacional», «à unidade antifascista, à «supressão dos antagonismos partidários» e «união dos portugueses honrados» demonstram como o Partido socialista, incapaz de aplicar a politica e o programa com que se candidatou a gerir os negócios do capital, se prepara para se unir a um ou outro sector do capital e do imperialismo ou para buscar um novo acordo de toda a burguesia que não pode ter outro alvo senão o movimento operário e popular em pleno desenvolvimento.
É na perspectiva de uma próxima remodelação governamental que o CDS se cola ao PS nas votações da Assembleia da República: é na perspectiva de uma remodelação governamental assente na política da «maioria de esquerda que o partido social-fascista multiplica as pressões sobre o partido governamental, patentes em particular a propósito do recente Congresso dos sindicatos; é na perspectiva de uma remodelação governamental que o Governo apela à «concórdia nacional», condição essencial para que as novas medidas anti-operárias elaboradas pelos capitalistas e seu Estado, para salvaguarda do sistema de exploração dominante, possam ser aplicadas.
Mas todas e quaisquer remodelações governamentais do estilo daquela que a burguesia se prepara para levar à prática são falsas alternativas para o proletariado e as classes suas aliadas. Elas não põem em causa o essencial, o sistema de exploração do homem pelo homem, a dominação imperialista e social-imperialista, latifundiária e grande agrária. Visam apenas actualizar e preservar a ditadura feroz do capitalismo em que vivemos. Não passam de falsas panaceias pois são soluções que, longe de remodelar de uma ponta a outra a sociedade portuguesa, pretendem man­tê-la nos aspectos mais odiosos prolongando o sistema da escravidão assalariada que como comunistas combatemos intransigentemente.

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