domingo, 5 de fevereiro de 2017

1977-02-05 - GRANDE FESTA CULTURA POPULAR - 19.Zero

19 PONTO ZERO

COPINFOR
GRANDE FESTA CULTURA POPULAR
5 FEV 1977

Para quê esta festa?
Em primeiro lugar necessitávamos de lançar uma iniciativa popular de grande envergadura que pudesse juntar o máximo possível de pessoas e familiarizá-las cora o nosso projecto.
Em segundo lugar precisamos de reunir fundos para a saída do ”19.00”, suspenso por problemas económicos desde o último Verão. A tua presença aqui, hoje é um contributo importante para que nós estejamos presentes em tua casa todas as semanas.
Paralelamente, continuaremos a desenvolver as restantes actividades culturais da COPINPOR na nossa sede, onde poderás encontrar um local de convívio e fora dela nos locais de trabalho.
Para o trabalho a que metemos ombros, todas as sugestões são poucas.
Vem até nós. Estamos na AV. ALMIRANTE REIS, 80 - LOJA, LISBOA 1.
UM PROJECTO DE INFORMAÇÃO POPULAR
Ao começares a ler esta, folha que tens nas mãos, queremos dizer-te que é nossa intenção que ela te esclareça sobre o porque da nossa existências, o para, quê das nossas actividades e a quem nos dirigimos.
Quando terminares a sua leitura queremos que tu, pensando ou não como nós, passes a colaborar e a dinamizar o nosso projecto que só será uma realidade quando também for teu.
O QUE É A COPINFOR
A Cooperativa Popular de Informação Até à Vitória Final, SCARL, existe como tal desde Abril do 1976. As suas actividades iniciaram-se no 21—A da rua da Imprensa Nacional, onde a sua, sede ficou instalada.
Como primeiro passo para uma efectiva, ligação às massas trabalhadoras, arrancámos com um projecto, para uns demasiado ousado, para outros não, mas para todos fundamentais o "19.00". No lº de Maio, nas principais cidades em que o Dia dos Trabalhadores era comemorado, surgiu uma folha-tipo daquilo que iria ser o nosso semanário. A partir daí, chegaram-nos críticas e sugestões que orientariam a elaboração do número zero (experimental), posto à venda em 2-Jun-76. Então sim, semanalmente e às 4ª feiras, o ”19.00" foi saindo até à sua, paragem, quando o nº 5 estava a ser confeccionado. Um conflito laboral na tipografia (Renascença Gráfica) a que éramos, obviamente, alheios, impediu a saída daquele número, o que nos levou a prescindir dos serviços daquela empresa.
Entretanto, estava já era curso o 2º passo dada pela Cooperativas organização de sessões culturais. Realizam-se, assim, no Verão de 76, duas quinzenas de Cultura Popular na nossa, sede, em que se exibem filmes onde se põem em destaque as lutas dos povos do chamado Terceiro Mundo contra o imperialismo, dos movimentos de libertação (das ex-colónias, por exemplo), dos operários das metrópoles imperialistas contra a exploração capitalista, imagens de experiências decisivas para o proletariado mundial (“Outubro”), de acontecimentos dos quais colhemos ensinamentos (o Chile de Pinochet), da realidade portuguesa ("Deus, Pátria e Autoridade") e seus problemas concretos (saúde e aborto); temas que eram objecto de debate após a exibição de cada filme. Incluídas nestas quinzenas, realizaram-se algumas tardes infantis com a colaboração de grupos de teatro.
Por outro lado, a nossa sede, onde nessa altura já funcionava uma secção de livros e discos, foi palco de uma exposição sobre a luta de libertação dos povos da Guiné-Bissau e Cabo Verde, a qual foi completada com debates dinamizados por alguns elementos do PAIGC.
Entretanto, arrancava um outro tipo de sessões culturais, em que nós, sempre que solicitados para isso, levávamos filmes aos próprios locais de trabalho, o que aliás continua ainda a verificar-se (no mês de Dezembro, por exemplo, deslocámo-nos a uma cooperativa agrícola no Alentejo).
Voltando ao "19.00", a sua paralização continua a ser um facto, apesar da campanha de fundos efectuada junto dos sócios, que por si só se veio a revelar insuficiente para que o nosso semanário voltasse às bancas.
NOVAS INSTALAÇÕES
Em Dezembro último, e uma vez que a nossa situação económica não nos permitiu continuar a pagar a renda que nos era exigida na rua da Imprensa Nacional, a COPINFOR passou a "viver" na Av. Almirante Reis, 80-Loja, numa garagem de um prédio ocupado. Aí decorreu a 3ª Quinzena de Cultura Popular, enquanto se preparava a Festa Popular da COPINFOR/19.00, à qual tu não faltaste.
COMO NASCEU A COPINFOR
O espírito que mais tarde haveria de determinar o nascimento da COPINFOR, surgiu e foi ganhando maturidade o consistência no decorrer da luta dos trabalha dores da R.R. Luta iniciada em 30 de Abril de 1974 (pelo fim da censura interna), que ganharia conteúdo reivindicativo em Setembro do mesmo ano (despedimento de dez trabalhadores), que daria, um salto qualitativo importante em Fevereiro de 1975 semanas em greve), que assumiria, finalmente, um carácter político na luta anti-capitalista, (ocupação das instalações em Maio).
A fraqueza de um poder político que tinha que se socorrer de atentados bombistas para atingir os seus objectivos, e as consequências imediatas do 25 de Novembro, traduziram-se no fim de uma experiência revolucionária (talvez única no mundo capitalista), pela entrega ao Episcopado reaccionário da emissora até então colocada ao serviço da classe operária, dos camponeses e do povo trabalhador.
Havia, pois, que dar continuação a um projecto que, em si, se mantinha intactos: a informação popular. É  assim que os trabalhadores expulsos da Rádio Renascença, depois de estudarem as diversas saídas que se deparavam, se decidem pela criação de uma cooperativa popular de informação.
Assim chegamos a Abril de 76, depois de nos 3 meses precedentes se terem feito inquérito junto das C.T.s das empresas da Cintura Industrial de Lisboa (e de outros pontos do país) sobre a aceitação ou não que poderia ter a cooperativa – que facilmente iria aí buscar os seus sócios - e um possível semanário. Os resultados foram positivos. Avançámos.
OBJECTIVOS
 a) A curto prazo pretendemos a consolidação da COPINFOR, o que passará inevitavelmente pelo aumento do número de sócios (actualmente ronda os 800) e pela sua crescente participação na vida da cooperativa.
Como é evidente, não é “meia dúzia de pessoas" que mantém em pleno funcionamento o que quer que seja, e muito menos no nosso caso em que perfilhamos um projecto que terá que estender as suas ramificações em vários sentidos para se tornar real.
A COPINFOR tem que ser cada vês mais dos sócios, ou a sua existência enquanto cooperativa não terá sentido. Serão eles, o motor deste projecto. Há que através deles, consolidar e alargar as nossas actividades culturais, e lançar outros tipos de actividades no campo da informação.
b) A médio prazo - o mais curto possível — o reaparecimento do “19.00”
19.00 - A NOSSA VOZ
É o grande objectivo do, COPINFOR a reactivação do seu semanário, que na sua curta, vida (cinco números apenas) soube estar de facto junto dos trabalhadores e moradores, nos seus campos de luta. Publicámos trabalhos e reportagens sobre a luta pela habitação e contra os despejos, o problema da saúde, a luta contra os despedimentos e manobras patronais, a luta pela reforma agrárias denunciamos a informação mentirosa da classe dominante estivemos com a candidatura de Otelo.
Ao aparecermos com o “19.00" quisermos continuar o trabalho de informação iniciado pelos trabalhadores, mais tarde expulsos da R.R., que formaram o corpo central do jornal. O facto de não sermos profissionais de imprensa escrita, aliado ao problema surgido pela, diferença de linguagem radiofónica/escrita, originaram, é certo, defeitos de forma mas o conteúdo da informação veiculada permaneceu intacto. Isso é para nós o mais importante e foi determinante para que a maioria, dos nossos leitores e sócios viesse das camadas assalariadas da população.
Dentro da mesma linha de orientação, ninguém nos poderá acusar de alinharmos com este ou aquele partido e o apartidarismo (de esquerda, bem entendido) foi rigorosamente mantido e esse é um “ponto de honra” para nós.
O "19.00" está parado, mas com o teu apoio voltará às bancas; Para isso estamos a desenvolver uma discussão (e paro, ela te convido, mos) sobre a viabilidade - político, e económica — do jornal.
Pensamos que politicamente, a viabilidade do jornal não oferece dúvidas. Salvo raras e honrosas excepções, os trabalhadores e militantes revolucionários deste país, continuam a ter muito pouco para, ler. Sabemos o que estás a pensar; "um só jornal era bem bom, que o meu salário não dá para muito... ". Queremos, no entanto, recordar-te que a discussão havida para a possível unificação do, imprensa, popular (que partiu da nossa iniciativa) se revelou provisoriamente infrutífera. Dizemos provisoriamente porque se trata de um debate a reiniciar. Lembramos, por exemplo, que os camaradas da "Gazeta" mantêm o seu semanário suspenso devido a problemas semelhantes aos nossos (económicos).
Económica monte o "19.00" será viável se tu quiseres (e se vieste a esta, Festa, é porque queres) e, por outro lado, se construírem plataformas do cooperação com quem tem os mesmos problemas, de forma a, superá-los. Terão que ser suficientemente sólidas as bases cm que deve assentar o "19.00", pois como sabes a, confecção de um semanário não é à borla, antes pelo contrário.
PARTICIPA NA NOSSA DISCUSSÃO!
SE NOS APOIARES, O NOSSO PROJECTO VINGARÁ
COPINFOR/19.00 - POR UMA INFORMAÇÃO POPULAR

ARTE REVOLUCIONÁRIA - ARTE POPULAR
Quando se fala em obscurantismo, o que é que isso significa? Significa que a criatividade, a imaginação e o raciocínio de um Povo foram sufocados e deteriorados pela opressão de um regime a quem a ignorância e a apatia dos dominados é condição e garantia da segurança dos dominadores.
Quando se fala em artistas revolucionários, o que é que isso significa? Significa que os artistas lutam ao lado do povo pela sua libertação da exploração e do obscurantismo:
- lutam contra a arte que defende, divulga ou promove os valores, os conceitos e as ideias da classe dominante – a burguesia;
- lutam contra a arte que aliena os explorados, fazendo-lhes esquecer os seus verdadeiros problemas, as suas condições de vida e de trabalho, tentando adormecer as suas consciências, para assim os manter afastados da luta pela sua libertação;
- lutam por uma arte que estimule e liberte a criatividade, a imaginação e o raciocínio do povo, não separando o conteúdo da forma, pois o conteúdo revolucionário é indissociável de uma forma revolucionária. É tão contra-revolucionária uma obra artisticamente perfeita, com um conteúdo político errado, como uma obra estilo panfleto ou palavra de ordem, cujo conteúdo político correcto é transmitido sem força artística, isto é, não apelando para a imaginação, a criatividade e o raciocínio do espectador, tornando-o receptor passivo de imagens e palavras. A forma revolucionária é a que desenvolve no espectador a sua capacidade de escolha, de visão, de discernimento, de análise e que não é uma simples lavagem ao cérebro ou um impingir de receitas que, por mais correctas que sejam politicamente, convidam a uma passividade e a uma inércia mental que contribuem perigosamente para formar espectadores que se tornarão alvos fáceis de quaisquer outras lavagens ao cérebro ou de quaisquer outras receitas;
- lutam por uma arte que não "distraia” no sentido alienante, mas que, divertindo, vá ao encontro das mais profundas inquietações, desejos e preocupações reais do povo, fornecendo-lhe dados de esclarecimento e reflexão que o ajudem a lutar no seu dia a dia;
- lutam por uma arte que lhe devolva o respeito e o amor pelas suas próprias formas de expressão artística, deturpadas e ofendidas por um regime fascista que as despiu do seu sentido profundo de afirmação humana e as transformou em objectos de turismo ou em exibições aviltantes para disfrute paternalista dos burgueses.
Arte revolucionária. Arte popular.
Esta, obra do próprio povo, expressão do seu trabalho da sua vida, da sua luta, portanto afirmação de liberdade, grito libertador do homem.
Aquela, obra do artista que, porque é revolucionário, encontra no povo a única força real e verdadeiramente criadora para a sua inspiração, eliminando assim a falsidade e a deturpação com que a sociedade burguesa a que pertence quer sufocar nele a mesma afirmação de liberdade, o mesmo grito, libertador.
Assim estas duas formas, de arte se fundem numa só. No caminho da luta que travamos por uma sociedade futura em que a arte e a vida se confundirão, porque o trabalho será tempo de criação, de imaginação, de inteligência e de prazer para todos os homens e a arte sairá das nossas mãos e dos nossos espíritos como afirmação natural e diálogo vivo de homens livres.
GRUPO DE TEATRO “A COMUNA”

DO CINEMA REVOLUCIONÁRIO
“Fiz um filme com estudantes que falavam com operários e, claro está, os estudantes falaram todo o tempo, os operários nunca falaram. Os operários falaram muito entre si, mas onde estão as suas palavras? Bem nos jornais? Nem nos filmes se encontram as palavras das pessoas que constituem 80% da Humanidade. Há que forçar a minoria detentora da palavra, e cedê-la aos 80% fazer, com que a palavra da maioria se possa, ouvir. Por esta razão não quero fazer parte da minoria que fala, fala sempre, ou que faz cinema, quero que a minha linguagem seja expressão desses 80%. Assim, não quero fazer cinema com gente de cinema, mas com gente que compõe a maioria.”
(JEAN-LUC GODARD)

DO CINEMA EM PORTUGAL
As perspectivas futuras não são as melhores; preparam-se reestruturações das actividades culturais do país e da actividade cinematográfica em especial, o que, se por um lado poderá fazer crer em futuras melhores condições de trabalho, é por agora factor retardatário do efectivo desenvolvimento do cinema português.”
(CINEQUANON – Cooperativa Cinematográfica)

DO FILME “ESTADO DE SÍTIO”
Convém desde já esclarecer a noção de cinema político e o que ela representa para mim. Para simplificar um pouco as ideias e necessário separar a tese segundo a qual todo o cinema é um pouco político do facto de que não há cultura, nem arte totalmente inocentes» Mesmo os filmes de pura diversão tem um conteúdo ou uma dimensão política. (…) O cinema, pode ter objectivos políticos precisos, que podem ser de direita como os filmes “hollywoodianos” anti-comunistas.(…) O cinema e, portanto, o cinema que se propõe deliberadamente, conscientemente, tratar a política como matéria dramática e cujo conteúdo seja, de certa maneira, actual, (…) Apesar da dificuldade de conciliar o espírito do materialismo histórico com o factor irrealista do empreendimento cinematográfico, parece perfeitamente possível efectuar (minicinema) uma análise marxista de certos problemas sociais…”
(COSTA-GAVRAS

CANTO DE INTERVENÇÃO - UMA OPÇÃO REVOLUCIONÁRIA
O canto de intervenção, entendido como forma específica de actuação cultural junto de uni Povo, não procura no fundamental a apresentação de soluções dos problemas que lhe são sensíveis, mas essencialmente colocá-los de uma forma elaborada e actuante às classes trabalhadoras. A solução dos problemas que afectam a classe operária e o povo em geral, só a estes cabe prosseguir, porque capazes de lhes dar resposta, na prática enquanto forças sociais relevantes.
Deste modo, para além de uma função de combate e denúncia de um sistema de opressão capitalista, cabem-lhe funções de carácter lúdico, informativo, de mobilização e agitação, e até mesmo ideológico. Por funções de carácter ideológico, queremos significar, para além do, papel que exerce no campo da agitação e da propaganda política, a legitimidade que preside ao canto de intervenção de utilizar palavras de ordem que corporizam em síntese os problemas e as aspirações do movimento popular - desde que as palavras de ordem estejam radicadas no seio das massas como expressão ou reflexo da sua luta, e por elas compreendidas e assimiladas. De contrário, o canto, seria neste caso, alguma coisa desgarrada do quadro político e social que o deve determinar, na sua forma e conteúdo; nem seria de "intervenção” se acaso viesse (ou vier) a preocupar-se com problemas que nada têm a ver com o concreto e a realidade de uma dada situação política.
No entanto, e ainda, no que se refere à palavra de ordem, podem surgir casos particulares em que o canto não ó determinado por aquela, mas, pelo contrário, ele próprio determinar ou transformar-se em palavra de ordem em consequência do seu significado e da aceitação popular. É o caso de “Grândola Vila Morena" com a ex­pressão o Povo é quem mais ordena
Entre os elementos que definem o canto político de intervenção, para alem da natureza dos problemas que aborda, e - e talvez seja dos mais importantes - a sua aplicação prática no complexo terreno de luta travada pelos explorados contra os opressores, mais precisamente, a sua constante presença nas fábricas, nos campos, nas colectividades de recreio, etc. Não basta cantar a revolução (gravando simplesmente discos), mas saber acompanha-la, apoia-la, como um dos seus instrumentos na frente cultural, integrada na frente mais ampla da luta revolucionaria. A não ser assim, canta-se, cative testa-se, ou se assumem expressões mais ou menos histéricas de revolta (não se sabe bem contra quem), mas que se vêm juntar ao número, já bastante considerável, de oportunistas que sob a capa de cantores de "esquerda”, não passam de frequentadores dos cafés das “avenidas” - e cuja prática social, aliás, se reflecte no teor das suas composições. Canto de intervenção, é pois, aquele que é sempre rigorosamente marcado por uma opção de classe, uma vez identificado com os anseios e aspirações dos explorados.
A histeria minimamente estudada, até ao momento, do canto de intervenção ou da canção política, demonstra-nos que as diferentes formas que ela adoptou ao longo dos anos, foram sempre condicionadas por factores de ordem política e, sequer um só momento estiveram desligadas dos avanços e dos recuos do movimento popular anti-fascistas e anti-capitalista, às vitórias das forças revolucionárias e progressistas, sucedem formas mais arrojadas e radicais da música de combate, mas ao verificar-se um recuo político importante das forças populares, ela refugia-se no campo dás expressões menos directas, numa segunda linguagem das coisas, são constantes que se podem isolar num estudo mesmo superficial da história do canto político. Este, é sempre o resultado e o reflexo da luta de classes e da luta ideológica que opõe duas classes antagónicas.

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