sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

1977-02-03 - Voz do Povo Nº 133 - UDP

Editorial
DUAS LINHAS EM CONFRONTO NO CONGRESSO SINDICAL
Por MANUEL FALCÃO

O Congresso dos Sindicatos foi, sem dúvida o acontecimento de maior destaque da vida política nacional durante a semana que findou.
Também para o movimento operário e popular este Congresso teve grande importância. Não faltaremos à verdade se dissermos que este grande Congresso dos Sindicatos deu, pela primeira vez depois do 25 de Abril a dimensão exacta da situação sindical na nossa sociedade portuguesa e forneceu aos sindicalistas revolucionários indicações preciosas para a sua actuação futura.
Os resultados do Congresso de todos os Sindicatos não constituíram de modo algum uma surpresa. Indubitavelmente o Congresso saldou-se por uma vitória da linha política reformista, que conduz objectivamente à capitulação do movimento sindical, à instauração de um pacto social que procura evitar a agudização das lutas dos trabalhadores.
Este Congresso foi a ocasião aproveitada pelos cunhalistas para oferecerem de bandeja o movimento sindical à burguesia, a troco de algumas cedências (poucas) que sirvam para tapar a boca aos trabalhadores, dando-lhes a sensação de que alguma coisa foi ganha.
Esta afirmação não é gratuita. Os caciques cunhalistas que durante o Congresso orientaram as votações, dirigiram o principal do seu ataque contra propostas de formas de luta revolucionárias. Os grandes princípios alardeados pelos cunhalistas há uns tempos atrás, como o da unicidade sindical, são agora classificados de provocações esquerdistas. Argumentam que a situação se modificou e que não há condições para reivindicações dessa natureza. De facto, a situação modificou-se e cada vez mais se exige uma resposta firme dos trabalhadores. Apagar a luta pela unicidade não é uma simples questão de táctica, como os cunhalistas querem fazer crer. Esse abandono da luta reflecte as suas intenções finais que são de compromisso e cedência para com a burguesia. Na sua habitual política de negociatas, a questão da unicidade foi uma das últimas moedas de troca dos cunhalistas que abandonaram por completo a defesa de tal objectivo.
Não foi por acaso que Cunhal foi visitar Eanes no dia seguinte ao encerramento do Congresso. O pacto social consagrado na linha de traição ao movimento operário e popular que o ex-secretariado da Inter fez aprovar no Congresso, foi o cartão de visita que Cunhal levou a Eanes. Depois do Congresso, começou o jogo de corredores dos ministérios.
Um facto saliente no Congresso foi o comportamento do antigo Secretariado da Inter em relação às forças que lhe são opostas, e que estavam presentes no Congresso. O secretariado da Inter preferiu ceder na conciliação ao governo, ceder em pontos importantes a outras forças do que ceder alguma coisa que fosse aos revolucionários. Chegou ao ponto de preferir por um reaccionário notório no Secretariado da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses a colocar um representante revolucionário do heróico proletariado das Ilhas. O Congresso mostrou bem como para os cunhalistas a principal força a combater são os revolucionários, e é a eles que não se pode fazer cedências. Esta posição não vem por acaso. E que este Congresso mostrou que a única força que não conciliou, que não cedeu nos princípios, que se manteve firme na defesa das suas propostas de luta, que não trocou a defesa dos interesses das massas por lugares no Secretariado da CGTP foram os Sindicatos revolucionários.
Todos os outros, desde os pretensos anti-reformistas que cedo se mostraram como reformistas “de esquerda”, até aos grupelhos provocatórios, foram incapazes de assumir, do princípio ao fim, uma posição de firme oposição e denúncia da linha política do antigo Secretariado da Inter, o mesmo e dizer de Cunhal.
Apesar das grandes deficiências que os revolucionários manifestaram na sua actuação, e que terão de ser analisadas, o essencial da sua participação foi positivo. No Congresso surgiram alternativas revolucionárias às propostas reformistas; comprovou-se a existência de duas linhas; levou-se a luta de classes para dentro do Congresso. Estes eram, em linhas gerais, os objectivos traçados pelos revolucionários. Apesar das deficiências, eles foram cumpridos.
Os caciques burocratas que ainda dominam o movimento sindical foram obrigados a admitir a presença dos revolucionários no Congresso e, facto importante, no próprio Secretariado da CGTP.
Isto demonstra que os caciques que dominavam a Inter não puderam manter a situação do Congresso do ano passado e se viram, mau grado a sua vontade, obrigados a aceitar a presença dos revolucionários.
O programa de acção aprovado no Congresso, inteiramente dominado pela linha reformista, irá comprovar a sua falência no confronto com as lutas dos trabalhadores. Esse programa não tem nada a ver com a situação real do movimento de massas. As recentes lutas dos pescadores, dos homens de rua da estiva e dos mineiros de Jalles são a prova evidente disso. As conclusões do Congresso não aguentarão o confronto com o critério da realidade.
A presença no Secretariado da CGTP de forças afectas ao PS e à Carta Aberta constitui claramente uma ponte para negociar a maioria de esquerda nos Sindicatos numa primeira fase, e daí para o Governo. Só que esse compromisso no Secretariado está num equilíbrio instável que não resistirá também ao desenvolvimento das lutas. Cedo as posições ficarão demarcadas com clareza.
A combatividade do movimento popular que é expressa todos os dias nas lutas, fez-se também sentir dentro do Congresso, apesar do férreo controlo dos caciques da Inter, que no entanto foram incapazes de suster grandes ovações às intervenções revolucionárias.
E essa combatividade que constitui a base segura do triunfo das lutas populares e do desmascaramento das propostas reformistas do Congresso.

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