sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

1977-02-03 - folha CDS Nº 75 - CDS

Os deputados do PSD/PPD não aplaudiram nenhum destes discursos

folha CDS Nº 75
3.II.77

ESCÂNDALO NACIONAL. O CDS TOMA POSIÇÃO EM DEFESA DA LIBERDADE RELIGIOSA NO ALENTEJO. O CASO DA IGREJA DA ALDEIA NOVA DE S. BENTO. NO CONCELHO DE SERPA (DISTRITO DE BEJA).
O que se passou na noite de Natal, na Aldeia Nova de S. Bento, no distrito de Beja dispensa comentários. Ultraje à Eucaristia e tentativa de incêndio da igreja paroquial da freguesia são actos que indignaram, não só os católicos da região como os verdadeiros democratas de todo o País e, entre eles, os defensores da Democracia Social Cristã. Por isso mesmo, na Assembleia da República os deputados do CDS, João Pulido e Nuno Abecassis, em duas intervenções que passamos a transcrever, mais não fizeram do que interpretar o sentir da maioria do povo português.
JOÃO PULIDO, DEPUTADO DO CDS, CHAMA A ATENÇÃO DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA PARA O CASO:
 "Noticiaram alguns jornais e uma estação de radiodifusão, ocorrências gravíssimas e criminosas, verificadas durante a celebração da tradicional "Missa do Galo", na noite de natal passada, a ser rezada pelo Padre José Carvalho, na Igreja Paroquial de Aldeia Nova de S. Bento, no concelho de Serpa.
Os acontecimentos do sacrilégio cometidos e noticiados, constituem prática de actos insólitos, selváticos e criminosos, que energúmenos ousaram perpetrar contra quem, porque tem Fé e crê em Deus. O homenageava prestando-lhe legitimamente, Culto Divino.
O ultraje e transgressão publicitados ofendem não só a população crente que tomava parte no acto litúrgico referido, mas também "bule” com a consciência católica da imensa maioria do povo português em cujo número me integro.(...)
Para perfeito e bastante conhecimento desta Câmara, da notícia, passo a citar:
"O acto litúrgico estava no início quando um grupo de rapazolas entrou, de rompante, no Templo. Perante a estupefacção de toda a gente, alguns rapazes dirigiram-se para o Altar-mor, donde retiraram as hóstias que ali se encontravam.
Distribuindo-as entre si, os rapazes começaram a comê-las, acompanhando-as com vinho que bebiam pelo gargalo de garrafas que traziam consigo". E, da citação continuo:
"Quando o acto litúrgico atingiu o momento da Elevação, os rapazolas, em coro, sempre que o Pároco se inclinava, gritavam "Viva o PCP, viva o PCP". A Missa terminou. As gentes de Aldeia Nova de S. Bento, temerosas e perplexas diante do insólito acontecimento recolheram a suas casas onde o sacrilégio foi tema obrigatório de conversas”. (Fim de citação)”!
Continuando a sua intervenção, João Pulido, que vemos acima na fotografia, disse ainda:
"Todavia, se tanto não bastasse este abominável e sacrílego acto para saciar apetites de hordas do mal e da destruição - adianta o informativo periódico ("O DIA") que o mesmo Templo, dias após, foi tentado destruir pelo fogo (e de novo cito) /.../ "O que só pode ser evitado graças à decidida intervenção das gentes da freguesia, que na sua grande maioria, acorreu ao local, com o intuito de obstar a que se consumasse o que seria desejo de alguns que para tal criminoso fim se haviam transportado em táxi e rodearam a Igreja de madeiros a arder". (Fim de citação).
“Os factos noticiados e que acabo de relatar perante a Assembleia da República, para conhecimento de todas V. Exas e do Povo Português, são de tal modo gravosos que se repercutem no estado de espírito das populações crentes com ansiedade intensa e crescente, criando-lhes, agora, ainda maior mal estar, pela insegurança sentida em que vêem também comprometido o possível uso da liberdade religiosa.(...)
“Aliás o método não é novo e é sobejamente conhecido, por usado antes, em outras latitudes. A eloquência dos acontecimentos "alumia" o discernimento do Povo Português acerca do que vêm a representar certos "movimentos políticos", isolados ou em associação combinatória, com promessas aliciantes, vogando nas "amplas liberdades”. Só que e pelos vistos, "nessas amplas", a "liberdade de culto" não teria cabimento!!...”
(...) Os tristes e condenáveis episódios narrados colidem com o exercício da liberdade de "pensamento, de consciência e religião", expressa no artº 18 da Declaração Universal dos Direitos do Homem e negam o que na Constituição se assegura, de Direito ao cidadão. Nestas condições, me dirijo a todo o Povo de Portugal, lançando um alerta e um apelo, esperando que cada um saberá vir a cumprir o seu dever de Homem respeitador dos ditames da consciência alheia. Ao Governo exorto a, se bem quer fazer respeitar a Lei, cumprir o seu Dever. Nós, humanistas personalistas cristãos, saberemos cumprir o nosso".
 Os deputados do Partido Comunista Português não gostaram de ouvir este discurso (o que não admira nada) e disseram que ele continha mentiras e provocações. Assim, no dia seguinte, o deputado Nuno Abecassis, do CDS, que vemos em baixo na fotografia, fez uma curta intervenção na Assembleia da República que transcrevemos a seguir.
NUNO ABECASSIS, TAMBÉM DEPUTADO DO CDS. REPÕE A VERDADE DOS FACTOS QUANTO AO CASO DA ALDEIA NOVA DE S. BENTO. Disse ele: "Ontem às 10 horas da noite falei com o Padre José da Cunha Carvalho, pároco da Aldeia Nova de S. Bento que, heroicamente e em meio adverso, defende pacificamente a Casa de Deus que lhe foi confiada e, ao fazê-lo, igualmente defende os mais sagrados direitos de todos os portugueses. Foi ontem aqui dito, pelo sr. deputado Carlos Brito (PCP) que o seu partido se tinha informado junto do Padre Carvalho sobre a veracidade dos factos narrados pelo meu colega João Pulido, e que aquele lhos havia desmentido. Subo a esta tribuna para repor a verdade no seu lugar e para defender quem foi ofendido. O Pároco de Aldeia Nova de S. Bento confirmou-me ontem, pessoalmente, a verdade do que João Pulido aqui disse, estou também autorizado a dizer-vos que uma delegação da Juventude Comunista de Beja procurou o Padre Carvalho para saber o que se passara e que lhes disse que os autores desses actos seriam expulsos do partido se se provasse que a ele pertenciam. A isto respondeu o Padre Carvalho afirmando serem eles filhos de conhecidos comunistas de Aldeia Nova de S. Bento e que, por isso, só reconheceria algum valor à diligência dessa delegação se, na própria aldeia, o Partido Comunista tomasse uma clara posição de condenação dos actos praticados.
Até às 10 horas da noite de ontem o Partido Comunista não tomou tal posição, nem em Beja, nem qua se saiba, em qualquer outro ponto do País.
Por isso afirmo aqui, clara e inequivocamente, que se o PCP não quer ser responsabilizado por actos tão indignos e ofensivos da consciência de qualquer homem civilizado, deve produzir, imediatamente, a nível nacional e também local, a mais formal clara e inequívoca condenação de quem não soube respeitar o templo de Deus e a Fé e consciência dos homens. De outra forma, poderá o sr. deputado Carlos Brito e o seu partido afirmar aqui o que entender, que tanto esta Assembleia como o País saberão concluir onde está a verdade. Posso afirmar-vos também, senhores deputados, que o que agora se passou em Aldeia Nova de S. Bento, foi o coroar de uma longa escalada de violência que se vem desencadeando sobre o Padre Carvalho e sobre os cristãos que lhe estão confiados, para que a Igreja Paroquial não seja mais e só a Casa onde os homens se encontram com Deus - e por isso mesmo a Casa do Povo por excelência - mas sim um outro tipo de Casa do Povo onde todos possam, a seu prazer, realizar todos os actos profanos que lhes aprouver. Há males que vêm por bem. Este mal indigno e terrível despertou a consciência nacional e é bom que saiba que a Fé sempre floresceu nas catacumbas, mesmo quando estas têm a dimensão de uma província ou de um País. Desiludam-se pois quantos pensam arrancar, por estes processos, a Fé ao Povo Português, onde quer que se encontre."
Termino afirmando que espero e desejo que, neste Portugal, que queremos livre e digno, não mais tenhamos de nos envergonhar, colectivamente, ao ver praticar actos como estes, ou ao ver tentar encobri-los ou minimizá-los, pois em ambos os casos os homens se degradam e a liberdade desaparece, engolida pela mais negra das ditaduras, porque esse pretende manifestar, não só a liberdade física, mas também a espiritual, atingindo o foro mais íntimo de cada um”.

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