quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

1977-02-02 - O Proletário Vermelho Nº 65

OS DIREITOS DOS TRABALHADORES QUE TRABALHAM

Há, no nosso como em todos os países, trabalhadores e ociosos, produtores e parasitas. Entre nós, porém, a quantidade dos primeiros veio a diminuir na exacta proporção do avanço da demagogia e da sabotagem política à economia.
Se, de uma parte, a burguesia liberai e social-democrata, tende — por necessidade moral dos próprios complexos a alargar excessivamente a classificação social de «trabalhador», sem distinguir os que são explorados dos que ainda que trabalhando, continuam a explorar a mais-valia do trabalho de outros, de outra parte a demagogia radicalestra faz outro tanto procurando prolongar a gonçalvomania. Todos à uma enchem pois a boca com a mágica palavra «trabalho». Só alguns porém enchem o corpo com os seus estigmas e sofrimentos, pois que, em percentagem excessiva existem os que trabalhando enchem de mais os bolsos como patrões e os que enchem demais como FALSOS PROLETÁRIOS.
CASOS EM CATADUPA
A política não pode jamais ser feita de moral e ao consenso geral, o conteúdo mais profundo da «justiça social» é predominantemente moral. Bem o sabemos. A justiça social real tem de ser conquistada estatuída em diferentes relações sociais e de produção, que são relações de força e relações de violência.
Nisto de violência existem várias porém. Não existe apenas a do fúsil mas a do parasitismo consentido; não existe apenas a dos produtores dispostos a fazerem justiça sobre os exploradores, mas também a que resulta da própria desorganização e incapacidade do sistema social para aplicar justiça; não há somente a dos explorados que se organizam para resistir sem olhar às ideias políticas de cada um, mas também o surdo esgotamento do que se produz porque se reivindica o que se não merece, porque se não trabalha ou se trabalha mal, em nome da dita «revolução» (que? depois, se não faz).
Os «casos» sucedem-se em catadupa. Aqui, São os mais dedicados e competentes que são saneados porque se lhes aponta apenas a incultura e o obscurantismo de que não são culpados, e se esquece que também esses têm «mulher e filhos para criar» e não só os isentos no PC; além, são os que tementes do posto de trabalho que não têm seguro, em vez de combaterem pela sua segurança, se batem contra outros trabalhadores (com idênticos direitos) e não contra os exploradores de ambos. Mais além ainda, são os que borbulham chavões e espumam vinganças de bandeira vermelha na mão, para ocultar, como pseudo «libertadores de escravos» os seus privilégios de classe que os catalogam na classe dos «senhores». Muitos tipos existem de parasitas e privilegiados que não têm o nome social nem as responsabilidades nem os compromissos de «patrões» mas usufruem as mesmas, se não maiores benesses e furtaras de ociosidade e preguiça.
Há os que reivindicam o dever o direito dos produtores... à inacção. Os que classificam com os piores nomes quem trabalha, defendo que «isso de trabalhar só reforça o capital» e que o «bom revolucionário» faz cera, finge, produz de má qualidade e de propósito... para fazer a Revolução! Estes são sempre os que classificam a Pátria de «fascista», num pseudo-internacionalismo que só não é mais noviço porque rapidamente se denunciam e isolam dos verdadeiros trabalhadores.
O DESTINO DOS DESERTORES E COBARDES
Os piores porém, os mais culpados, são os desertores e os cobardes.
O desertor e o cobarde é o trabalhador que tenta «somar» à consciência de classe que diz ter e dos princípios políticos que apregoa, a pior corrupção ideológica da burguesia ocioso. É o que sabe como deve proceder, como deve lutar e contra quem e porquê, não ousa opor-se frontalmente a praticar aquilo que sabe MAS SE RECUSA A FAZÊ-LO, por vários processos e desvios.
É o que prefere, na sociedade em crise e revolução, ir com a corrente descendente, alinhar com os derradeiros «prazeres» da corrupta classe dos privilegiados, o que prefere abandonar e fazer tábua rasa dos princípios antes defendidos a troco de maiores benesses individuais.
É o que tem consciência do que importa fazer mas não o faz; o que não sabe estar em minoria mesmo que tenha razão, e prefere a privilegiada e falsa «maioria» dos que vão folgando as costas enquanto o pau vai e vem.
O desertor e o cobarde é duplamente culpado da nova injustiça: porque sabe e não age, porque pode agir e prefere que o façam outros; porque jamais toma posição clara de modo a ficar de mãos «livres» para as sujar sucessivamente na estrumeira dos «gozos» dos «senhores» vários que se atropelam desvairados na agonia da sociedade velha. Esses acabarão um dia no isolamento miserável dos vendidos quando já não houver privilégios que os sustentem, produtores que neles confiem e povo que neles acredite.
Complexa parece pois a questão dos direitos do trabalho mas bem simples se torna quando as palavras se despem da sua fatiota demagógica. Que os direitos assistem sim - todos - aos que produzem, mas não basta nos tempos que hoje decorrem não ser patrão para não se Ser explorador.
Mais culpas terá um dia aquele que, de ganga vestida para as cerimónias políticas, explorou os seus camaradas com a preguiça e a sabotagem que o que, como patrão, explorou os seus operários! É que o segundo pode ainda ir servindo a sua pátria e será derrotado um dia do poder de acordo com as posições da sua classe, mas o primeiro terá de prestar contas um dia como agente de exploração social infiltrado nas costas dos demais.
E não haverá «sindicalismo» que o salve nem individualismo que o console. Não haverá enfim regime que o empregue nem povo que o consinta. Haverá apenas a lixeira da Humanidade que o acoite, já cadáver.

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