terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

1972-02-00 - O Grito do Povo Nº 02 - OCMLP

EM BRAGA NA GRUNDIG

No dia 7 de Fevereiro, os 1.800 operários e operárias da Grundig entraram em greve que só terminou com o recuo do patrão, três dias depois, dia 10, cedendo aumentos de 75% para as mulheres e de para os homens.
Apesar de desde o dia 9, 200 chuis e guardas cercarem a fábrica e a pide entrar lá dentro, os proletários em luta permaneceram firmes e unidos como um só, preparando-se para enfrentar a polícia. A pide foi corrida depois de um ataque ao delegado do patrão.
Mas isto é só um começo e uma pequena amostra da imensa força do proletariado. Continuemos e intensifiquemos a luta.
O POVO EM LUTA E INVENCÍVEL!
Na Grundig, em Braga, fábrica onde estão 1.800 trabalhadores, dos quais 80% são mulheres, o director Hoffmeister, agente directo do patrão, tentou passar os trabalhadores do sindicato dos metalúrgicos para o dos electricistas, por causa do novo contrato que entrou em vigor em Janeiro e que dava melhores salários.
Já em 1968 o alemão Hoffmeister, tinha feito o inverso, passado dos electricistas para os metalúrgicos, pois nessa altura eram os electricistas que acabavam de ter um novo contrato.
No dia 31 de Janeiro, no dia do pagamento dos trabalhadores que recebem ao mês, estes viram realizado o que o director já andava há uns tempos a tramar: passariam a pertencer aos electricistas pagando uma quota maior, sem o aumento de salário dos metalúrgicos e sem especificação de categorias, o que permitiria ao director, de acordo com os seus lacaios sindicais metê-los depois na categoria que quisesse.
Logo os trabalhadores reagiram, havendo uma movimentação de protesto, e recusando-se vários a receber. Ao fim da tarde foram ao sindicato dos metalúrgicos para discutir a situação. A direcção disse que sim senhor, que tinham razão, e que ia ver as possibilidades legais de resolver o assunto.
A partir desse dia 31, os operários e operárias que recebem à quinzena, cujo dia de pagamento ia ser 7 de Fevereiro, começam a discutir as formas de luta a adoptar, sendo desde logo apoiada vivamente a palavra de ordem - Greve ao trabalho.
Durante a semana o sindicato reuniu várias vezes com o delegado do Instituto (I.N.T.P.) e com o patrão, e ia fazer "um apelo aos associados para a não perturbação da ordem no acto do recebimento dos salários, que seria lido aos microfones internos da fábrica conjuntamente com um texto negociado com o Hoffmeister (comunicado l/72-Braga). Acabaram por não o fazer pois informaram-se que qualquer solução só poderia ter lugar depois de Maio, o que, sendo uma manobra da burguesia para dar tempo ao patrão e dividir os operários, levá-los-ia a considerarem abertamente a direcção do sindicato como estando contra os interesses operários e ao serviço dos interesses patronais nos seus apelos à não perturbação da ordem capitalista. Isto porque as operárias e operários se mostraram firmes e dispostos a avançar na luta até à satisfação das suas reivindicações e a não se deixarem enganar.
Entretanto durante a semana, como a situação não se resolve, no dia 2, o delegado convoca como e costume uma comissão com a participação de alguns operários e encarregados, para uma reunião à tarde na delegação do instituto. Os trabalhadores lá vão acompanhados por algumas centenas de companheiros de trabalho, que ficaram à porta. Inicialmente, por causa disso, o delegado queria recusar-se a recebê-los desde que os que estavam da parte de não dispersassem. Mas como a força estava do lado dos operários, estavam unidos e decididos à luta, e era ao delegado que ardia o cu, a reunião efectuou-se mesmo. Nela os trabalhadores presentes, afirmaram que defendiam os seus interesses e direitos; o delegado, lacaio dos patrões, dizia que tinham razão mas que à luta era ilegal, que não tinham o direito de lutar e autorizou uma reunião no sindicato para o assunto ser discutido. Entretanto da parte de fora, a concentração de trabalhadores e de outras pessoas vai engrossando, dando-se informações e discutindo-se o que se passava na Grundig. Para que a comissão não desse informações à concentração de trabalhadores, com medo que estes agissem directamente sobre o órgão burguês e anti-operário que é a delegação, fizeram a comissão sair pelas traseiras.
Na segunda feira, dia 7, à hora de pagamento, os operários puderam confirmar as suas previsões. Verificaram que o sindicato nada tinha conseguido. Receberam o miserável salário e unidos como um só, pararam completamente o trabalho, permanecendo nos locais até à hora da saída. Alguns encarregados cães fieis da burguesia, tentaram fazer os operários trabalhar, dizendo-lhes que era ilegal o que faziam e ameaçando-os. Nada conseguiram porque os operários e operárias estavam unidos e conscientes de que as leis (a tal legalidade) dos burgueses, dos patrões, são as leis da exploração, são as leis inventadas pelos capitalistas para sugarem o trabalho dos operários. A hora da saída picaram o ponto e foram-se embora.
À noite no sindicato, reúnem-se cerca de 500 trabalhadores, homens e mulheres, para discutirem a situação. Como antes, a direcção do sindicato diz que têm razão mas em relação às formas de luta nada acrescentam.
Terça feira dia 8, os operários e operárias voltam todos à fábrica, picam o ponto, ocupam os locais de trabalho e, continuando a greve, analizam e discutem a situação. A atitude dos operários e operárias continua firme. Alguns encarregados continuam a tentar amedrontar. Depois Vem o delegado do instituto cão-agente do estado-burguês, dos patrões, do sistema capitalista e do imperialismo, com o paleio do costume: "esta situação é ilegal", “os trabalhadores não têm direito à greve, e ameaça dizendo que caso não recomecem o trabalho isto deixa de ser da competência do Ministério das Corporações e passa para outro", ou seja, em linguagem de gente, que manda vir a polícia e a pide.
Quarta-feira, dia 9, continua a greve e a ocupação. A perspectiva de carga, policial paira no ar. "Se querem porrada, tê-la-ão", “Eles que entrem, que saem de maca”, diziam os operários e operárias preparando-se para opor à violência capitalista a resistência violenta do proletariado.
À tarde, chega a polícia: 200 chuis, uma carrinha de guardas, vindos das redondezas (Guimarães, Famalicão, Santo-Tirso, etc.) e 18 pides comandados pelo sub-director Cunha vindos do Porto. Os operários e operárias preparam-se para receber a carga policial com as armas de que dispunham. Mas só entram os pides e os chefes da P.S.P. e G.N.R., e dirigem-se à fábrica 2. Entram e tentam obrigar as operárias a trabalhar. Vendo que nada conseguem, face à vontade inabalável das operárias (que constituem a imensa maioria da fábrica 2) tentam a velha táctica da burguesia: quebrar a unidade operária, dividir para reinar: chamam as secções uma por uma para o refeitório e aí chamando cada operária individualmente, os vampiros pidescos, sedentos de sangue operário, habituados a aterrorizar as massas trabalhadoras, gritavam: "Quer trabalhar? "Não!” respondiam as operárias. "Quem a mandou parar, quem é o chefe?” O meu chefe é a minha folha de salários" respondeu uma operária sem se deixar intimidar. E os pides mandavam-nas para um lado e apontavam-lhes o nome.
De início algumas operárias, hesitantes, sozinhas e desarmadas face ao inimigo terrorista disseram que sim. Mas depressa o coro unido da esmagadora maioria que resolutamente disse NÃO, mostrou aos pides que não passavam de impotentes face à força da classe operária unida e decidida a vencer.
Então os tigres de papel redobraram os esforços, mandaram as secções para os locais de trabalho e aí começaram a empurrar ferozmente as operárias e tentaram obrigá-las a sentarem-se no trabalho. Algumas operárias desmaiaram. Por todos os lados se levantavam gritos de protesto e de combate. Um operário atirou-se aos facínoras pidescos. Deram-lhe voz de prisão mas não o conseguiram seguiram levar.
 Em determinado momento, um pide obriga brutalmente uma operária grávida a trabalhar. Esta desmaia e cai no chão. Numa só voz, num só gesto, as operárias gritaram e avançaram sobre os chacais: "Assassinos" "Bandidos" "Filhos da puta". Estes, tigres de papel, recuaram acagaçados e nunca mais tentaram obrigar ninguém a trabalhar.
Entretanto, devido à grande afluência de operárias desmaiadas à enfermaria, os operários da fábrica principal aperceberam-se das brutalidades de que estão a ser vítimas as suas camaradas e das suas necessidades de auxílio. Vão ao gabinete do Hoffmeister, procurá-lo.
Abrem a porta à biqueirada, o Hoffmeister não estava. No seu lugar, escondido na secretária, com as mãos na cabeça, acagaçado, reduzido à sua verdadeira dimensão de explorador, o director técnico; "Quem chamou cá a polícia?” perguntam os operários, Ou a manda retirar imediatamente ou arrasamos tudo". O tigre de papel, borrado por todos os lados, balbucia:
"Não fui eu" "Não fui eu" e vai imediatamente ter com os pides. Manda-os abandonar a fábrica dizendo "isto é material muito sensível, milhares de contos de prejuízo se houver violência cá dentro".
Os pides retiraram do interior e os trabalhadores voltaram para casa sem confrontações com o cordão de polícia que se estabelecia à porta.
Na quinta feira, dia 10, os operários e operárias voltam a ocupar o local continuando a greve, decididos a irem até ao fim, fazendo frente a todas as manobras, legalismos, amedrontamentos e tentativas de divisão. De "Lisboa" diz-se que ou a fábrica volta à normalidade até à meia-hora ou entra a polícia armada.
O operariado prepara-se para a defrontar mas, cerca das 11 da manhã o patrão recua e cede, num aumento de 75% para as operárias e de 50% para os operários, com os dias de greve pagos.
A polícia retirou.
Consta que precisamente nessa altura, os operários alemães das fábricas Grundig na Alemanha, preparavam-se para iniciar uma greve de solidariedade aos operários portugueses da Grundig, pois seguiam a situação desde segunda feira pelos jornais e pelas várias emissoras de rádio que anunciaram a greve no estrangeiro.
A pide, abriu um inquérito, e fez interrogatórios aos operários que o patrão e os bufos do patrão acharam mais activos durante a greve, nomeadamente à comissão que tinha ido falar com o delegado. Alguns interrogatórios duraram mais de uma hora, "para tentar descobrir a mão invisível que mexe os cordelinhos" na conversa deles, ameaçando e intimidando os operários com prisão, o que evidentemente não fizeram pois sabiam que teriam a resposta dos operários unidos.
O facínora Santos da Cunha, governador civil de Braga, bandido e porco burguês do mais alto calibre, andou para aí a dizer que "o problema devia ter sido resolvido com a invasão da fábrica pela polícia armada e carga sobre os operários, porque isto da empresa ceder, abria um precedente perigoso e era um mau exemplo para os outros operários que vão com certeza fazer o mesmo.”
“Que era um mau exemplo para os outros operários que vão com certeza fazer o mesmo...”

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