segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

1972-02-00 - Guerra Popular Nº 01 - CGP

EDITORIAL

A contradição principal que dominava a evolução da situação política em Portugal, desde o início da REVOLUÇÃO DEMOCRÁTICO-POPULAR, era a contradição do ANTI-FASCISMO - a contradição que fazia passar a linha divisória entre o bloco popular e o bloco de classes dominante, fundamentalmente, pela questão do regime político que caracteriza o aparelho de Estado burguês. A eclosão da guerra colonial fez passar para contradição principal a contradição do ANTI-COLONIALISMO. Inicia-se, assim, uma nova etapa (táctica) da luta de classes em Portugal, dentro do processo (estratégico) da REVOLUÇÃO DEMOCRÁTICO-POPULAR.
UMA NOVA ETAPA DA LUTA DE CLASSES EM PORTUGAL
Porque é que a contradição do ANTI-COLONIALISMO, ou seja, a contradição entre as classes e fracções de classe que têm interesse na guerra colonial, o de classes que têm interesse em acabar com ela: passou para contradição principal, isto é: passou a dirigir a evolução da luta de classes em Portugal?
1 - Porque, do ponto de vista estratégico, a ofensiva armada dos povos das colónias veio pôr em causa interesses económicos, políticos e ideológicos fundamentais de toda a burguesia portuguesa, obrigando-a a lançar-se numa guerra de agressão colonial que é contrário aos interesses de classe das grandes massas do Povo português.
A guerra colonial não pôs apenas em causa os interesses económicos de meia dúzia de "tubarões monopolistas". Pôs em causa os interesses económicos de toda a burguesia portuguesa, desde o capital financeiro que tem uma das suas principais bases de acumulação de capital nas colónias, até à pequena burguesia que tem encontrado na administração pública e privada das colónias e nas tradicionais roças, colonatos e cantinas, um importante meio de promoção social (isto, sem falar da média burguesia industrial e comercial que, desde meados da década de 50, participa com os monopólios na intensificação da exploração das riquezas naturais e do mercado consumidor das colónias). Pôs, além disso, radicalmente em causa os interesses políticos fundamentais da toda a burguesia portuguesa, quando a obriga a perder a unidade nacional que ela construiu, e de que ela tanto para ter uma certa margem de manobra económica e de força política no processo de integração europeia. Pôs por ultimo, em causa os interesses económicos de toda a burguesia portuguesa pois veio atingir um dos elementos fundamentais da imagem ideológica que ela construiu como instrumento da sua coesão e da dominação exercida sobre as classes exploradas» a sua grandeza colonial o Portugal Plurirracial e pluricontinental".
A guerra colonial, para além de intensificar e tornar duradoira a inflação, de obrigar os grandes massas do Povo, em particular a juventude, a suportar os custos morais e políticos de uma guerra de agressão contra povos irmãos, e de agudizar a repressão fascista contra toda a oposição à guerra e toda o tentativa de organização política das massas exploradas baseada nos seus interesses do classe (porque necessariamente anti-colonial) vai mais longe pois condensa politicamente todos estes factores num processo de crise política global que irá, a médio prazo, abalar os alicerces da ditadura social e político da burguesia sobre o Povo português. Este processo de crise tem como condição externa fundamental a decadência do imperialismo europeu, no contexto da luta de classes à escala internacional, a qual se traduz, por um lado, pela elevação da África Austral, num médio prazo, a "zona de tempestades revolucionárias" de primeiro plano. Se, por outro, num médio-longo prazo, pelo surgimento de uma nova "zona de tempestades revolucionárias" na Europa, abarcando toda a faixa neo-colonizado do Mediterrâneo e a Irlanda. E como contradição interna principal aquela que opõe o capital financeiro e todos os sectores da burguesia interessados na ocupação militar e económica das colónias, ao proletariado e as largas, massas do Povo que querem acabar com ela e libertar-se, com os povos irmãos das colónias, da opressão burguesa.
2 - Porque, do ponto de vista táctico, toda a evolução da luta de classes em Portugal, desde a eclosão da guerra colonial até ao momento presente e durante os próximos anos, tem sido e será sobredeterminado pela evolução da contradição anti-colonial.
A ofensiva da burguesia unificada (económica o politicamente) e a correspondente defensiva e desorganização política do proletariado e forças populares, entre 1962 e 1967, não se deveram apenas à derrota do movimento popular em 1958 e às condições menos desfavoráveis para a pequena e média burguesia industrial o do campo, estabelecidas pelo governo no IIº Plano de Fomento e no tratado de adesão à E.F.T.A., foram devidas também à fundamentalmente, à eclosão das guerras de libertação e à necessidade que toda a burguesia portuguesa sentiu de congregar esforços no sentido de intensificar a ocupação militar e económica (o chamado "desenvolvimento" da indústria transformadora local, em íntima ligação com as explorações mineiras dos imperialistas estrangeiros) das colónias.
A fase de equilíbrio de forças que se inicia em 1967, com a crise económica da burguesia e o relançar da luta económica do proletariado industrial, tem por base não só as incertezas provocadas no seio da burguesia pela expectativa de uma aceleração do processo da integrarão europeia na década de 70, mas também e fundamentalmente, a conjugação dessas incertezas com as derivadas do carácter prolongado e desgastante da Guerra Popular nas colónias portuguesas. Tudo isto leva o capital financeiro, através do "marcelismo", a lançar-se num processo de consolidação da sua ditadura sobre o aparelho de Estado e a economia, cujos objectivos se resumem na subordinação dos interesses da burguesia e, evidentemente, de todo o Povo português aos que constituem a sua aliança com o capitalismo imperialista estrangeiro, tanto no que respeita ao processo de concorrência/integração imperialista da Europa como em relação à rapina das colónias. É o próprio processo de "reorganização" económica da burguesia (com o agravamento de contradições internas que provocam e a intensificação das condições de exploração que acarreta para as massas populares), sobredetermimdo pelas condições políticos (manutenção da mobilização militar e da repressão feroz) e económicas (agudização da inflação) criadas pela guerra colonial, que cria condições objectivas para a reorganização e retornada de iniciativa política pelas forças populares.
O refluxo das forças populares, dentro do equilíbrio de forças parece estar a chegar ao fim. O alargamento espontâneo da luta económica a partir dos princípios de 1969; um certo retorno às massas das organizações políticas pala via eleitoral, em Outubro do 1969; as cisões no P"C"P, em particular a do FPLN; o aparecimento de novas iniciativas políticas no campo dos (que pelo menos se dizem) marxistas-leninistas, agora mais viradas para as classes revolucionárias, são tudo indícios de que o refluxo das forças populares se está, progressivamente, transformando em fluxo, e o fluxo da burguesia em refluxo. Urge, portanto, fazer deste fluxo uma autentica preparação da ofensiva popular que irá resolver a etapa anti-colonial, o, no momento próprio, lançar esta ofensiva à escala nacional através da mobilização de uma ampla frente popular anti-colonial.
QUE FAZER?
A tarefa táctica principal que se impõe às organizações revolucionárias, para prepararam e lançarem a ofensiva popular anti-colonial, é, sem duvido, a reorganização do Partido de Proletariado - meio estratégico fundamental para a resolução da contradição entro burguesia e proletariado nos países capitalistas-. Aliás, esta ofensiva deverá ter, para além dos objectivos especificamente respeitantes à guerra colonial, a consolidação do Partido do Proletariado e, portanto, o fim da fase de defensiva estratégica em que o proletariado e classes populares se encontram no processo da Revolução Democrática e Popular.
Neste momento, o aspecto principal da táctica de reorganização do Partido do Proletariado reside na conquista por parte das organizações revolucionárias das suas bases políticas nas classes revolucionárias, saindo das classes de apoio (pequena burguesia intelectual). Entretanto, este esforço principal deve ser acompanhado, desde já, por um amplo trabalho de propagando e agitação anti-colonial (progressivamente militarizada) que transforme a consciência das massas e, correctamente articulado com a luta económica e a luta contra a repressão, contribua para explicitar a contradição principal que as une e as opõe, nesta etapa da Revolução Democrática Popular, ao bloco burguês dominante.
OS COMITÉS GUERRA POPULAR
É neste contexto objectivo e subjectivo que surgem os COMITÉS GUERRA POPULAR. Eles constituem uma organização de unidade revolucionária cuja actividade se enquadra no referido trabalho de propaganda e agitação anti-colonial que é necessário realizar desde já.
Como organização de unidade revolucionária, eles propõem-se congregar estudantes, empregados, operários e camponeses na base dos seguintes princípios políticos:
1 - Luta contra o colonialismo português, peça fundamental do sistema de dominação da burguesia portuguesa sobre as largas massas do Povo português.
2 - Luta  contra o imperialismo, íntimo aliado do capital financeiro - chefe de fila da burguesia portuguesa, e parceiro fundamental desta na exploração das colónias e do Povo português.
3 - Aliança fraterna com os povos irmãos das colónias que, tal como o povo português, são vítimas da agressão económica e militar do colonialismo e do imperialismo, e que vão na vanguarda da Guerra Popular contra a burguesia.
4 - Luta contra todas as forcas neo-colonialistas, em particular o revisionismo, as quais defendem soluções que quebram a aliança com os povos irmãos das colónias e que, no fundo, só interessam a fracções da burguesia.
A sua actividade política resume-se na realização de CAMPANHAS DE PROPAGANDA E AGITAÇÃO ANTI-COLONIAL através das quais se procurará manter o Povo informado e mobilizado acerca da evolução da guerra popular nas colónias e da sua ligação (táctico e estratégica) com a luta popular do povo português.
O órgão de propaganda principal será este jornal "GUERRA POPULAR”, onde serão desenvolvidas as teses políticas, as informações sobre a luta popular de libertação e as palavras de ordem que darão conteúdo às referidas campanhas.
ABAIXO O COLONIALISMO PORTUGUÊS E O SEU PATRÃO, O IMPERIALISMO!
ABAIXO O REVISIONISMO E TODOS OS LACAIOS NEO-COLONIALISTAS DO COLONIALISMO E DO IMPERIALISMO!
VIVA A JUSTA ALIANÇA INTERNACIONALISTA ENTRE O POVO PORTUGUÊS E OS POVOS IRMÃOS DAS COLÓNIAS!
VIVAM OS COMITÉS GUERRA POPULAR!

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