domingo, 12 de fevereiro de 2017

1972-02-00 - COLÓQUIOS NO ISCEF - Movimento Estudantil

colóquios
TEXTO DE APOIO (BASE)

COLÓQUIOS NO ISCEF
A. A REFORMA E A SITUAÇÃO DO ISCEF
B. A REFORMA E O CAPITALISMO PORTUGUÊS
C. A REFORMA E A SITUAÇÃO DO JOVEM.

COLÓQUIOS:
DIAS – 2/FEV. 6ª Feira
    - 8/FEV.  5ª  “
    - 15/FEV. 5ª  “
ÀS 17h e 30m

Reeditam-se neste caderno 2 textos publicados pela Direcção da AEISCEF em 1971, por serem textos que, neste momento, poderão contribuir para fazer avançar um debate sobre a Reforma. O lº texto, constituído por uma sistematização de pontos, pretende facilitar a abordagem desse debate; o 2º texto é uma análise da situação universitária e do processo de reforma da Universidade.
PARA UMA DISCUSSÃO ALARGADA ACERCA DA REFORMA NO CONTEXTO SÓCIO-POLÍTICO
- DESPOLITIZAR A UNIVERSIDADE, reprimir o movimento estudantil
. Reforçando os ritmos de trabalho na Universidade, sujeitando os estudantes a um controle muito mais apertado dos assistentes nas práticas, fazendo proliferar os exames e as provas durante o ano, fazendo aumentar as exigências artificiais para obrigar a massa dos estudantes a deixar expropriar-se do seu tempo, das suas preocupações de estudo autónomo e colectivo.
. Ameaçando com o serviço militar para obrigar ao acatamento da autoridade dos profs. do conteúdo das matérias e das formas de selecção, para amedrontar e fazer parar a crescente disponibilidade para se informar e discutir os grandes problemas internacionais e nacionais sem rejeitar as regras impostas pelos detentores do poder,
. Perseguindo nem a polícia, com as apreensões de máquinas das AAEE, com a futura lei de imprensa, as possibilidades de informar, de reunião, de discutir, de se organizar à margem da Universidade e contra o poder de que é suporte.
. Desmantelando as organizações estudantis para poder dispor à vontade dos estudantes e fazê-los aceitar a ordem da ditadura,
- ISOLAR - e impedir o desenvolvimento da luta dos estudantes
Para evitar a junção das lutas de estudantes que na Universidade haviam conquistado ligações de informação e discussão política com as dos trabalhadores, evitando o alargamento da frente de luta e a radicalização mútua das lutas.
Para evitar o corrosão ideológica das forças repressivas.
Para evitar uma tomada de consciência política por parte de elementos de classes em que o regime se apoia politicamente (ex. sectores da pequena burguesia).
- A NOSSA RESPOSTA:
Defendamos a liberdade de discussão política; púnhamos a claro as razões do que se passa na Universidade e fora dela; unifiquemos a discussão política nas aulas, nos grupos de trabalho; nos meetings; lancemos jornais murais de informação e discussão política, dentro do Instituto.
PARA APOIAR ESTE DEBATE APONTAMOS UM CONJUNTO DE TEMAS A ESCLARECER
a) - A repressão sobre o movimento estudantil e a situação política portuguesa.
Convém discutir algumas questões por forma a perceber a evolução da política universitária do governo nos últimos dois anos.
- a tentativa de alargamento da base de apoio do regime mediante a consolidação duma aliança política com sectores da média e pequena burguesia.
. Razões dessa tentativa e responsabilidade da iniciativa,
. Formas que revestiu (análise do processo eleitoral de Outubro de 1969).
. As limitações resultantes das contradições do capitalismo português.
- unificação e conflito no seio do bloco social no poder.
. As fracções de classes dominantes.
. As divergências de interesse ao nível económico; os pontos onde se fortalece a unificação política.
. O compromisso político subjacente à actual equipe governamental e a sua deterioração.
. A base de classe das posições políticas da extrema direita e as tentativas de mudança no seio do regime (o golpe de estado fracassado).
. O peso político dos militares e o significado de uma crescente militarização do regime.
— o esgotamento do papel atribuído ao movimento estudantil no processo de reforma da Universidade,
. A reorganização do sistema escolar: caracterização adequada ao mercado da força de trabalho qualificada e de quadros técnicos; rentabilização do investimento escolar; alargamento da base de recrutamento dos aparelhos escolares; novas formas de segregação e selecção de classe.
. O significado político da reorganização.
. A importância da reforma da Universidade e os obstáculos levantados pelos conflitos no seio do bloco social no poder.
. A instrumentalização momentânea do movimento estudantil: liberdades sindicais e participação e repressão política sobre a vanguarda.
. Movimento estudantil ultrapassa, pelas próprias contradições da situação universitária, o quadro tolerável; a reforma vai para a frente.
. A reforma na "ORDEM".
- a importância política das forças armadas: o papel decisivo que aí desempenham os quadros saldos da Universidade; a ameaça potencial que representa o movimento estudantil.
b) - A resposta estudantil.
- as novas contradições na Universidade e a reestruturação do movimento estudantil.
. A Universidade caserna e a importância, para a sua concretização, do desaparecimento das AAEE como organismos sindicais.
. A luta contra a repressão: conteúdo e formas.
PARA UMA ANÁLISE DA SITUAÇÃO UNIVERSITÁRIA, PARA A DEFINIÇÃO DE UMA TÁCTICA DO MOVIMENTO ESTUDANTIL
I  - REORGANIZAÇÃO CAPITALISTA - REORGANIZAÇÃO ESCOLAR
A reorganização do sistema escolar português pretende responder as crescentes necessidades de força de trabalho qualificada e de técnicos que enquadrem a extracção e realização de mais-valia.
Necessidades urgentes suscitadas por alterações nas condições concretas em que decorre o processo de acumulação de capital. Alterações que se exprimem numa recomposição do peso relativo das diversas classes e fracções de classe que compõem o bloco social no poder.
Simultaneamente, essa reorganização do sistema escolar contribui para reforçar alianças políticas com fracções de classe (exemplo: pequena burguesia) que tornem possível e mais estável a dominação política desse bloco e o reforço no seu seio da tendência para a hegemonia política por parte de uma nas suas componentes: o capital financeiro e industrial.
II - A UNIVERSIDADE É UM TERRENO DE LUTA ENTRE FRACÇÕES DA CLASSE DOMINANTE
A chamada reforma da Universidade desempenha essa função a essa reorganização do sistema escolar e ao seu significado politico um papel dominante:
-  é na Universidade que se vão formar a curto prazo os agentes que garantirão os aparelhos escolares reorganizados e ampliados (incluindo a própria Universidade), a reprodução da ideologia dominante e os agentes que ocuparão os postos chave do aparelho de estado e da gestão das grandes empresas com centenas de associadas ao capital imperialista e com estreitas ligações com o aparelho de estado.
-  é pois na Universidade que se trava uma luta decisiva pela conquista dos aparelhos ideológicos pela França de classe e constrói a sua hegemonia, através da qual esta pretende garantir um progressivo controle a todos os níveis determinantes - sobre a maquina estatais ainda repleta de pessoal político e administrativo (com as respectivas praticas) herdado de um outro equilíbrio de forças no selo no bloco social no poder (característico do salazarismo). A conquista desses aparelhos ideológicos esta a fazer-se, como e normal numa fase de construção de hegemonia em nome de uma ideologia desenvolvimentista, "social”, produtivista para a qual as posições políticas de fracções características de outros modos de pprodução ou de fases anteriores do desenvolvimento do modo de produção capitalista são denunciadas como irracionais, reaccionárias, por levantarem obstáculos a livre expansão do capital financeiro e industrial e a sua hegemonia.
Essa mesma conquista e manutenção exige um processo de reprodução ideológica (uma "pedagogia") compatível com o tipo e funções que caracterizam a divisão social do trabalho capitalista na sua fase imperialismo.
A luta pela conquista dos aparelhos, ir-se-á travando sobretudo contra representantes políticos de fracções de classe, cm declínio, que ocupam importantes funções administrativas na Universidade (ex. Faculdade de Direito) e que, se recusam a perder este importante centro de pressão política, afastados que já foram de centros de decisão tão importantes como aqueles que respeitam à política económica (o que agrava o processo de decadência e de subalternidade crescente a esse nível).
III - SEDES NUNES E MILLER GUERRA, OS ARAUTOS DE UM PROJECTO POLÍTICO DEMASIADO INGÉNUO PARA SER SÓ UTOPIA.
Significativas do projecto que traduziria ao nível universitário uma dominação política única do capital industrial (objectivamente impossível) e da táctica que levasse à prática esse projecto, foram as primeiras expressões coerentes dos ideólogos dessa fracção de classe (ex. Miller Guerra e Sedas Nunes).
Significativas, se as compararmos com aquilo que tem possibilidade de vir a ser o que se concretiza como "reforma da Universidade portuguesa".
Desse projecto fixaremos alguns aspectos:
- Abertura do acesso à Universidade: exigência do processo de "desenvolvimento", aproveitável para reforçar a aliança política com fracções da pequena e média burguesias.
- Rentabilização do investimento universitário, mediante uma adequação planeada de necessidades, em função das exigências do processo de acumulação do capital, mediante uma exaustiva utilização dificuldades mentais "interessantes” no mínimo tempo possível.
- Peso decisivo para o papel da investigação científica e tecnológica na Universidade; ou seja, transformação parcial das Universidades em empresas de produção de serviços mercantilizados destinados a rentabilizar o investimento dos grandes grupos e a dar fortes hipóteses na concorrência internacional.
Peso decisivo necessariamente (embora não sempre explicitamente) ligada a uma concepção do processo de acumulação, relativamente auto-sustentado e controlado amplamente pelo capital industrial racional, de que o aparelho de estado seria um dos suportes.
- Defesa do pluralismo ideológico, como expressão de um pensamento humanista burguês, considerado necessário como instrumento de luta ideológica contra as expressões a esse nível dos interesses de fracções de classes, e como instrumento de integração (frágil pela dificuldade em ocultar a realidade sob o discurso ideológico social, desenvolvimentista, etc.) e de adesão dos estudantes não só aos conteúdos cano aos mecanismos de autoridade (que em si são uma forma de reprodução de ideologia).
A táctica para impor este projecto, reconhecido que era o peso nas Universidades e noutros centros de importância política, tinham os representantes políticos de fracções rivais era necessariamente uma "táctica de choque".
Podemos sintetizá-las em três pontos:
- Criação de novas Universidades com pessoal conquistado à priori para as defesas das posições ideológicas dessa fracção e garantindo uma articulação fácil com as necessidades económicas do capital industrial; criação a realizar-se nos sectores decisivos para o controle do aparelho de estado e vara a reorganização capitalista.
- Ataque contra as posições retidas, por esses representantes políticos, nas Universidades anteriores, mediante a departamentalização e dissolução do peso que na administração tinham os detentores de cátedras vitalícias.
- O reconhecimento do carácter "permanente das tensões no seio da instituição universitária entre os que a suportam e os que a controlam (longe pois da concepção fascista que considerava os conflitos sociais como excepções anómalas, a suprimir violentamente), e o desejo manifesto de canalizar essas tensões no sentido favorável ao progressivo controle dos aparelhos ideológicos; com esse fim advogam o reconhecimento do movimento sindical estudantil que realizasse uma prática participação conflitual.
- Este projecto era objectivamente uma antecipação ideológica a que há que fazer duas observações;
- Baseava-se numa hipótese de processo de acumulação de capital relativamente autónomo mediante uma intervenção do Estado, impossível numa fase de integração e concorrência imperialistas, centralização e concentração do capital ao nível mundial, e num país em que o aparelho de estado emprega uma parte substancial das suas verbas na manutenção da guerra em África.
 Não tinha em conta que a dominação política do bloco social no poder, no quadro da qual se desenvolve a consolidação da hegemonia do capital financeiro e industrial, exige por parte dessa fracção compromissos políticos com as outras fracções de classe determinados pelas próprios características históricas em que decorre essa consolidação. Compromissos facilitados pela existência de um importante ponto de unificação desse bloco no poder: a necessidade imperiosa de manter e prolongar a dominação política desse bloco, através do aparelho de estado sobre os territórios africanos, ponto de unificação que é simultaneamente factor de agravamento da contradição principal burguesia–proletariado.
IV - A REFORMA, O EXERCITO E A GUERRA COLONIAL
Esse factor de unificação tem forçosamente reflexos na táctica adoptada para a universidade:
- Por um lado erigindo que na reorganização do ensino superior se encontrasse uma fórmula capaz de aumentar a base de recrutamento de oficiais milicianos sem diminuir a rentabilidade do investimento escolar (em relação a cursos por acabar). Essa fórmula foi encontrada com a criação do bacharelato e a próxima generalização dos 21 anos como idade do recrutamento (o que por um lado funciona como mecanismo de selecção social à entrada na Universidade de estudantes vindos do politécnico e à continuação dos estudos universitários até à licenciatura).
- Por outro lado, exigindo que se garantisse a coesão ideológica dos estudantes e se desenvolvesse o hábito de disciplina e de aceitação da autoridade. Sendo que, por outro lado, a manutenção das estruturas autoritárias da universidade era fundamental para dificultar tudo o que pudesse atingir essa coesão ideológica. Despolitização, reforço dos policiamentos, aparecem pois como experiência, políticas de enorme significado.
V - A REFORMA, O MOVIMENTO ESTUDANTIL E AS AUTORIDADES ACADÉMICAS
- Este factor de unificação política e o sou aproveitamento pelos representantes políticos na universidade de fracções de classe em declínio, no sentido, de manterem a sua posição privilegiada no controle administrativo da mesma (com a consequente influencia que isso lhes dá), são dois aspectos fundamentais para explicar a evolução concreta da táctica governamental para a universidade.
a) A táctica governamental, no início do ministério V. Simão, inspirou-se parcelarmente nalgumas das sugestões apresentadas pelos ideólogos referidos atrás reduzindo-lhes a intensidade, já como resultado de compromissos e da unificação no seio do bloco social no poder:
- tentativa de canalizar a luta estudantil contra aquilo que se opunha à conquista dos aparelhos de reprodução ideológica por parte da fracção de classe que constrói a sua hegemonia, utilizando essa luta como estimulo racionalizador da eficiência da Reforma, ten­tando orientá-la para uma prometida participação na gestão da universidade (promessa quase nunca concretizada) no quadro de uma Reforma de Ensino Superior que se pretendia apresentar como transformando profundamente a situação estudantil. É nesta perspectiva que se assiste de início a uma relativa liberalização sindical que deveria levar á criação de interlocutores válidos
- tentativa de utilizar os conselhos escolares como mediadores entre a luta estudantil e o ministério - o que por um lado garantia a este uma posição de âmbito e o reforço da sua imagem à custa da desautorização "moral" dos C.E.s, por outro lado tornava clara a necessidade de apressar a reorganização pelo menos nos aspectos mais gritantes de desadaptação a um novo equilíbrio de forças e por ultimo, permitia sem grandes custos para o ministério travar a luta sempre que esta ultrapassava os limites toleráveis em globo pelas classes dominantes (o caso do ISCEF é exemplar).
No entanto, esta tentativa fazia-se acompanhar de medidas que não se destinavam a suprimir a autoridade desses representantes políticos mas a torná-la eficiente e politicamente mais aceitável.
b) dois factos vieram perturbar a continuação desta táctica:
- por um lado, o movimento estudantil aproveitou a momentânea liberalização para lançar lutas nalgumas escolas em que começando por atacar as situações mais desadaptadas acabaram por se generalizar e politizar os objectivos e as formas de luta, desenvolvendo uma ampla discussão e informação política. Muito disto se deveu à incapacidade de resposta autónoma dos C.E.s, na falta de um projecto conjunto - a reorganização do ensino superior- por eles aceite. E assim em duas ou três faculdades surgiu um movimento dificilmente recuperável nos quadros duma Reforma que nunca poderia modificar as características essenciais da universidade burguesa contra as quais os estudantes haviam começado a lutar.
Por outro lado, os conflitos-políticos (que expressam como e evidente contradições secundárias) entre as fracções de classe e classes do bloco social no poder, as alianças políticas entre parte do capital financeiro (ex. grupo Champalimaud) e outras fracções de classe desse bloco (defensoras ao nível político de intervenções repressivas maciças) realizadas na base duma hipotética substituição de pessoal e tácticas governamentais (ou na base da utilização dessa hipótese como forma de pressão), factos que se deram este ano e que tiveram repercussão na Universidade.
Com efeito os representantes políticos dessas fracções aproveitaram muito habilmente as crescentes preocupações dos responsáveis políticos pelas forças armadas, face à evolução da luta estudantil, para surgirem como sendo aqueles que na universidade defendem os interesses unificadores do bloco social no poder impondo pela força dos factos que provocaram (intervenção da polícia em Direito e no Plenário do dia seguinte) uma alteração na táctica governamental, em que a sua posição saísse reforçada (como veio a sair, por exemplo, pela reafirmação da autonomia do C.E. para o exercício de certo tipo de repressão) dentro dos limites possíveis na actual relação de forças,
VI - à POLÍTICA BE REFORMA TECNOCRÁTICA MILITARIZADA DA UNIVERSIDADE.
A táctica repressiva consubstanciada na nota oficiosa (1) e nas notificações da D.G.S. às direcções das AAEE exprime um compromisso político que terá necessariamente reflexos no próprio tipo de modificações a introduzir pela Reforma do Ensino, que ficará longe do projecto referido em III, parece uma hipótese provável considerar que esse compromisso político se traduzirá no que se pode classificar como uma POLÍTICA DE REFORMA TECNO CRITICA MILITARIZADA DA UNIVERSIDADE cujas características mais salientes nos parecem ser:
a) Garantir a rentabilização do investimento universitário,
- adequando convenientemente as estruturas dos cursos (nomeadamente com a distinção entre bacharelato e licenciaturas), os conteúdos e a sua hierarquização, ao tipo de facções predominantemente exigidas pelo processo da acumulação capitalista sob o crescente controle imperialista; tarefas de controle de complexos de máquinas e de gestão subalterna. Ao mesmo tempo que uma minoria seleccionada (pela origem de classe, pela docilidade política) tem acesso às funções de decisão política e económica. Nesta selecção tem papel importante a construção do curriculum (poso enorme nos primeiros anos).
- intensificando os ritmos de trabalho  por forma a no menor tempo possível produzir agentes que tenham memorizado o maior numero de técnicas e processos parcelares e de sobretudo interiorizado um comportamento uma racionalidade que os torne disponíveis para a aplicação futura dessas técnicas a casos concretos.
É este o significado dos chamados "métodos activos", que estimulam artificialmente a iniciativa no campo restrito em que de acordo com as funções pré-determinadas isso seja útil ao patronato; iniciativa controlada totalmente pelo professor (que funciona como o mediador ideológico entre a realidade e o estudante, em que, à priori, detém a possibilidade de controlar por completo o trabalho); ao mesmo tempo que tudo o que não é directamente útil para o desempenho futuro da função e posto de parte ou perseguido.
É evidente que dos ritmos de trabalho e de memorização não ficam no fim do curso senão um conjunto disperso de pensamentos que se retiveram: é no exercício de uma actividade assalariada que a formação profissional se adquire. E no caso português, o facto de se seguirem à universidade quatro anos de serviço militar em que grande parte do que tinha sido retido, se perde, torna mais acentuada a aparente irracionalidade dos ritmos de trabalho elevados. Convém pois tentar explicar as suas razões políticas:
- a concentração no tempo de conteúdos a memorizar; a sua diversidade; o seu carácter abstracto e acabado; tudo o que seja exigir ama crescente expropriação de tempo e de faculdades mentais (aulas, preparação de aulas e testes frequentes) é uma aceitação do autoritarismo, é era si um factor de servilismo e de despolitização para uma massa de estudantes.
- a criação de dificuldades artificiais à aprendizagem, o esforço redobrado que se exige vai servir para que os estudantes interiorizem as justificações do papel que vão desempenhar nas hierarquias das fábricas e do aparelho de estado e se constituam tendencial- mente numa casta à parte.
- criando novas e mais eficientes formas de autoritarismo pedagógico que permitam impor na prática esses ritmos e essa expropriação e obter a adesão forçada dos estudantes procedam a uma rigorosa selecção e classificação individuais (no sentido de escolher a minoria que percorrerá até ao fim o aparelho universitário, de adequar as taxas de selectividade à maior entrada e às necessidades conjunturais do mercado de bacharéis e licenciados, de eliminar da universidade os "pesos mortos" que irão acrescentar, o exército de reserva de mão de obra semi-qualificada); permitam substituir as antigas formas de enquadramento, divisão e parcialização dos estudantes e que já não são eficientes numa universidade aberta a uma crescente massa de alunos.
Como exemplos destas formas de control podemos indicar: substituição da aula magistral por aulas mais pequenas e frequentes, onde os assistentes controlem apertadamente o trabalho substituição de exames finais decisivos por testes frequentes. Torna-se claro que as próprias dificuldades financeiras do Estado e a rigidez das instituições universitárias impedirão que este projecto se concretize na totalidade, criando na prática várias lacunas no enquadramento político dos estudantes.
b) Reforçar o autoritarismo administrativo da universidade.
Autoritarismo que se exercerá quer pelo funcionamento de mecanismos institucionais, departamentalização, curriculum, horários, faltas, não utilização dos edifícios para actividades estudantis, etc. - quer pela utilização frequente de sanções: suspensões, processos disciplinares, etc.
Autoritarismo que se exercerá cem o objectivo de garantir o controle político dos estudantes reprimindo as lutas que possam duravelmente perturbar a rentabilidade do investimento escolar e aproveitar as lacunas e não-funcionamento que acompanharão a reorganização do ensino superior; reprimir todas as iniciativas de discussão e de informação políticas. Autoritarismo que não excluirá uma mítica participação minoritária e consultiva que se destina a despoletar conflitos pela promessa de "actuações superiores" ou a prever os lugares em que esses conflitos poderão surgir; participação feita no quadro corporativo através de formas descentralizadas (ex. comissões pedagógicas mistas, controladas pelos professores) ou de uma instituição burocrática de enquadramento dos estudantes - que substituirá as AAEE - dependente financeiramente do aparelho de Estado (ver a acção futura da Acção Social Escolar no campo da prestação de serviços).
Convém notar que o reforço do autoritarismo administrativo e manutenção nos postos de direcção de algumas faculdades dos representantes políticos de fracções de classe em declínio (que já se explicou atrás) diminuirá a margem de manobra "integrativa" do poder de Estado face aos estudantes e às suas lutas.
Por último convém evidenciar que este reforço do autoritarismo administrativo aponta para a supressão das actividades das AAEE como organismos de massa, capazes de conduzir lutas unitárias (ex: vários anos, várias faculdades) e para o apoio às correntes que, no seio dos estudantes estão disponíveis para um trabalho corporativo (normalmente recrutados entre a minoria seleccionada por razões sociais e políticas).
c) Obter a despolitização: reforço do enquadramento militar e policial sobre a Universidade;
Trata-se de impedir que os estudantes percebam globalmente a sua situação como produzida pela divisão de trabalho capitalista; agravada em Portugal por factores políticos específicos mediante a proibição da informação, das reuniões, da discussão política, tudo conducente ao reforço do monolitismo ideológico (dielectricamente ligado ao reforço dos autoritarismos) (2).
Usar-se-ão para obter tal objectivo diversos instrumentos.
- a antecipação dos serviços militares
- a concessão de adiamento dependentes de certificados de bom comportamento, como instrumentos dissuasores da luta.
- a lei de imprensa,
- a intervenção directa dos vários tipos de polícias.
VII - A TÁCTICA REPRESSIVA DO GOVERNO PARA A UNIVERSIDADE.
Articular correctamente as características prováveis duma universidade portuguesa reformada, com a actual táctica repressiva; apontar claramente o objectivo principal desta - supressão da actividade da AE como organismo, de massa; mostrar como a táctica repressiva pretende tornar viável a reforma é o ultimo passo que precede a definição duma táctica correcta contra a repressão.
a) Os dois tipos de repressão que integram a táctica governamental são:
- repressão que fica a cargo das autoridades académicas que a podem exercer com larga autonomia sobre pessoas. É o caso de suspensões, processos disciplinares e instauração de processos criminais.
- repressão que fica a cargo das autoridades policiais que a exercem sobre instituições (ex. confiscação da máquina técnica, encerramento de instalações) quer sobre pessoas. Repressão altamente centralizada e coordenada pelo Governo numa táctica una.
b) As preocupações dominantes que essa táctica repressiva parece ter são:
face a sucessivas e articuladas medidas repressivas contra organismos e estudantes isolados, pretende-se neutralizar politicamente grandes sectores de estudantes - isolando assim cada vez mais as AE - a fim de:
- evitar comprometer mais a adesão passiva ao projecto da reforma (cada vez menos sedutor como instrumento de mistificação ideológica).
- evitar um afrontamento global dos estudantes contra o poder de Estado numa fase de descontentamento popular latente, de fraca margem de manobra ao nível económico e de um difícil equilíbrio político.
. fazer anteceder a repressão de um aviso em que se tornem bem claros limites estreitos em que se pretende que as AAEE se movam: a discussão e a acção mos próprios temos em que a lógica opressiva da instituição sugere que se faça, Dando um ar pretensamente legalista.
. fazer apelo à despolitização e aos tabus longamente interiorizados para levar os estudantes a considerar esse político, e portanto reprovável, tudo o que não é recuperado no quadro de actuação do governo para o projecto de Reforma tecnocrático-militarizada.
. continuando a acenar com a Reforma apresentada cano introdutora de alterações:, "pro fundas " na situação dos estudantes e não cano um assunto interno do bloco no poder que se resolverá pela crescente opressão, dos estudantes - prometendo diálogo, ao mesmo tempo que os únicos organismos em que os estudantes poderiam exprimir livre e unitáriamente as suas opções, são objecto duma repressão que tende a suprimir a sua actividade.
. ameaçando a massa dos estudantes com diversas medidas repressivas (a mafra a cargo dos C.E.s sobre quem mais uma vez recairão os custos políticos) e com o espantalho dos exames para garantir a sua passividade face à escalada repressiva.
-  no quadro dessa neutralização política que pacientemente se quer construir, utiliza o governo todas as oportunidades para, a coberto de uma repressão que se justifica por actividades unilateralmente (como é óbvio) definidas como políticas, atingir organizações e dirigentes.
XXXXXXXXooooooXXXXXXXXooooooXXXXXXXXooooooXXXXXXXooooooXXXXXX
NOTAS -
1 - A nota oficiosa de JAN/71, legaliza a entrada da polícia na Universidade sempre que os C.E.s. o acharem necessário para a manutenção da "ordem", e procura restringir o espaço de informação e discussão que os estudantes tinham conquistado (proibição de fazer reuniões, de utilização de instalações das AAEE para outros fins que não sejam estudar ou comer, etc..)
2 - A concepção de um pluralismo ideológico, de uma certa margem de discussão política como eventual instrumento privilegiado para uma hegemonia da ideologia do capital financeiro e industrial sobre os aparelhos escolares é pois afastada.
O combate ideológico contra as concepções de outras fracções e classes do bloco no po­der far-se-á em nome da "racionalidade técnica" apresentada como neutral e universal ocultando as opções políticas. O pensamento tecnocrático despojado de qualquer perspectiva que se identifique como política, tornar-se-á a forma de pensamento dominante, compatível pois com a consolidação da hegemonia do capital financeiro e industrial no quadro dos interesses políticos comuns ao bloco social no poder.

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