sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

1977-01-27 - Revolução Nº 098 - PRP-BR

EDITORIAL

Este país, Portugal, acaba de ser visitado por duas aves de rapina - o avião americano que trazia no bojo os aviões de caça e o comandante-supremo da NATO, Haig.
As aves negras da rapina imperialista poisam sobre esta terra. Não se pode dizer que o fazem para desfrutar da exploração económica imediata do país. Mas a estratégia imperialista é mais ampla do que um país, a estratégia imperialista é mundial.
Neste momento Portugal interessa-lhes antes de tudo na perspectiva de evitar a Revolução. Na verdade, o perigo de uma revolução, no ponto de vista do imperialismo, difere conforme a situação geopolítica do País. E este país, em situação revolucionária pode ser, como se disse, a faísca da Europa.
Depois, Portugal interessa ao imperialismo não já na defensiva de uma situação revolucionária, mas numa perspectiva ofensiva, como ponto militar estrategicamente importante. Daí que mereça atenções especiais da NATO, como disse o comandante-supremo.
Para levar a cabo este objectivo do domínio de Portugal, o imperialismo apoiará as forças que cá dentro o forem servindo. Apoia agora o Governo PS de forma a levar até ao fim o seu desgaste, de forma a gastar a hipótese «socialista»; nesse projecto inclui-se o desgaste da palavra «socialismo» que para muita gente significa realmente socialismo e não uma sua deturpação. Entretanto as forças mais à direita atacam diariamente o Governo PS, o qual lhes oferece pano para mangas em matéria de incompetências, corrupção, desorganização. Incompetências, corrupção e desorganização próprias da situação que se vive e de um partido (o socialista) feito a martelo no post-25 de Abril. De um partido que não é um partido, mas sim um estado de espírito, um estado de classe a pequeno-burguesa.
Gastando a hipótese «socialista» o imperialismo prepara-se para novos tipos de governo. Nesse aspecto Sá Carneiro e o seu PSD preparam o plano ibérico de uma reconstrução capitalista à europeia. Só que a reconstrução aqui é de uma de roer... E por isso são cada vez mais visíveis as hipóteses de um regime militar que fuja à «constitucionalidade» e à «democracia». Pires Veloso, Soares Carneiro e muitos outros estão no galarim dos postos de comando a nível militar. Detêm a força. Esses homens oporão todas as suas forças militares a todas as parcelas de poder dos trabalhadores. E com a situação económica portuguesa e com a necessidade de repressão dos trabalhadores o imperialismo irá até ao apoio a um poder fascista.
E já hoje lá têm os seus lacaios tal como essa fantochada do PCP (m-l) a dizer na conclusão do seu congresso: «Quando é concluído um contrato entre o trabalho e o capital, os operários devem observar a disciplina». «Depois de ouvir uma organização que evoca o nome de «comunista» dizer esta monstruosidade tem que se concluir que o nome está gasto... que é preciso inventar outro. Quando não «é concluído um contrato entre o trabalho e o capital, os operários»... morrem de fome. É o que entretanto acontece a me» milhão de trabalhadores portugueses que por mais que procurem não há meio de conseguirem fazer esse tal «contrato» estão no desemprego.
Mas não só contra a classe operária se volta este regime. O aumento do custo de vida afecta largamente a pequena burguesia que passou a mal poder deslocar-se de automóvel com uma gasolina com um preço que torna um luxo qualquer «volti­nha». Mas isso acontecerá para os transportes públicos serem mais baratos? Não. Acontecerá para a comida ser mais barata? Não... Este não é o encarecimento de um produto para compensar um plano económico. Isto é como outras medidas, uma medida de desespero, um socorro, um buraco para tapar.
Perde assim o PS a sua base de apoio. E ê este o seu maior problema e não os «obreiristas» ou trotskistas infiltrados.
E que resposta dá a esquerda a esta situação? Não a dá com o congresso dos sindicatos, organizado segundo um stalinismo que responde à pancada às divergências (veja-se o caso ocorrido na Incrível Almadense com um operário da Lisnave). Não a dá também com o MUP, moribundo e cada vez mais restrito.
A resposta tem que ser dada com uma organização ampla, unitária, antifascista, mas também anticapitalista, para a qual a expressão «socialismo de base» não seja uma expressão vazia, mas que se carregue de sentido desde já.

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