quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

1977-01-26 - O Proletário Vermelho Nº 64

EDITORIAL
AS INFILTRAÇÕES NO PS
ou o monologo do pastor de votos

Mui recentemente, nas páginas da capoeira que dá por nome «Diário de Lisboa», grasnava um conhecido «pato» (de nome Piteira Santos) que após a infiltração trotsquista conviria talvez ao PS libertar-se da «infiltração social-democrata». A cínica insinuação do «impoluto democrata», que havia de ter criado — se não houvera falido! — com Manuel Alegre os finados «Centros 25 de Abril» logo após o golpe da aludida data, não merece apenas o sorriso amarelo do observador distraído. Vinda, ainda por cima, da capoeira citada, o menos que pode dizer-se é
que «trás água no bico».
A OPERAÇÃO PS
Foi montada pelo PC forças inspiradoras e adventícias a «operação PS» e montada sem deslize. A «operação PS» visa anular o PS como força alternativa a um certo direitismo conservador e dividir o conjunto da burguesia democrática  nacional jogando nas  posições sucessiva.
Assim, reduzindo o «socialismo em liberdade» ao conjunto dos dissidentes da «social-democracia» PSD e do «esquerdismo ul­tra», o grande czar social--fascista ficaria com espaço bastante para se avançar - a la Berlinguer - no terreno ideológico e no tecido social pequeno-burguês como o «promissor partido da liberdade individualista e do progresso social».
Diz o nosso povo que «não há cão que não tenha sorte». Neste caso da «operação PS», tem, de facto, ainda que menos por destino ou fado histórico e mais por incapacidade real da sua oposição à direita e à esquerda.
A SORTE DO CÃO
Quando social-democraticamente espanejando a sua abolição de princípios a favor da conquista do poder — que cada vez mais parece desenhar-se «absolutista» - um maioritário PSD consente - se é que não alimenta como agora na questão da gasolina - a «secessão» açoriana como aríete e carne de canhão, tem sorte 0 pão. Pois que a incapacidade PS de ser governo em país a construir do princípio, coloca ao próprio governo - ao próprio Poder, ao próprio PS - a alternativa de... governar o país ou deixar de ser, como partido, a ideologia humanista, conciliadora e burguesa, que é. Pois que, sendo as coisas assim correntemente para a «social-democracia em liberdade», bem mais agudas se mostram quando se coloca, da periferia ao governo central, o desafio a ser Poder, a restabelecer a ordem, a exercer a governação.
Quando ultra-revolucionariamente, o reviralho pseudo-obreirista, falsamente popular e anti-operário, espanejando os seus burlescos «princípios teóricos», procura cavar no PS um fosso «à esquerda» isolando a direcção dos sectores mais activistas da base, tem sorte o cão. Mais que sorte, tem sucesso pois que, aqui, trata- -se mais de manobra pré-fabricada e menos de erro do rival. Pois que se veria (ou verá?) reduzido um tal partido à direcção e ao poder por mor da governação da cousa pública e incapaz de ser esta direcção e este po­der, por mor de manter apascentados no redil, os votos do cidadão inconsciente das manobras de gabinete conspirante e palaciano.
Indo por outras palavras, tem-se que, o PS não salva a economia - no quadro capitalista em que nos faz mover entenda-se - com temor ao tresmalho de votos e «apoio popularucho», e também não salva o rebanho dos votos por não resistir às arremetidas do lobo social-fascista que, por dentro, lhe mina a confiança.
E assim, havemos de o ver por aí um dia, monologando como arruinado pastor - parafraseando o vaqueiro de Gil Vicente - as desditas do país que nunca mais se vê ser algo de concreto e definido a que se torne possível e viável o caminho sem ravinas do futuro, que menos pesado nos seja.
O TRÁGICO DA SECESSÃO
Se nalguma das províncias do país democrático capitalista há um governo local que se arroga ou consente sem protesto a lapidação do representante do poder, eleito por sufrágio, como se de um poder paralelo ou discordante se tratasse, o menos que se pode dizer é que há tentativa de secessão.
Há, pelo menos, inépcia ou cumplicidade com a secessão.
Há pressão populista demagógica sobre o destino de todos os outros, busca ou desejo confesso de privilégio especial.
Há ruptura de unidade nacional.
Há prelúdio de crise de identidade de pátria. Por muito que custe, por muito que se procure esconder ou mascarar.
Se o Funchal tem direito impune de apedrejar o governo do país a que pertence, se c Alentejo tem o direito impune a enterrar as batatas que o chão de todos produziu, então cada rincão, cada pequeno território deste continente Portugal é uma colónia! Então o país todo é colonizado pelo governo eleito e a solução está na Federação. Voltamos aos suzeranos, ao exército provincial, às ordálias e às cartas de alforria. E não se vê sequer para lá do ridículo, que possa vir daí algum bem ao progresso, algum acrescento à produção, algum interesse comum, excepto aos donos da cadapoleírinho regional que por aí fora se fosse fabricando.
No final, atentando menos no caricato e mais no trágico que lhe dorme por debaixo, o cão sorri e vê subir no firmamento a estrela da fortuna dos piratas. Dividido o país por inépcia dos próprios opositores, fica-lhe todo o espaço para se ir ao povo e, entre o obscurantismo, a demagogia e o patrioteirismo barato, pôr de pé a patuleira que lhe dará o poder enfim.
DENUNCIAR A “INFILTRAÇÃO SOCIAL-DEMOCRATA” OU
HARAKIRI?
Para isso manobra, cúmplice, a espionagem de submarinos, mísseis e dirigíveis. Para isso trabalham Antónios Reis e quejandos, que quase conseguem tirar do lume a castanha e, vendendo e desbaratando os próprios aliados de ontem, lançar a pele de carneiro sobre o fedor de bode e a dentuça de lobo para melhor tresmalhar o rebanho votante.
Para isso manobram os «novos trotsquistas» que chegaram ao Secretariado Nacional e agora, na pele de escorraçados, não lançam apenas a confusão como pretendem também aos que lá ficam, bater punhadas no peito de fidelidade aos princípios «democráticos» e de identidade total com o poder do Partido. Para o minar na oportuna altura.
Bem podem pois todos os patos das capoeiras, bem podem pois todos os Piteiras do país subterrâneo clamar a necessidade de denunciar a «infiltração social-democrata». É tal a vocação suicida do partido de governo, é tanta a insensatez espontânea da burguesia nacional não social-fascista, que depurar-se do que lhe resta seria o corolário lógico de tantos erros. O supremo hara-kiri por que espera o Grande Cão, o Grande Czar, o pior inimigo dos povos.
O gládio para a cerimónia suicida está na mão de quem o pode usar.
Basta insistir um pouco mais nos empréstimos e ainda um pouco menos na produção e no relançamento económico. Basta pouco, portanto. Basta continuar a governar assim, até que lhe seja impossível fazê-lo sem reprimir. Basta o impulso final de enterrar a faca na barriga. Na nossa.

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