quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

1977-01-26 - Luta Popular Nº 500 - PCTP/MRPP

Comentário
O CABAZ DA FOME

Círculos afectos ao Governo Constitucional anunciam como iminente a saída de um Decreto-Lei onde é definida a lista dos bens de consumo constantes do chamado «cabaz de compras nacional» que ultimamente tem andado na boca de toda a espécie de politiqueiros da nossa praça desde os ministros aos outros vendedores de banha da cobra, dirigentes dos principais partidos da burguesia.
Regozijava-se ainda ontem o vespertino oficioso do partido governamental com a existência do dito «cabaz» nos «países mais avançados da Europa» e a «oportunidade» da sua instituição no nosso país ter sido enfim concretizada. E assim convida o povo trabalhador a ajoelhar-se ante a generosidade dos capitalistas que se preparam para lhe conceder tão indispensável como oportuno benefício.
Comecemos por ver quais são no entanto esses «países avançados» perante os quais e seus «cabazes» «A Luta» se prosterna?
Esses países são países de ditadura do capital; são nações onde os operários e demais trabalhadores são vítimas de uma exploração desenfreada; onde os ansiados «cabazes» não impedem a existência de milhões de desempregados e duma inflação galopante. São os países da «Europa connosco» que poderá interessar às saloias sereias do partido do Governo, mas que o proletariado repudia como um obstáculo à luta pela sua emancipação, pela Revolução.
Os trabalhadores não esperam muito com certeza deste «cabaz», como certamente já muito pouco aguardam das sucessivas promessas do Governo. Mas esbocemos desvendar-lhe o conteúdo.
Os bens de consumo que farão parte do «cabaz» passarão a ter um preço máximo único para lodo o território nacional. No entanto, este preço somente se mantém inalterável — e inalterável após os bens a que respeita terem sofrido sucessivos e, escandalosos aumentos nos últimos meses — durante o lapso de um ano. Depois, ele pode subir à vontade, readquire a anterior elasticidade e vai «actualizar-se» de acordo com o que deixou da aumentar durante todo esse tempo. Findo esse ano, os trabalhadores darão de chofre com o novo preço e nessa altura, adeus «cabaz»...
Por outro lado, o «cabaz» vai abranger o pão e a margarina, mas não compreende a batata ou a manteiga; inclui o açúcar e o arroz mas não admite os legumes ou os ovos: é extensivo às massas alimentícias e farinhas para uso culinário mas exclui a fruta, sal ou vinho; engloba a carne congelada mas só se alarga a quatro variedades de carne fresca (miudezas, frango, arroz e coelho); contém o peixe congelado mas apenas contempla quatro espécies de peixe, fresco (sardinha, carapau, chicharro e cachucho, que nem são as de uso mais corrente); compreende o leite, farinhas lácteas para crianças, azeite, margarina e óleos, mas rejeita toda uma série de outros produtos somente na aparência secundários para o povo trabalhador.
Mas este não é o aspecto essencial nem o mais elucidativo acerca da natureza deste «cabaz».
A questão que desejamos recordar e que a cobertura ou suporte financeiro do preço fixo destes bens ou produtos será efectuada por intermédio de uma verba de três milhões de contos retirada do Fundo de Abastecimento.
Ora, de onde vêm as verbas que alimentam este Fundo, administrado pelo Estado dos patrões e parasitas? Quem paga os tais três milhões de contos? Quem abastece o abastecimento?
É evidente que é o povo a quem são extorquidos dos seus salários de miséria e negra fome os impostos e taxas necessários à existencial do Fundo e às suas novas funções. É mais que certo (e é o próprio Orçamento Geral do Estado a prever) que Os impostos sem excepção de nenhum aumentarão este ano... E os operários e demais trabalhadores terão que fazer face aos novos encargos do Fundo de Abastecimento alimentado com o sangue do povo trabalhador e com o seu repetido labor quotidiano.
O «cabaz» é confeccionado com o, dinheiro do que foi previamente roubado ao povo. Para que serve afinal o «cabaz»?
Poderá somente servir aos capitalistas e ao seu Estado. Pois, quando os operários se erguerem em luta por melhores condições de vida terão com certeza pela frente os patrões e seus lacaios revi­sionistas dizendo-lhes: "Para quê lutar? Então não têm já o «cabaz das compras»?
«Cabaz das compras»? Os operários vão chamar-lhe o cabaz da fome, o cabaz das misérias. Nem se deixarão iludir pela demagogia dos falsos amigos social-fascistas que, quando no poder também prepararam a aplicação desta e outras medidas congéneres. Não hesitarão um só instante na sua luta contra os tristes «cabazes» da exploração e do desemprego. Antes redobrarão de energias nela persistindo na via proletária para a solução da crise que lhes aponta o seu Partido - Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses.

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