quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

1977-01-25 - REUNIÃO DE EX-COLABORADORES E REDACTORES DA REVISTA “FOGO" (ARQUITECTURA) - FOGO

REUNIÃO DE EX-COLABORADORES E REDACTORES DA REVISTA “FOGO" (ARQUITECTURA)

Camaradas:
Vai realizar-se no próximo dia 27 (5ª feira) pelas 21h na sede da Revista "O TEMPO E O MODO" (Rua Francisco Sanches nº 8 r/c-Dº), uma reunião de ex-colaboradores e  redactores da Revista "FOGO" e de alguns amigos convidados, no seguimento da reunião realizada no dia 14, em que foi decidida por unanimidade a suspensão da publicação da nossa revista, e o apoio e colaboração na Revista teórica "O Tempo e o Modo". Esta reunião destina-se a definir os princípios e os objectivos, bem como os métodos, meios e programa para a nossa actividade no ano do 1977, a partir das ideias e conclusões tiradas na reunião do dia 14 já atrás referida.
Para permitir uma discussão mais viva e mais produtiva, que se materializa num avanço real do nosso trabalho o num reforço da nossa organização, expõe-se a seguir uma série de tópicos sobre os quais deverá tratar a nossa reunião, e em relação aos quais os camaradas deverão apresentar propostas e sugestões.
A NOSSA ACTIVIDADE PARA 1977
1. PRINCÍPIOS E OBJECTIVOS
Unir-se estreitamente às massas do sector (estudantes e profissionais) e às massas populares, procurando perspectivar o nosso campo específico de actividade a das questões que a revolução portuguesa nos coloca, do modo a:
- criar um corpo coeso de ideias;
- apoiar a luta das massas pela habitação e pela apropriação do espaço;
 Tendo em conta o relativo atraso do nosso trabalho neste sector, deveremos centrar os nossos esforços para já essencialmente na propaganda e agitação através de todos os meios de que pudemos dispor, para que assim possamos pouco a pouco ir influenciando um sector cada vez mais vasto das massas, e então avançarmos para voos mais altos.
2. MÉTODOS E MEIOS
- Revista TM: uma tribuna segura, onde poderemos desenvolver o nosso trabalho, cuidando ao pormenor do seu rigor científico, teórico e ideológico.
- Formação de grupos do trabalho sobre temas específicos; um meio absolutamente imprescindível para pudermos levar a bom termo as nossas tarefas, onde devemos concentrar as nossas forças desenvolvendo aí criadoramente a teoria, centrada nas questões que a prática da revolução portuguesa nos coloca no nosso campo específico, de modo a que no fim do ano, possamos ter uma posição clara sobre tudo.
- Organizações e realizações de massas; sendo as organizações de massas no nosso sector práticamento inexistentes, existem contudo algumas iniciativas que não deveremos desprezar mas apoiar à medida das nossas forças, sem termos no entanto grandes pretensões quanto a aí exercer uma grande influencia. Trata-se sim de "unir-se às massas" e "estar onde estão as massas". Ex. exposição sobre o Cristino da Silva, possibilidade do relançamento da "Arquitectura", etc.
- Comunicados estar em cima do acontecimento, tomando posição sobre tudo.
3. PROGRAMA PARA 1977
A. Formarão de grupos de trabalho sobre temas específicos
1. Apropriação popular do espaço: estudo de casos exemplares que deverão ser cuidadosamente estudados o analizados, de modo a ser possível retirar deles conclusões e perspectivas que permitam o avanço da consciência e da luta das massas populares neste campo específico.
Casos exemplares a estudar este ano (entre outros);
- uma ocupação colectiva dum edifício analizando o modo como as massas se apropriaram do seu espaço;
- o trabalho de uma Comissão de Moradores no campo da habitação;
- um caso de resistência activa e colectiva a uma desocupação;
- uma luta pela apropriação e conquista e um espaço público (o caso da Godigana é já um bom exemplo);
- um caso relativo à luta dos camponeses pela habitação;
2. CRÍTICA A POLÍTICA DA BURGUESIA PARA A HABITAÇÃO E URBANISMO
- O sacrossanto SAAL;
- estudo e análise crítica da legislação sobre habitação e urbanismo pós-25 de Abril, e o que com ela se relacione de antes;
- analise da indústria da construção civil desde o 25 do Abril, dando também atenção à organização burguesa do trabalho neste sector, e às alternativas que lhe pode dar e dá o controlo operário;
- a política do Governo PS desde a sua tomada de posse até agora, tomando por base o artigo saído no nº l do "FOGO".
- a chamada "reconversão dos clandestinos” como subcapítulo do ponto anterior;
NOTA: os membros dos GT 1 e 2 deverão ser considerados na generalidade colaboradores do TM;
3. HISTÓRIA DA ARQUITECTURA
- estudo e levantamento dos bairros "operários" construídos na lª República;
- participação na Exposição sobre o Cristino da Silva;
- estudo de algum sector da Arquitectura tradicional(?)
4.   A TEORIA E A IDEOLOGIA NA ARQUITECTURA E URBANISMO
Analise dos aspectos que assume a arquitectura feita pelos revisionistas no nosso país, em particular depois do 25 de Abril, detectando-lhe e estudando as respectivas origens (movimento dos italianos o americanos, Rossis Aymoninos, Venturis, Khans e quejandos)
NOTA: estes tópicos são para discutir o desenvolver pelos grupos de trabalho a formar, de modo a materializarem-se num programa minucioso com datas e metas a atingir, devendo ser posteriormente aprovados em reunião plenária de grupos.
B. PRÁTICA DA ARQUITECTURA
Não sendo este o eixo do nosso trabalho mas o capítulo anterior, em virtude de ainda estamos muito "verdes" nesta matéria, não devemos no entanto desprezar nenhuma oportunidade para desenvolvermos a nossa actividade prática, pois ela é um excelente teste para as nossas ideias neste campo.
Durante este primeiro ano de actividade a nossa atenção neste capítulo deve centrar-se sobre:
- a realização de trabalhos escolares exemplares que terminem sempre que possível num projecto concreto e estabelecidos segundo um plano bem coordenado em relação aos anos e turmas onde for possível lançá-los;
- a resposta a todas as solicitações de organizações de massas (CMs, Cooperativas de habitação), ou por arquitectos democratas, procurando fazer desses trabalhos autenticas escolas onde todos possamos colaborar e aprender;
- nos nossos próprios locais de trabalho procurar na medida do possível avançar com a aplicação prática das nossas ideias nos projectos que aí fazemos, sendo também de apoiar a criação de equipas do projecto onde existam camaradas que pretendam desenvolver essas ideias em projectos que apresentem em concursos, etc.
7. ORGANIZAÇÃO
1. Devendo a organização ser bastante flexível para responder a todas as variações da situação, devemos contudo esforçamo-nos por combater a anarquia e o mau estilo de trabalho que em parte caracterizou a nossa actividade até agora. Assim propõe-se:
- que os grupos do trabalho formados tenham reuniões de trabalho semanais onde façam balanços da sua actividade e preparem o trabalho da semana seguinte;
- que haja pelo menos uma reunião mensal de todos os grupos em conjunto para se ir uniformizando as nossas prospectivas sobre todos os assuntos que estão a ser estudados, sendo ainda de prever nesse sentido a realização de sessões de trabalho colectivas para apresentação do trabalho de cada grupo nas suas fases conclusivas;
- que se tomem medidas para arranjamos a curto prazo uma sede onde cada grupo disponha do seu espaço próprio, do modo a facilitar os contactos o a vida colectiva dos diversos grupos.
2. Deve-se trabalhar o mais possível para alargar os grupos de trabalho a novos elementos na base dos trabalhos que aí se desenvolvem, de modo a que a médio ou longo prazo se transformem num autêntico Movimento de massas, que continua uma alternativa real para o avanço da revolução no nosso sector, e que possa então ter o seu órgão teórico próprio: a revista "FOGO", porque não?
TODOS À REUNIÃO DE EX-COLABORADORES E REDACTORES DA REVISTA “FOGO"!
POR UMA ARQUITECTURA DEMOCRÁTICA E POPULAR!

LISBOA, 25 de Janeiro de 1977
António Lima

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