segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

1977-01-00 - Seara Nova Nº 1575

EDITORIAL

1 — As eleições para as autarquias constituíram o acto político mais importante do mês que findou. Essas eleições decorreram num período em que, de dia para dia, se agrava a crise económica em que o país se debate: inflação vertiginosa, carência de bens de primeira necessidade, etc... Decorrendo essa crise sob a gestão governativa do Partido Socialista, poder-se-ia supor que as classes intermédias, politicamente mais instáveis e duramente atingidas pela crise, se pudessem deslocar a nível eleitoral, no sentido da direita. Efeito semelhante poderia ter a política governamental de trabalho — contenção dos salários, lei dos despedimentos, etc. — e a demagogia anti-comunista que a acompanha e lhe serve de justificação, ao criar no eleitorado PS, oriundo do sector do trabalho, um desânimo orientado no sentido de buscar uma alternativa à direita.
No entanto, a direita não conseguiu capitalizar o descontentamento perante a política governamental e o desencantamento pela aparente situação de impasse a que chegou a Revolução Portuguesa. A percentagem obtida pelos partidos de direita no seu conjunto não ultrapassou a que tinham obtido nas eleições para a legislativa. Nem sequer se verificou, como se previa, um deslocamento de votos do PPD/PSD para o CDS. O PPD, aparecendo primeiro na cena política do pós-25 de Abril soube criar uma clientela de caciques locais que, noutras circunstâncias, poderão funcionar em benefício do CDS. Mas se a direita não conseguiu ainda capitalizar o descontentamento popular poderá, na sequência da evolução actual, vir a fazê-lo. Parte desse descontentamento já se revela na abstenção que, segundo certos políticos, atingiu «a média europeia». Não nos parece lícita essa transposição, pois os países a que aquela média se refere não tiveram uma revolução há dois anos e meio. Certamente a complexidade desta eleição e a indefinição que paira sobre o que vai ser o poder local terão tido a sua quota-parte na abstenção, uma quota-parte que afectaria de forma semelhante todos os partidos. Mas o peso maior na abstenção cabe certamente ao desânimo do eleitor, impotente, apesar das quatro consultas eleitorais em ano e meio, em agir sobre uma situação que se degrada de dia para dia. Esta abstenção deve ter atingido mais duramente a esquerda, nos seus sectores menos esclarecidos e mais instáveis, mas terá sobretudo atingido uma enorme franja do eleitorado do PS. Perdendo embora votos à esquerda (poucos) e para a abstenção (muitos), o PS viu diminuir muito pouco a sua percentagem, o que, atendendo à conjuntura actual, se pode considerar um bom resultado eleitoral.
Os GDUP’s tiveram uma derrota mais real do que aparente. Subiram relativamente à legislativa apesar de não terem concorrido em muitas regiões. Perderam porém relativamente à expectativa que teriam e pelo facto destas eleições constituírem a sua proclamada vocação: o poder local.
A FEPU teve uma subida percentual significativa relativamente às percentagens obtidas na legislativa pelos partidos que a constituíam. A sua subida foi mais importante no Norte do País onde reflecte uma maior movimentação de sectores operários e camponeses e um aumento da sua consciência política, o que poderá ter um enorme significado na luta pela democracia e liberdade em zonas onde o obscurantismo e o caciquis­mo dominam.
O avanço da FEPU no Sul foi mais limitado, embora aumentasse as percentagens em todos os distritos e obtivesse a presidência de 37 câmaras e a maioria absoluta em 33.
O seu êxito actual não pode fazer esquecer, no entanto, que a FEPU não conseguiu superar a percentagem obtida pelos partidos que a compõem nas eleições para a Constituinte, diminuindo mesmo em valor absoluto. Quer isto dizer que a FEPU não conseguiu mobilizar muitos eleitores que para a Constituinte votaram no PCP, MDP e FSP e que, entretanto, desencantados com a evolução política, se abstiveram. Não parece também muito significativo o avanço da FEPU nos votos de esquerda perdidos pelo PS. Segundo tudo indica, a maioria desse eleitorado preferiu abster-se. Existe, as­sim, uma enorme massa de abstencionismo na esquerda que pode vir a constituir um importante complemento à base eleitoral da FEPU.
2 — Entretanto, desenvolve-se em várias frentes o ataque à Reforma Agrária: vão sendo pagos subsídios mensais a agrários legalmente expropriados; o direito de reserva é aplicado em desrespeito ao preceituado na lei; não se concretizam as expropriações previstas à luz da Constituição e da lei da RA; suspende-se o crédito; não se fornecem as sementes e adubos para se iniciarem, a tempo, as sementeiras. O objectivo claro é desagregar as UCP’s, impedir a sua rentabilidade provocando desanexações por manobras anti-democráticas, enquanto se renovam as campanhas nos meios de comunicação social para se criar uma opinião pública passível ou mesmo favorável à destruição da RA e utilizam-se forças militarizadas em operações propícias à provocação que a elevada consciência política dos trabalhadores alentejanos tem sabido evitar. O que está em causa é a destruição da Reforma Agrária e do seu carácter revolucionário, das suas características socialistas, num combate desesperado contra a iniciativa criadora do proletariado rural, contra a mais significativa conquista da Revolução Portuguesa, combate que revela claramente a raiz de classe de quem o promove.
Simultaneamente, no Centro e Norte do País, agricultores e rendeiros reclamam o cumprimento da lei do arrendamento rural e denunciam o arbítrio e a violência dos senhorios perante a passividade das autoridades e do Governo; as acções terroristas prosseguem e atingem significativo clima de desestabilização em véspera de eleições; um pouco por todo o País, o caciquismo e o terrorismo ameaçam e intimidam os sectores mais combativos das forças democráticas.
3 — Quando se aproxima a realização do Congresso de Todos os Sindicatos, é consolador verificar o insucesso das manobras divisionistas que, no Verão passado pareciam estar próximas de atingir os seus objectivos. Os seus instigadores recrudescem agora os apelos a uma maior «coragem» e «audácia» na divisão. A própria manobra táctica do «referendismo», procurando a dissolução das estruturas de discussão e marginalizando a militância sindical, revela por si só o teor de uma política sindical que se nega a si própria. A batalha da unidade, que ainda não está ganha, é uma das frentes fundamentais da luta pela consolidação dos horizontes que o nosso povo, com a Revolução, a si próprio abriu.
4 — É dramático assistir aos ataques à Reforma Agrária, à política anti-unitária nos Sindicatos, à política anti-operária e anti-popular de conciliação e cedência às forças reaccionárias e revanchistas. E ainda mais dramático quando os seus autores dizem prossegui-la em nome e defesa dos trabalhadores e da Revolução. Agrários, lacaios dos monopolistas, sabotadores, caciques, terroristas, enfim, todas as forças de quem o fascismo foi o poder político, regozijam-se, multiplicam as suas actividades, desestabilizem e reforçam-se, aguardando o justo momento para concluir as acções iniciadas ou retirar a seráfica máscara «democrática» que as circunstâncias actuais exigem. Preparam-se para serem não só os carrascos das conquistas revolucionárias como da própria democracia. As forças de esquerda não podem perder muito mais tempo sem encontrar a plataforma unitária que travará a contra-revolução.

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