sábado, 28 de janeiro de 2017

1972-01-00 - Viva a Revolução Nº 01 - I Série - CREC's

Editorial

As características repressivas do ensino de classe da burguesia estão na base do aparecimento de lutas estudantis. A experiência de luta estudantil, particularmente dos últimos dois anos, mostra-nos que a sua luta é susceptível de atingir níveis elevados de politização e radicalização. Partindo fundamentalmente de uma posição antiautoritária de revolta contra as características repressivas do ensino da classe dominando, o movimento estudantil chega facilmente a posições de luta contra o capitalismo e o fascismo, contra o Estado burguês no que ele tem de agressivo, contra o imperialismo a que esse Estado está indissoluvelmente ligado e contra o colonialismo e a guerra colonial onde as características de injustiça do estado burguês se manifestam mais claramente. Por um lado a progressiva radicalização das lutas dos estudantis, dirigida fundamentalmente contra o ensino de classe e contra a guerra colonial, que provoca necessariamente por parte do governo da burguesia uma escalada repressiva em relação a essa luta, e por outro lado a própria luta contra essa repressão cifram-se num avanço real do movimento estudantil em direcção a conteúdos verdadeiramente revolucionários.

Apesar desse avanço o movimento estudantil não conseguiu ainda atingir uma verdadeira maturidade, na fase actual, a limitação fundamental do movimento estudantil é a sua falta de ligação, na própria prática da luta de massas contra o capitalismo, com a luta estudantil se mantiver isolada, o seu significado é extremamente restrito, ela não serve de forma directa o avanço da luta popular. Ela só alcança o seu verdadeiro significado ao unir-se à luta de todas as classes populares que lutam contra o capitalismo. Essa luta baseia-se na aliança dos operários com os camponeses, classes exploradas que constituem a enorme maioria da população, e só sairá vitoriosa sob a direcção do proletariado, classe cuja exploração é a própria base da economia capitalista, única classe verdadeiramente revolucionária.
Como única classe capaz de levar a cabo a destruição do capitalismo, e ao proletariado que pertence a direcção da luta de resistência popular. O movimento estudantil é neste momento um dos sectores dessa frente popular em luta. Para servir consequentemente interesses do proletariado e do povo em geral (que são também os seus interesses) os movimentos de massas estudantis devem portanto submeter-se à direcção da classe operária. No entanto, a garantia de direcção proletária das lutas populares só é conseguida através da organização da classe do proletariado, o partido comunista. Enquanto não existir um partido comunista revolucionário a palavra de ordem organizativa é a palavra de ordem fundamental para todos os comunistas. É tarefa prioritária de todos os militante revolucionários participar na construção do partido. Eles devem ir desde já trabalhar nas regiões industriais junto dos operários e das suas organizações, implantando-se fortemente no seio das massas operárias, desenvolvendo, erigindo e organizando as suas lutas. Neste momento todos os comunistas devem actuar prioritariamente junto da classe operária, já que a formação de uma vanguarda operária, é decisiva para o avanço revolucionário. No entanto, um partido forte e com verdadeira implantação massas só poderá ser construído com base na experiência de trabalho comunista em todos os sectores da população. O trabalho entre os camponeses como em todos ou sectores, em luta (soldados, estudantes, por exemplo), é neste momento necessário e deve ser cumprido sempre que as condições subjectivas o permitirem. Quando um partido comunista verdadeiramente revolucionário, e levantar organizado, forte e disciplina o para conduzir o proletariado e o povo à vitória sobre o capitalismo, o fascismo e o imperialismo, será ele a lançar as bases de uma frente popular. As formas organizativas que correspondam à face revolucionária actual, e ao presente momento da luta de massas são formas organizativas de tipo partidário. Partindo da análise do actual momento revolucionário e da experiência do movimento estudantil no Porto chegamos à necessidade da organização a nível clandestino dos estudantes comunistas.
A direcção do M.E. tem tradicionalmente pertencido aos reformistas. De há dois anos para cá iniciou-se um processo de luta contra o reformismo que visava a transformação da direcção do movimento. Esta luta foi conduzida por um núcleo de quadros estudantis que a concepção oportunista do movimento estudantil e aos métodos de trabalho cupulistas e burocráticos dos reformistas, opunha uma concepção de massas do movimento. A sua primeira grande vitória foi alcançada no Plenário de 10 de Fevereiro de 71. Ultrapassando todas as teorias reformistas sobre a legalidade e apoliticidade do movimento estudantil, os estudante, do Porto discutiram politicamente todos os problemas que se lhes punham no momento. Mostrando mais avançados que os seus próprios “dirigentes" as mansas estudantis souberam fazer e compreender uma análise política da repressão e manifestaram-se durante o Plenário contra a guerra colonial. Apesar da grande mobilização de massas e da radicalização dos conteúdos de luta o movimento não conseguiu avançar para formas superiores de luta (manifestação violenta) contra a guerra colonial. Esta impossibilidade motivada em parte pela falta de trabalho prévio, fez surgir a falta de uma organização que a nível clandestino soubesse enquadrar a luta e dar palavras de ordem necessárias para o avanço desta.
No processo da queima de Abril de 1971, os estudantes do Porto ao lutarem contra ela como manifestação burguesa de classe compreenderam o carácter mais geral das suas lutas, o seu enquadramento na luta dos trabalhadores portugueses estudantes o operários souberam unir-se no próprio fogo, da luta empregando a violência contra os reaccionários. No Porto este foi o passo mais importante dado, na luta contra o isolamento estudantil. De novo se fez sentir a falta de uma organização de uma organização clandestina estudantil que fosse capaz de dar as necessárias palavras de ordem no sentido de organizar a resistência violenta dos estudantes à policia e à sua luta ao lado dos operários no 1º de Maio.
A experiência das lutas de Fevereiro e Abril mostram-no claramente que na ausência de um destacamento do partido do proletariado no seio do movimento estudantil, há que cumprir por parte dos estudantes comunistas organizados clandestinamente tarefas ilegais de propaganda e agitação que neste movimento viram fundamentalmente a luta contra a guerra colonial e a luta contra o isolamento dos estudantes. A radicalização cada vez maior do M.E. e o grau de liberdade de manobra que possui devem neste momento ser aproveitados. Os exemplos históricos mostram que em torno da luta dos estudantes é possível unir (apenas em momentos concretos, não de forma duradoira) as várias classes e camadas populares. Essa união é um importante factor revolucionário e para ela se devem dirigir os nossos esforços. Por outro lado a experiência mostra que de entre os estudantes surgem elementos revolucionários e verdadeiros comunistas. Neste momento, estes elementos comunistas podem contribuir para o avanço da organização dos trabalhadores.
Só uma estrutura organizativa que agrupe os estudantes comunistas pode organizar de maneira sistemática a propaganda e a agitação políticas no seio das massas estudantis, prepara-las para as lutas violentas das massas e dar o necessário enquadramento às manifestações estudantis, entrar em contacto com as organizações revolucionárias de trabalhadores e organizar o apoio das lutas dos estudantes às lutas populares. Só ela pode ser o verdadeiro elo de ligação entre o movimento estudantil e o movimento de resistência popular, não deixando que este se isole e caia em reivindicações de tipo oportunista. Por outro lado só uma organização deste tipo pode enquadrar os estudantes revolucionários que não estejam ainda aptos a trabalhar noutros sectores, dando-hes uma prática política correcta.

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