domingo, 29 de janeiro de 2017

1972-01-00 - COMUNICADO - Movimento Estudantil

- COMUNICADO -

No próximo dia 29 de Janeiro desloca-se a Barcelos a convite da Câmara Municipal o Orfeão Académico de Coimbra. À primeira vista parece que este facto não merece grande atenção, nem tão pouco o presente comunicado, pois esse organismo viria apenas dar um es­pectáculo musical.
No entanto a realidade e mais complexa e justifica uma breve explicaçao a populaçao de Barcelos.
O que é o Orfeão Académico de Coimbra?
Vamo-nos referir apenas aos acontecimentos dos últimos anos por serem esses os mais expressivos da actual situação desse organismo.
Como é mais ou menos do conhecimento geral, a partir de 1969 intensificou-se a luta estudantil em Portugal (dizemos "mais ou menos” pois foi intensa a actuação das autoridades governamentais para silenciar as justas reivindicações dos e a brutal repressão que sobre eles se tem abatido.
No caso especifico de Coimbra, que agora nos interessa, em 1969, e como resposta a prisão de vários colegas e à grave situaçao existente, decretaram os estudantes, em Assem­bleia Magna, entre várias medidas, luto académico, (As decisões do uma Assembleia Magna vinculam todos os estudantes pois ela, é o órgão machino de decisão da academia, ela é a reunião de todos os estudantes da Universidade de Coimbra.)
A partir dessa altura a luta em Coimbra tem continuado intensa, apesar da brutal e sistemática actuação das autoridades: incorporação de 49 colegas em Outubro de 69; repressão policial constante (recordamos o caso de um colega alvejado a tiro na noite de 9 de Maio de 70, de vários colegas brutalmente agredidos) que culminou com o encerramento da Associação Académica de Coimbra e a prisão de 27 colegas em Fevereiro do ano passado, dos quais dois ainda se encontrara detidos. É de registar o uso, mais uma vez, por parte da PIDE-DGS, de métodos de tortura para arrancar confissões, o que motivou o internamento hospitalar de dois colegas conforme foi recentemente noticiado pelos jornais. 7 des­ses colegas estão a ser julgados desde o dia 13 no Tribunal Plenário do Porto.
Em face destes acontecimentos tem o Orfeão tomado uma posição clara e definida.
Apesar de ser um organismo da A.A.C. tem desrespeitado sistematicamente todas as decisões dos estudantes. Assim, em Reunião Geral da A.A.C., do dia 2/4/70 foi decidido que todos os membros actuassem de batina aberta, em flagrante violaçao do luto decretado em Assembleia Magna. Não se limitando a isso, expulsa 17 e recusa a admissão de novos elementos que não lhe davam suficientes garantias de seguirem a sua orientação.
Embora o Orfeão apregoe o "essencial escopo artístico do nosso organismo" esses 17 colegas foram expulsos não por razoes artísticas (entre eles estava o "baixo” Filipe David de reconhecido mérito internacional. Hoje, para ser membro do Orfeão não é necessá­rio ter boa voz, isso não interessa. O fundamental é apoiar a orientação desse organis­mo, o indispensável é tomar posições anti-estudantis. É também prova do papel do Orfeão na Universidade de Coimbra, os telegramas enviados pela sua Direcção ao Chefe do Estado, ao M.E.N. e ao M.R. nos quais realçam e apoiam os "propósitos despolitização e pacificação saudavelmente anunciados nível oficial”, isto no dia 15 do Maio, 6 dias depois da brutal repressão da noite do dia 9.
É também nitidamente sintomático o apoio que a esse organismo é dado. Assim, os jornais diários do dia 30/111/71, ao referirem-se à "Digressão pela Europa do Orfeão Académico" citavam o patrocínio e apoio do N.E.N., Negócios Estrangeiros, M. das Corporações, da Secretaria do Estado da Informação e Turismo, da R. da Universidade de Coimbra, da Fundação Gulbenkian, do B.N.U., da T.A.P. e da Anglo Portugueses Society, de Londres. (É de registar que nessa digressão o Orfeão tem sido alvo de numerosas manifestações de hostilidade, como por exemplo em Itália, onde lhe foi impedido de dar um dos espectáculos e mais recentemente um incidente registado na Holanda, “impediu por momentos a actuação do Orfeão no templo em que actuava, pois que elementos não identificados colocaram uma pequena bomba de fumo no interior do mesmo, perturbando assim o recital" (Primeiro de Janeiro de 15/12/71)
É, pois, clara a intensão do governo ao apoiar o Orfeão. Por que não financiar e promo­ver os outros organismos da A.A.C.? Por elos se recusarem a trair os seus colegas.
É neste momento o Orfeão um válido instrumento do Governo, pois este apresenta-o como modelo do estudante de Coimbra e aproveita-o para profundas manifestações anti-estudantis. (como são os "espectáculos" dados por esse organismo). O Orfeão canta um ensino moribundo, uma Universidade caduca e repressiva, e é essa universidade que interessa às autoridades manter.
É esta a verdadeira situação do organismo que vai actuar em Barcelos e não outra que pretendam apresentar às pessoas.
Achamos necessário fazer saber o que é o Orfeão. É também necessário que saibamos demonstrar-lhe a nossa hostilidade.

UM GRUPO DE BARCELENSES ESTUDANTES DE COIMBRA

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