sexta-feira, 23 de setembro de 2016

1976-09-23 - Bandeira Vermelha Nº 036 - PCP(R)

EDITORIAL

«Só o trabalho nos pode salvar» - dizem os capitalistas
Mas afinal de contas existe ou não crise económica? — é a pergunta que apetece fazer depois de nos terem enchido os ouvidos, de há dois anos para cá, com a iminência de sucessivas «crises económicas», todas elas dadas como «catastróficas». Cada governo sua crise — foi o ritmo a que nos habituaram os políticos burgueses. Em que devemos acreditar hoje?
De facto, existe uma grande crise económica, basta ver que a maioria do povo português ainda não tem para viver o mínimo que é necessário, e que cada vez se reduz mais o seu poder de compra. O. nível de vida do povo piora dia a dia — é este o primeiro e mais significativo indicador duma grave crise económica. Os capitalistas, os latifundiários, os intermediários queixam-se, porém, de outra espécie de crise: a que vem do lacto de não desfrutarem dos benefícios e dos lucros que lhes conviria ter. As medidas que preconizam, apenas visam agravar, ainda mais, as condições de vida dos trabalhadores, ou seja, piorar o primeiro aspecto da crise económica que apontámos.
Existem, pois, duas soluções para a crise económica, consoante os interessados: uma, a dos capitalistas, que pretende fazer os trabalhadores pagá-la; outra, a dos trabalhadores e do povo, que exige serem os ricos a custeá-la, traduzida na consigna «os ricos que apertem o cinto».
A política do governo e as exigências que os capitalistas fazem ao dr. Soares, centram-se na urgência de dar solução à crise económica, do ponto de vista e no interesse dos capitalistas, dos latifundiários, dos intermediários ricos.
O aumento da produção é um dos objectivos prioritários de todos eles que o governo se propõe ajudar a alcançar. Pelo despedimento maciço e pelo incremento dos ritmos de trabalho visam obter bons resultados a curto prazo. Simultaneamente, conduzem uma campanha de propaganda tentando fazer crer à opinião pública que os responsáveis pela crise são os trabalhadores, pretensos causadores de uma acentuada baixa de produção. Mas quererão na realidade os capitalistas com a sua política económica, obter um aumento de produção?
Uma série de factos recentes mostram-nos que não!
Por que razão, o governo e os capitalistas atacam a reforma agrária se foi através dela que o Alentejo produziu este ano as maiores colheitas de sempre? Por que motivo veio o dr. Soares dizer mal das empresas geridas por trabalhadores, se foi à custa dessa gestão que grande número de empresas se salvaram das falências que os donos queriam provocar? Que sentido faz, em período de falta de produção, destruir fruta, carne e outros bens de consumo e depois falar em produzir mais e mais? Como é que facilitar os despedimentos e multiplicar, portanto, o número de desempregados vem servir a finalidade de aumentar a produção?
Nada disto bate certo com a tão falada política de aumentar a produção. E a razão é simples: o capitalismo pretende recuperar, não à custa do aumento da produção, mas sim à custa do aumento dos lucros e da exploração. Por isso, reduzem o número de trabalhadores, pagam-lhes menos e fazem pagar mais caros os bens produzidos. Aumentar pura e simplesmente a produção significaria dar emprego a quem não o tem, e fazer beneficiar toda a população da abundância de bens de consumo que daí adviria. Mas isso não faria necessariamente aumentar os lucros das empresas e dos capitais investidos. Os capitalistas pretendem, sim, melhores condições de investimento, maiores rendimentos — por isso assistimos à destruição de bens de consumo para que os preços não baixem, à tentativa de desocupar terras que estavam improdutivas e de devolver aos patrões empresas que estavam na falência. As pressões da CAP dos latifundiários, e da CIP dos industriais vêm neste, e apenas neste, sentido.
A solução da crise económica é primeiro que tudo uma questão política e só secundariamente uma questão meramente económica. Qual a política a pôr em prática para solucionar a crise, é esta a questão básica.
Da parte da burguesia capitalista a preocupação fundamental é salvar, não propriamente a economia em termos estritamente orçamentais, mas sobretudo o seu sistema de exploração. Para isso, precisa reforçar o aparelho de Estado e a autoridade policial. Precisa depois, de desacreditar aos olhos do povo todas as soluções populares para resolver a crise económica: é neste objectivo que se enquadram os ataques à reforma agrária, ao controlo operário e às empresas geridas por trabalhadores. A burguesia não quer ceder aos trabalhadores a iniciativa da recuperação económica. Não quer que o povo veja que a verdadeira solução da crise se faz quando os trabalhadores tomam as coisas em mãos. Não quer, portanto, que a verdadeira crise, a da miséria do povo, seja resolvida. É esta, afinal, a condição para manter a sua dominação como classe exploradora.
A luta contra as medidas antipopulares que o governo pretende pôr em prática é afinal a luta contra as medidas com que os capitalistas visam não só atacar as conquistas dos trabalhadores como manter na mesma, e piorar ainda mais, as suas condições de vida. E se por absurdo algumas dúvidas pudessem subsistir depois da apresentação do programa de governo e do discurso do dr. Soares, nenhumas mais pode haver depois da reunião feita entre membros do governo, o Presidente da República e comandos militares onde se preparou (inclusive do ponto de vista militar) a desocupação de terras no Alentejo.
O pagamento de salários em títulos de tesouro, a subida dos impostos, a limitação aos aumentos salariais, o agravamento das contribuições para a Presidência e, principalmente, o aumento dos preços são as primeiras medidas de ataque do governo. A redução do poder de compra dos trabalhadores está já em marcha. A crise económica, para os trabalhadores, agrava-se em vez de se solucionar.
A política do dr. Cunhal de se ficar pelos protestos verbais e de tentar convencer os trabalhadores a fazerem concessões, em vez de reunirem forças e lutarem abertamente contra as tentativas de recuperação política e económica da burguesia — não passa, pois, de uma política de traição.
A crise económica tem atrás de si uma crise política. Resolver a crise económica é, primeiro que tudo, optar por um caminho político favorável aos trabalhadores.

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