domingo, 21 de agosto de 2016

1976-08-21 - 25 de Abril do Povo Nº 08

O espírito do 20 de Agosto

Os GDUP resolveram assinalar com um comício o primeiro da manifestação do 20 de Agosto de 1975, de apoio ao Documento do COPCON.
O espírito dessa jornada — o de unidade popular, de combatividade contra o fascismo, o capitalismo e o imperialismo, de contar com as próprias forças para o avanço do processo revolucionário — é efectivamente hoje continuado pelos GDUP.
Entre o Documento do COPCON e o programa de candidatura de Otelo há diferenças, que foram fundamentalmente ditadas por uma também situação política concreta nos momentos em que vieram à luz. No entanto, há uma continuidade entre ambos que é ressaltada na convocatória dó comício pela Comissão Distrital de Unidade Popular de Lisboa: "O Congresso dos GDUP irá consolidar o movimento de Unidade Popular, dotá-lo duma estrutura, organizativa, dum programa de luta e de uma linha revolucionária a que não é estranho o Documento do COPCON, o programa de candidatura de Otelo, e as lutas concretas do povo trabalhador".
O espírito revolucionário de que falámos esteve patente nas manifestações realizadas em Setúbal, Lisboa, Porto e Algarve, exigindo a ida para a prisão, de Spínola, dos pides e dos fascistas.
As mesmas exigências, o repúdio popular pelo regresso de Spínola, manifestaram-no sindicatos, comissões de trabalhadores e de moradores. De registar, as paralisações em grandes fábricas como a Setenave e a Covina.
Estas posições combativas contrastam quer com o acolhimento mais ao menos velado que o PPD e o CDS dispensaram a Spínola, com a mera crítica do "momento inoportuno" do regresso feita pelo PS e com o frouxo protesto do PC, que sugere que "o ex-general Spínola deve responder pelos seus actos nos termos da lei".
Não deixa de ser sintomático ver um jornal afecto ao PCP — "O Diário" — que dedicou 24 linhas numa quinta página às manifestações dos GDUP de Lisboa e do Porto contra Spínola, vir ontem, em caixa de primeira página, falar em 58 linhas sobre o "carácter divisionista da candidatura do major Otelo", dizer que "agora a aliança desagrega-se", etc., baseando-se em críticas feitas à UDP e ao PCP(R) num documento do PRP.
Para os senhores de "O Diário", as divergências entre organizações políticas que apoiaram Otelo são o importante, as manifestações populares contra Spínola pouco valem. Querem eles justificar o título "Quem tinha razão? " com que encabeçam o "Registo". Pois não podem restar dúvidas que quem tem razão são os GDUPs que se lançam na luta contra o regresso de Spínola, mostrando que a sua vitalidade não desaparece pelo facto de haver diferentes pontos de vista políticos entre organizações que apoiaram Otelo. E mostrando também que o Movimento de Unidade Popular que se constrói não é a soma de partidos, como julgam os dirigentes; do PCP, estafados de fazer contas de somar para mostrar aritméticamente que o PS e PC constituem a "maioria de esquerda".
A Unidade Popular tem vindo a ser construída em lutas, nas quais participam as bases do PS e do PCP a par de militantes de partidos e organizações revolucionárias. Tal como há um ano no 20 de Agosto, agora contra o regresso do Spínola e em muitas outras ocasiões, em torno de objectivos concretos: contra os despejos, contra o desemprego e a carestia, contra a libertação dos pides, contra as manobras da NA TO, contra todos os imperialismos.
A luta contra os, imperialismos foi, há um ano, um dos aspectos importantes da manifestação política do 20 de Agosto bem como do Documento do COPCON.
Hoje, que uma delegação portuguesa está na Conferência dos Não-Alinhados, como convidada, convém lembrar essa luta. Portugal não é membro de pleno direito dos não-alinhados, devido a pertencer à NATO, organização militar agressiva dominada pelo imperialismo americano. Este convite deve ser encarado como um estímulo para uma saída da NATO, sem aderir ao pacto rival, o de Varsóvia, dominado pela URSS. Estímulo que vai cair em terra ruim pois tanto Mário Soares como Sá Carneiro, Freitas do Amaral ou Cunhal afirmam a sua disposição de permanecer na NATO (por muito que o último preferisse estar no Pacto de Varsóvia), não mexendo qualquer palha para se opor ao imperialismo, antes pelo contrário, convidando-o a trazer investimentos para Portugal e assegurando-lhe a permanência das suas bases.
A luta pela independência nacional, pelo não alinhamento com as superpotências, se encontra verdadeiro eco no movimento popular. A campanha de Otelo foi a única a levantar-se contra qualquer pacto militar ou potência imperialista. Uma bandeira que os GDUP continuarão a empunhar.
O espírito do 20 de Agosto continua vivo e terá que continuar!

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