sexta-feira, 19 de agosto de 2016

1976-08-19 - Bandeira Vermelha Nº 031 - PCP(R)

Editorial
DIZ-ME QUEM LIBERTAS, DIR-TE-EI QUEM DEFENDES

Os milhares de pessoas que, por todo o país, se manifestaram nos últimos dias, apontaram a Spínola o lugar que, por sua vontade, lhe reservam: a cadeia!
Contra o regresso e a libertação do chefe terrorista protestaram as Comissões de Moradores e de Trabalhadores. Sindicatos enviaram moções de repúdio às autoridades e apoiaram manifestações. Cooperativas associaram-se às vozes indignadas que se levantaram. Os GDUPs, partidos e organizações políticas promoveram e apoiaram acções de massas.
Nas conversas da rua o povo indigna-se e faz sentir o ultraje que representa, para quem lutou na rua a 28 de Setembro e a 11 de Março, o regresso impune de um fascista que há poucos meses negociava na Europa a compra de armas para invadir Portugal.
A vontade do povo não é, porém, a vontade do governo e das autoridades. Como os pides, Spínola tem liberdade de se movimentar à vontade por todo o país. Tem mãos livres para prosseguir as suas actividades criminosas.
Ligada estreitamente ao ELP-MDLP de Spínola, a rede terrorista de que só agora foram presos alguns elementos, tem como membros destacados um comandante da PSP, um inspector da Judiciária e altos comandos militares ainda não divulgados. As facilidades e a impunidade de que gozam os terroristas desde há meses, apontam para implicações mais vastas nos meios policiais, pois não é apenas um chefe de polícia e um inspector de judiciária que conseguem pôr a resguardo um bando inteiro de bombistas. Sempre foi esta a convicção do povo e está-se a provar a sua razão.
Como se não bastasse a folha de serviços da PSP do tempo do fascismo, como se não fosse provada a sua brutalidade na repressão de manifestantes e os assassinatos cometidos após o 25 de Abril, como se não chegassem os despejos que cumpre sem pestanejar — ficou agora demonstrada a implicação de um comandante distrital na rede terrorista que tem assolado o país!
No entanto, quando o deputado da UDP denunciou o carácter reaccionário da PSP e da GNR, logo um ministro soarista acorreu em sua defesa, fazendo o elogio das forças militarizadas.
Também aqui, a vontade e os sentimentos do povo não são os do governo.
Os operários que vêem entravadas pelo patronato as suas contratações colectivas; os trabalhadores que são vítimas de despedimentos; as donas-de-casa que cada dia medem a subida dos preços; o povo pobre que não tem casas para morar; os camponeses que lutam por melhores condições de compra e venda de produtos; os trabalhadores agrícolas que constroem os seus sindicatos debaixo das ameaças dos fascistas ou das manobras e desonestidades dos cunhalistas; os assalariados rurais que trabalham como nunca e ainda têm de fazer frente aos latifundiários protegidos pelo governo — todo o povo trabalhador, não pode deixar de associar os ataques às suas condições de vida com os atentados à sua liberdade!
O governo e as autoridades acham por bem libertar Spí­nola, conspirador confesso, defender quem está comprometido com actividades criminosas contra o povo, reabilitar forças repressivas que o povo odeia; e em contrapartida, reduzir ao silêncio Otelo, o porta-bandeira do 25 de Abril. São actos que mostram quem pretendem defender e quem pretendem reprimir. Fazem, no fim de contas, o que Spínola tentou fazer há dois anos.
Contam, para isso, com o aplauso vibrante dos fascistas e a cumplicidade mal disfarçada dos cunhalistas, como ficou provado pelas suas posições na Assembleia da República, pelas calúnias lançadas pelas direcções sindicais que controlam sobre as manifestações agora organizadas pelos GDUPs e, recentemente, pelos elogios que o «Pravda» órgão dos revisionistas russos, dispensou a Eanes.
Cada um tem os aliados que pode e que merece. A burguesia alia-se uma à outra e protege-se sempre que o povo fala pela sua própria voz e conta com a sua própria força.
Não devem parar os protestos e as acções de massas, sob todas as formas, contra a libertação dos pides e de Spínola, contra a miséria a que os capitalistas e o governo pretendem submeter o povo. Os fascistas têm de ser julgados como criminosos; a crise económica não será paga pelo povo.
Os trabalhadores contam com a força da sua unidade cimentada na Frente Popular, nos GDUPs. O grande aliado do povo é o povo.

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