domingo, 14 de agosto de 2016

1976-08-14 - 25 de Abril do Povo Nº 07

A alternativa popular

O que se passa?
Numa escaldante semana de Agosto, temos o início de uma repressão aos terroristas, repressão que se continuasse prometia revelações sensacionais; temos, depois, o regresso, prisão e libertação do Spínola. Mas como nenhuma notícia aquece lugar mais de dois dias em primeira página, eis que se dão profundas transformações nos comandos de regiões militares e no Conselho da Revolução. Ao mesmo tempo, a Assembleia da República discutiu o programa de Governo que acabou por passar no teste parlamentar com os aplausos do PPD e CDS, a oposição relutante do PCP que sempre preferiu a aliança, e a oposição revolucionária da UDP.
O que se passa de facto é uma monstruosa escalada da direita, do fascismo, em contraponto com aquilo que foi um tímido ataque à direita. Depois da libertação dos pides, pides de inegável responsabilidade nos crimes daquela associação de malfeitores, como o Abílio Pires, o Galante ou o Sachetti, o regresso de Spínola é uma miserável provocação feita ao povo português. Não se trata apenas do regresso de "um cidadão como qualquer outro" que regressou em "momento inoportuno". Trata-se do regresso de um reaccionário de longa data, que se meteu à última hora no 25 de Abril para torpedeá-lo e colocá-lo ao serviço dos grandes tubarões, monopolistas nacionais e estrangeiros. O povo trabalhador que rechaçou as tentativas reaccionárias de Spínola a 28 de Setembro e 11 de Março, que há-de pensar dos que saúdam o seu regresso? Que andam a gozar com ele!
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Com o regresso de Spínola, o exército adquiriu rapidamente a imagem de um exército spinolista. Como se não bastasse o regresso de Spínola, dá-se o afastamento dos comandos de regiões militares dos oficiais que ainda eram os representantes dos capitães de Abril no exército. Vasco Lourenço, Pezarat Correia, Franco Charais serão a partir de agora simples membros de um órgão político formado por militares mas não são já comandantes militares.
Completa-se agora o golpe do 25 de Novembro, primeira fase de uma mais vasta conspiração de direita. No 25 de Novembro, iniciou-se a substituição no comando de unidades militares dos oficiais que se opunham abertamente à direita. Agora dá-se o afastamento dos outros oficiais, daqueles que também se opõem à direita mas que conviveram com ela para tentar apaziguá-la e que foram, há um ano, os responsáveis pelo "Documento dos Nove", em torno do qual a direita tacticamente se aglutinou.
O seu afastamento actual é a demonstração de que a conciliação com a direita não é nunca um caminho para a combater. Antes pelo contrário, é o caminho para a derrota perante o fascismo: Eanes e Spínola são os triunfadores da campanha que há um ano os nove lançaram.
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Mário, Soares e o seu Governo quando, não se opõem a Spínola e o impõem como cidadão como qualquer outro estão a desprezar os sentimentos antifascistas do povo. Soares manifesta ainda esse desprezo com o programa de Governo que apresentou. Um programa que se inspirou na Alternativa 76 do CDS, que é aplaudido pelo PPD, não é nem o programa dos trabalhadores nem é, sequer, o programa do PS, programa incoerente mas cheio de proclamações antifascistas e até anti-capitalistas que, por isso, lhe trouxe a adesão de milhares de trabalhadores e de democratas.        
E depois... uma coisa é discutir o programa, outra coisa é o regresso de Spínola.
O Governo deveria ter por obrigação expressa liquidar as estruturas fascistas, reprimir as actividades dos fascistas e julgar os responsáveis do fascismo. Era esta a sua obrigação como Governo constitucional, nascido à base de uma constituição antifascista.
Porém, perante um caso concreto, o que foi feito? O parlamento procedeu como Pilatos, lavou as mãos. Com uma excepção, a do solitário deputado da UDP.
Mário Soares pretendeu minimizar o efeito da intervenção feita como oposição revolucionária, chamando a atenção para a percentagem de votos na UDP e afirmando que esse deputado não apontou qualquer alternativa. Soares, ou não compreendeu o programa de alternativa popular em 10 pontos apresentado de forma reduzida mas sistematizada, ou talvez sim, e foi oportunista ao fazer o seu descabido comentário. Soares ainda deve sentir as dores de cabeça ao pensar nós 16 por cento de votos em Otelo e ver que Acácio Barreiros apresentou a alternativa que consta do programa de candidatura de Otelo, para o qual se voltam milhares e milhares de trabalhadores.
E se essa alternativa popular teve eco na Assembleia, maior fragor obteve cá fora.
Os GDUPs, dando cumprimento à finalidade para que nasceram, convocaram para ontem uma combativa manifestação, exigindo o julgamento e punição de Spínola e a libertação total dos militares revolucionários.
Este exemplo de combatividade e de iniciativa mostra bem que a sarda revolucionária se constrói na prática da luta, respondendo a cada situação concreta da forma que permite a maior unidade do povo.
É este o caminho que levará à vitória sobre a direita!

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