terça-feira, 9 de agosto de 2016

1976-08-09 - O Proletário Vermelho Nº 45

Editorial
OBRIGADO, INIMIGO!

Um problema importante que se coloca nos tempos que correm relaciona-se com a questão de saber como podem os marxistas-leninistas articular a defesa das suas posições ideológicas com a necessidade absoluta de escorraçar os parasitas do social-imperialismo. Parasitas agressivos que se nos querem colar às mazelas para atacar a planta das liberdades e a árvore da Revolução Socialista.
Os radicais burgueses de fardeta «socialista» (feita de chavões, demagógicos e histerismo controlado pelos ordenadores da KGB) atacam os verdadeiros socialistas de «colaboradores do imperialismo». Baseiam-se para isto no apoio implícito que os autênticos amigos do Povo Trabalhador dão ao programa de reconstrução do governo social-democrata nacional, anti-imperialista.
Os agentes directos cunhalistas do social-imperialismo atacam os verdadeiros socialistas de «agentes da reacção», expressão comum entre tais tunantes para classificar todos, quantos «ousam» opor-se ao seu «dictat», aos seus abusos, de autoridade, prepotência e à sua ambição agressiva.
A direita tradicional, ambiciosa de restaurar tanto quanto possível os privilégios perdidos, procura instrumentalizar as posições dos revolucionários verdadeiros para ganhar o obtuso disfarce «progressista» com que pretende cobrir-se. Por ora, salvo em assuntos «de ponta», não os hostiliza pois, declaradamente. Por ora. Todos à uma se opõem pois ao trabalho de organização popular, de criação de consciência progressista e capacidade real de resposta, deveras socialista aos vários modelos que a burguesia, no seu conjunto, quer fazer passar por tal.
RESTABELECER A CONFIANÇA
Atafulhado de tantos «ismos» o povo trabalhador habitua-se a desconfiar de tudo e todos. A desconfiar por sistema. Metido na camisa de forças de ter de reconstruir o país para não perder a sua independência, o trabalhador desenvolve com facilidade conceitos de direita. É preciso restabelecer-lhe a confiança, não em mitos ou projectos possíveis mas sim nas suas próprias forças. Esse é o real objectivo dos verdadeiros Amigos do Povo deste país, de todos os países.
Restabelecer a confiança do povo em si mesmo é restabelecer-lhe a confiança no autêntico socialismo. A confiança de que deve ser ele a impor o ritmo, a determiná-lo, a criar condições para que se saia do atoleiro. Contra seja que nome de Partido for; ao lado de seja que Partido for. Ao lado daquele que conseguir ter da maioria do povo a confiança bastante, pois só esse terá condições para o conduzir pela senda do socialismo a sério.
UM PROGRAMA DE GOVERNO
Muitos são os aspectos do programa apresentado pelo governo novo que vão ao encontro das necessidades da maioria popular, e mesmo das suas necessidades sociais e políticas que não propriamente das económicas.
O programa de governo do PS é um programa de salvação nacional. Como programa burguês - e, portanto, objectivamente neo-capitalista - não lhe faltam as contradições. Como outra coisa não seria de esperar, de resto.
O seu cerne, porém, é anti-imperialista. E, dentre os modelos imperialistas, visa o imperialismo mais perigoso, o imperialismo soviético. Por isso já merece o título de programa de independência.
As posições de defesa da liberdade como questão de princípio, (sendo erradas e, a curto prazo, altamente contraditórias, porque não científicas) constituem um precioso instrumento nas mãos dos trabalhadores mais avançados. Um instrumento precioso para quem já se não deixa embriagar pelo verbalismo charlatão dos falsos profetas cunhalistas nem pelos seus filhotes irritados da UDP-FUR, e intenta discernir mais longe onde reside o perigo efectivo.
A defesa e manutenção das liberdades democráticas burguesas constitui uma tarefa importante dos verdadeiros combatentes pela abolição das classes. Trata-se de condição importante para a luta por liberdades mais amplas e reais no socialismo, sob direcção proletária.
A Democracia completa o edifício necessário para o desenvolvimento das verdadeiras forças populares.
INDEPENDÊNCIA, LIBERDADE, DEMOCRACIA constituem, em sociedade capitalista conquistas importantes, históricas, da classe operária, dos camponeses, de todos os desprotegidos — e não corrompidos - do sistema.
É decisivo pois saber fazer cumprir os objectivos progressistas do governo social-democrata; fazer frente com ele contra todos quantos querem fazer desandar a roda da história; combater tenazmente todas as ilusões charlataneiras dos «falsos profetas da abundância fácil». E, da mesma forma, exercer sobre os actos do governo no cumprimento do Programa a vigilância que impeça a sua queda para os braços de um dos imperialismos, em especial do mais perigoso.
O VILIPÊNDIO, A CALÚNIA, O INSULTO
Em todas as sociedades humanas os progressistas tiveram contra si os ataques traiçoeiros das minorias concorrentes, daqueles que pretendem usar as forças populares como «carne para canhão» para subir ao poleiro dos privilegiados. Se possível para fazer dele o poleiro dos tiranos.
Não são pois de estranhar os ataques do inimigo, as calúnias, o insulto, a mentira e as manobras sujas. O contrário é que seria estranho.
Não são igualmente de estranhar as confusões, o moralismo anti-científico, o dogmatismo estreito daqueles que, vislumbrando, ainda que por momentos a estrada justa, temem percorrê-la com ousadia — e por tal, deixam de a ver - devido a preconceitos, estreiteza de vistas e temor da «opinião pública». Esta, cabe-nos a nós abrir-lhe os olhos, lutar tenazmente pela sua educação, combater a sua disposição a sentar-se à mesa do privilégio.
TRANSFORMAR O MUNDO
Essa é a função dos verdadeiros revolucionários, a função de transformar o mundo objectivo e subjectivo. De transformar a ordem das coisas e a forma de cada um encarar essa ordem das coisas.
É pois bem vindo o ataque. Mesmo o desleal. Mesmo o traiçoeiro. Ele alimenta-nos o ódio ao inimigo popular e impede-nos a conciliação.
Mobiliza as forças e mantém-nos em constante alerta.
Denuncia-nos os jogos em que se acoita a fera inimiga e permite-nos afinar a pontaria.
Os ataques do inimigo são, com efeito uma coisa boa, pois que nos permitem não só reforçar a unidade de acção como melhorar as formas de transformação do Mundo.
Mesmo os que, por vezes, nos vêm das próprias barricadas. É que mal vai o combatente que não assegura a retaguarda.
Mal vai o Povo que não assegura a retaguarda quando avança. É preciso tirar as lições do post-25 de Abril. E avançar. Com segurança e confiança na inesgotável capacidade dos trabalhadores, reais produtores de toda a riqueza. Reais criadores da História Universal.

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