terça-feira, 9 de agosto de 2016

1976-08-09 - Luta Popular Nº 361 - MRPP

Mário Soares ao «J.N.»
VENCER A CRISE A FAVOR DE QUEM?

O Jornal de Notícias incluiu no seu número de ontem uma entrevista com o Primeiro-Ministro Mário Soares, a qual expressando naturalmente os seus pontos de vista sobre algumas questões da actualidade nos merecem alguns comentários.
Respondendo a uma pergunta respeitante à sua opinião acerca do próximo auge do movimento operário e popular previsível para os próximos meses, disse Soares:
«A situação portuguesa é tão grave no plano económico que se vamos começar com disputas, com agitação social, e não vamos regressar imediatamente ao trabalho, e ao trabalho duro, é muito difícil que possamos sair de uma tal situação.
Portanto seria uma atitude altamente responsável da parte das organizações de trabalhadores que tivessem consciência desta situação e que tudo fizessem para para entrar numa política de concertação, sem abdicar da que o Governo está a fazer um grande e honesto esforço para por a casa em ordem e desenvolver a produção a sério.
Para Soares, cujo programa diz defender os interesses dos Trabalhadores, a crise será ultrapassada com trabalho duro, com mais e mais trabalho, palavras que certamente qualquer pessoa está cansada de as ouvir aos nossos governantes, já antes do 25 de Abril assim era, assim foi depois do golpe de estado registado nessa data.
Pedir trabalho, e trabalho duro, numa altura em que grandes movimentações reivindicativas de massas se avizinham aparece como uma oposição frontal a tal movimentação e prenuncia embates duros entre o Governo e as massas em luta.
Poderá o trabalho duro ultrapassar a crise? É possível que em termos relativos isso pode na verdade pelo menos atenuar a crise, mas a questão está em saber a favor de quem se faria uma tal recuperação, se aos trabalhadores se à burguesia?
Estando a burguesia no poder, sendo ela a detentora dos meios de produção, é evidente que era em favor dela que a crise seria ultrapassada e em desfavor dos trabalhadores que veriam a sua exploração fortemente aumentada, a sua situação geral piorada, o poder dos seus inimigos reforçado à sua custa e em resultado do seu esforço. É claro que jamais a classe operária e o povo concordariam com tal política e certamente será rejeitada como o foram no passado os «dias de trabalho para a nação» as «batalhas da produção», etc. etc.
Aliás é necessário compreender, o que naturalmente não acontece com Soares, que em larga medida se centram aí as razões da dupla táctica de fascistas e social-fascistas face ao Programa do Governo, e ao Governo, táctica consistente em por um lado o atacarem por outro necessitarem dele por não poderem ainda impor o seu próprio Governo.
Toda a burguesia desde a fascista à social-fascista, passando pelos Governantes se unem com vista à solução da crise, isto é, em fazê-la pagar ao povo e à classe operária.
No entanto, embora entre as diversas cliques da burguesia exista essa unidade de igual se regista a disputa acesa entre os dois centros da contra-revolução para imporem a sua própria solução para a crise, consistente em implantarem uma nova ditadura em tudo semelhante para pior àquela que tivemos até ao 25 de Abril.
Esses sectores fascistas e social-fascistas necessitam do Governo e por isso a sua posição face ao Programa embora seja de ataque não é o de oposição aberta, de derrube declarado e imediato do Governo, mas sim uma política tendente a mostrar ao PS a necessidade da aliança com um ou com outro.
É neste sentido que as palavras de Soares respeitantes ao debate Parlamentar em que considera que existe um «bom entendimento» são uma vez mais exemplar da política de conciliação destes sectores para com fascistas e social-fascistas, e de como actuando dessa forma, aliás não podem actuar doutra enquanto não forem dirigidos pela classe operária, se prestam a ser cavalgados por toda a contra-revolução e a ser a cobertura do novo golpe social-fascista ou fascista.
O nove auge do movimento de massas que a despeito de tudo aquilo que diz Soares se vai levantar tem para a revolução um perigo: o ser cavalgado pelo P«C»P que o desviaria dos seus fins e na perspectiva de servir de tropa de choque do novo golpe social-fascista em preparação.
Para os marxistas-leninistas a tarefa que se coloca é dirigir esse novo auge do movimento de massas e levá-lo a bom porto.

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