quinta-feira, 4 de agosto de 2016

1976-08-04 - Posição do MES face à política da UDP/PCP(R)

Posição do MES face à política da UDP/PCP(R)

Nota; Este documento destina-se a ser divulgado e discutido em todas as estruturas do M.E.S. e ainda por todos os camaradas que, no interior dos GDUP's e de órgãos de Poder Popular estão seriamente empenhados no trabalho de unidade, pela realização do Congresso dos GDUP's e pela afirmação do Movimento de Unidade Popular.

NÃO DAR TRÉGUAS AO VANGUARDISMO SECTÁRIO PELA UNIDADE, ORGANIZAÇÃO E LUTA!
As forças políticas de esquerda revolucionária contraíram uma grande responsabilidade promovendo, apoiando e levando até ao fim, unidas, a candidatura de unidade popular de Otelo Saraiva de Carvalho. O significado político da votação de mais de 16% do eleitorado nessa candidatura não se resume a uma mera confirmação de que a classe operaria e largas camadas do povo estão conscientes do perigo da direita e da ameaça fascista; significa também uma firme disposição para a luta sem tréguas na defesa das conquistas da Revolução, para a organização popular da resistência à recuperação capitalista e a venda ao desbarato das riquezas nacionais às potências imperialistas.
À que saber retirar do resultado eleitoral de Otelo todas as consequências e entre elas não serão de menosprezar o recuo que provocou nos sectores direitistas das Forças Armadas, o espaço que abriu para a acção dos democratas presentes e activos no seio das Forças Armadas, a brecha que abriu no cerco que, desde o 25 de Novembro, se vinha fechando sobre o bloco das forças da esquerda revolucionária.
Do ponto de vista político e para a esquerda revolucionária, a votação em Otelo demonstra a evidência que o Movimento Popular dispõe de uma reserva de forças vivas e actuantes, não perdeu a combatividade e a energia revolucionárias e que, no seu seio cresce e ganha corpo uma componente revolucionária (constituída pelo bloco das forças da esquerda revolucionária) indestrutível e com tendência para consolidar e robustecer a sua influência política e organizativa.
Demonstrou também que no bloco das forças de esquerda revolucionária nenhuma se encontra em condições para chamar a si a direcção do Movimento Popular sem grandes riscos de estrangular e matar à nascença a confiança depositada na candidatura de Otelo por largas centenas de milhares de trabalhadores.

A ÚNICA FORÇA TEMÍVEL FELA DIREITA E QUE RESSALTA DO RESULTADO ELEITORAL DE OTELO É A FORCA DA UNIDADE ENTRE OS REVOLUCIONÁRIOS E DESTES COM A CLASSE OPERÁRIA E O POVO EM TORNO DE UM CLARO PROGRAMA DE LUTA
Quem procure chamar para si os méritos da vitória eleitoral que representou a votação de Otelo, esquecendo ou escamoteando a diversidade e a autonomia estratégica das varias forças que estão empenhadas na construção da organização política de massas, assumirá pesadas responsabilidades históricas perante a classe operaria e o povo português. A organização política de massas a que o povo aspira e que a situação criada pela votação em Otelo exige não pode ser uma Frente de Partidos nem Frente de Massas de qualquer dos Partidos que apoiou a candidatura. Tal concepção estreita da saída organizativa para a mobilização popular em torno da candidatura de unidade popular só poderia ser concretizada no primeiro caso (Frente de Partidos) através da exclusão a partida da dinâmica de bases que se criou, e logo estaria votada ao fracasso pelas divergências existentes entre os vários Partidos e Movimentos; no segundo caso (Frente de Massas de um dos Partidos - que na prática e a concepção do PCP(R), através de uma prática ultra-sectária que nem a UDP, como um bloco, seria capaz de seguir sem se dissolver e muito menos poderia ser aceite pelos restantes Partidos e movimentos nem pelos independentes e sem Par tido e tão pouco corresponde aos objectivos que levaram Otelo Saraiva de Carvalho, que sempre demonstrou uma grande independência e autonomia políticas a candidatar-se.
O que a direita teme é que se erga como obstáculo poderoso às suas manobras uma nova força, política, independente dos Partidos já existentes do ponto de vista orgânico, estratégico e táctico, o que não quer dizer que não recolha o melhor da experiência de luta e da participação dos quadros e activistas de cada um deles.
O que a direita teme é que essa nova força política junte à independência a capacidade para no próprio terreno da democracia burguesa ganhar posições significativas (eleições para as autarquias locais e demais combates do futuro próximo) veiculando a defesa ou dos interesses da classe operaria e do povo fora do controle dos aparelhos reformistas e numa direcção só possível de imprimir através da adopção de um programa próprio, democrático e socialista.
É isto mesmo que os reformistas de todos os matizes (desde o PS, passando pelo CERESD até ao MSD) e os revisionistas também temem mal repostos da surpresa que constituiu fracasso das suas tácticas eleitorais para as presidenciais. E por isso que procuram esconder dos olhos do povo a tendência manifestada por largos sectores da classe operaria e do povo para confiarem numa alternativa revolucionaria reduzindo o significado da votação em Otelo aos poderes do "homem providencial" da "demagogia das promessas fáceis" ou do "carisma de Otelo".

A TÁCTICA DOS REVISIONISTAS DO PCP PARA DIVIDIR O MOVIMENTO DE UNIDADE POPULAR PASSA POR DESPOLETAR TENDÊNCIAS SECTÁRIAS NA UDP
No caso dos revisionistas do PCP a sua surpresa esconde não só um "deslize" tácito mas a falência de uma estratégia política (a "maioria de esquerda”) que ruiu como um castelo de cartas perante a decisão consciente de uma parte substancial do seu eleitorado em apoiar Otelo Saraiva de Carvalho em desfavor do político ao serviço dos interesses da táctica e estratégia partidárias do PCP (Octávio Pato).
Não podendo reconhecer a falência da sua política conciliatória, capitulacionista e de pactuação com os interesses da social-democracia representada por Soares os revisionistas do PCP remetem-se agora a um prudente silêncio acerca das tarefas políticas da hora presente repetindo os seus ataques ao nascente Movimento de Unidade Popular, dividindo as forças que o apoiam entre os recuperáveis (Manuel Serra e a FSP) os maus e já "inimigos da revolução" (UDP/PCP(R) e os menos maus mas "cada vez mais anti-comunistas" ("Avante”) - caso do MES. O PCP procura assim denegrir junto da sua indisciplinada base eleitoral a vocação unitária do Movimento de Unidade Popular que se organiza, caluniando as personalidades e as forças políticas que o suportam e apoiam, reduzindo com pesada ironia e bastante inabilidade política, o movimento de apoio a Otelo a uma episódica "euforia populista e esquerdista de nefastos efeitos para a esquerda e para o futuro da Revolução".
Esta táctica dos revisionistas do PCP repugnante pelos seus métodos aos olhos de largas camadas da classe operaria do povo, dos democratas e anti-fascistas sinceros, visa, para além das palavras e das acções mais absurdas e irracionais de que se serve, estimular atitudes sectárias por parte de forças políticas que buscam a sua razão de ser no radicalismo económico e político e que marcam a sua posição ao lado da candidatura de Otelo.
Particularmente esta táctica dos revisionistas visa despoletar tendências sectárias na UDP, estimular o seu radicalismo e em último grau favorecer o fraccionamento da unidade realizada em torno da candidatura de unidade popular de Otelo, paralisar o processo de organização dos GDUP’s, esvaziar de conteúdo o seu Congresso, reduzindo o nascente Movimento de Unidade Popular a "mais um grupo esquerdista sem ligação às massas" com um programa caduco, incapaz de corresponder aos anseios da classe operária e do povo e portanto facilmente isolável nos próximos meses de luta.
Não é por acaso que os revisionistas assentam o fogo das suas críticas provocatórias na UDP/PCP(R). Não se trata de qualquer manifestação de pânico perante um eventual perigo que a UDP ou o PCP(R) representem para a sua prática reformista e revisionista ou para a sua hegemonia cobre sectores significativos do movimento popular.
Os revisionistas sabem que não é a UDP ou o PCP(R) que representam a maior influência política no movimento sindical ou no movimento de unidade popular nascente em torno dos GDUP’s. Os revisionistas não atacam em termos provocatórios senão aquelas forças que, cal como a UDP ou o PCP(R) fazem da crítica ideológica e de princípios ao PCP a razão de ser da sua próprio unidade, a força motora da sua intervenção política e o ponto essencial de demarcação em relação ao reformismo e ao revisionismo.

A UDP/PCP(R) A PROSSEGUIR NA SUA PRÁTICA DE RESPOSTA TACO-A-TACO AOS REVISIONISTAS DO PCP ACABARÁ POR LHES FAZER O JOGO
Da análise da situação actual não podemos deixar de reconhecer que a táctica dos revisionistas ameaça alcançar êxito. No engodo aos ataques e calunias dos re­visionistas têm seguido os contra-ataques sectários sempre despoletados e dirigidos ao nível da luta política parlamentar e da organização de base, pela UDP/PCP(R) que, a não serem combatidos, conduzirão ao afastamento dos GDUP’s largas camadas de trabalhadores e activistas sem Partido e de militantes a filiados do PS e do PCP.
Não combater esta tendência para o radicalismo e para o criticismo cego de alguns sectores da UDP/PCP(R) seria transigir no essencial com os princípios que têm norteado a nossa acção política. Seria abdicar de prosseguir uma política de unidade entre os revolucionários; seria aceitar uma unidade sem princípios; seria menosprezar o sentimento de desânimo e a crítica sincera e justa dos camaradas sem partido que desde o início se dedicaram a construção de uma candidatura vitoriosa e se lançaram com todas as forças na construção de um forte movimento de unidade popular.
É necessário que se lute para a correcção dos desvios vanguardistas sectários.
Este combate em que nos empenhamos desde o princípio e essencial para que triunfe uma linha de unidade e se favoreça a construção de uma organização política de massas forte e combativa que e o grande e primeiro anseio de largas camadas da classe operária e do povo.
Este combate terá êxito se formos capazes de garantiria aplicação de métodos cor rectos no trabalho de organização dos GDUP’s, não admitindo o afastamento de camaradas sem partido ou de militantes inscritos no PS e no PCP, combatendo a utilização da linguagem estereotipada dos quadros UDP/PCP(R) a sua tendência para recorrer aos "slogans" partidários a linguagem fácil do "anti-social-fascismo", combatendo a prática da discussão ideológica dos "grandes princípios" que não estejam ligados à definição de um programa pratico de luta que corresponda as necessidades do combate das camadas populares que foram atraídas pelo programa da candidatura de Otelo e pela prática de luta dos GDUP's.

A UNIDADE MÃO SE CONSTRÓI ESCONDENDO AS DIVERGÊNCIAS
Ao assumir esta posição pública de crítica a desvios sectários no seio do Movimento de Unidade Popular, o MES e movido por um forte espírito de unidade. A unidade não se constrói escondendo as divergências, mas, pelo contrario, debatendo-as politicamente.
Não serve os interesses das massas abrir uma ruptura no seio do processo de unidade, assim como não reforça a unidade substituir o debate político aberto pela calúnia pelo veneno sectário espalhado nos bastidores dos GDUP’s, pela política de grupo que pretende reduzir a dimensão e alcance da unidade popular.
As divergências, as práticas incorrectas de trabalho, não podem servir para acirrar o sectarismo e a guerra partidária. É pondo claramente os problemas e discutindo-os nas estruturas de unidade popular, e substituindo a desconfiança sectária pela camaradagem política, é ligando o debate político à resolução dos problemas imediatos das massas populares, é sabendo aprender com o povo e resolvendo no seu seio as contradições, que se erguera em bases solidas e correctas o Movimento de Unidade Popular.
UNIDADE, ORGANIZAÇÃO E LUTA!

4.8.76
O Secretariado do Comité Central do Movimento de Esquerda Socialista

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