quarta-feira, 3 de agosto de 2016

1976-08-03 - Luta Popular Nº 356 - MRPP

RIA: OS 'S’UV E O GOLPE SOCIAL-FASCISTA (2)

Tal como ontem analisamos os caciques social- fascistas dos «S»UV apoderaram-se da Comissão de Soldados existente no Regimento de Infantaria de Abrantes e a partir dela desenvolvera« toda uma série de actividades e de contactos que visavam essencialmente a preparação do golpe e a participação da unidade nas operações militares a ele inerentes.
Com a aproximação da data em que se veio a desencadear o golpe de 25 de Novembro os social-fascistas do RIA intensificaram esses contactos e essas reuniões.
Alguns deles vêm mencionados no Relatório Preliminar que escamoteando os seus objectivos e com que fins eram feitos o que acaba por atacar é o direito democrático dos soldados poderem ligar-se aos órgãos da vontade popular nas fábricas e nos bairros. No entanto, se nós atentarmos bem nas datas em que eram feitos esses contactos e reuniões,
Quem os fazia e quem neles participava podemos concluir com clareza que eles se destinavam a mais qualquer coisa do que a uma simples discussão política como transparece se lermos apenas o referido Relatório.
AS REUNIÕES COM OS CACIQUES DO P«C»P
Assim, e no seguimento das reuniões em que participaram em Lisboa com os oficiais golpistas das unidades controladas pelo P«C»P, os social-fascistas do RIA intensificaram os seus preparativos para que a unidade participasse no golpe apoiando, em primeiro lugar, as acções a desenvolver pelos pára-que­distas, defendendo pela posição do quartel um dos flancos da Base Escola de Tancos contra qualquer possível ataque de forças que se opusessem ao golpe.
Foi no sentido de ultimar esses preparativos que urna delegação de caciques social-fascistas do RIA, encabeçada pelo alferes Soares e constituída pelo furriel Diegues e pelos soldados de aviário Ferro Rodrigues e Alcobia, se dirigiu a Tancos onde com os chefes militares dos pára-quedistas, major Pessoa e capitão Várzea foram discutidas em pormenor as acções a desenvolver pelo RIA.
Depois desta reunião, os social-fascistas do Regimento de Infantaria de Abrantes, a coberto da Comissão Administrativa da Junta de Freguesia de Cipais responsáveis pelo P«C»P na região. Nela estiveram presentes os capitães Carvalhão e Pulgui­nhas, o alferes. Soares, e o soldado de aviário Ferro Rodrigues e pelo P«C»P Afonso da Silva Campante, membro da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Abrantes e conhecido cacique da metalúrgica Duarte Ferreira, Rodrigues, membro da Comissão Administrativa da Junta de Freguesia de Alferrarede, chefe local do partido social-fascista, Chambel e Fernando Oliveira Amante principais caciques do partido social-fascista na Fundição do Rossio de Abrantes; Branco, cacique da metalúrgica Duarte Ferreira e da direcção social-fascista do sindicato dos metalúrgicos.
Em conjunto, discutiram as acções que viriam a desencadear logo que o golpe rebentasse. Os caciques do P«C»P ficaram então de mobilizar as massas para cortar as vias de comunicação erguendo barragens e deixando apenas passar as forças militares que estivessem envolvidas no golpe. Essas barragens seriam reforçadas por militares logo que a situação se mostrasse favorável a tal tipo de acção. Caso houvesse alguma força que vinda do Norte ou da Região de Castelo Branco/Guarda pretendesse participar num ataque conjunto contra a Base-Escola de Tancos. os social-fascistas do P«C»P mobilizariam as suas forças no sentido de se concentrarem junto ao quartel para serem armadas e participarem na barragem a essas forças.
DELEGAÇÃO DE PÁRA-QUEDISTAS PARA «MOBILIZAR» OS SOLDADOS
Logo que o golpe se desencadeia na noite de 24 para 25 de Novembro, uma delegação de social-fascistas do RIA dirige-se à Base Escola de Tancos para fazer o ponto da situação e saber do evoluir dos acontecimentos os quais deviam também influenciar a actuação da suvalhada no Regimento de Infantaria de Abrantes.
Neste contacto havido com os comandos social-fascistas dos pára-quedistas, a suvalhada do RIA fez ver da necessidade de uma delegação de pára-quedistas se deslocar àquela unidade no sentido de mobilizar os soldados para as missões que poderiam ter que vir a desempenhar.
Assim, ficou definido que essa delegação de pára-quedistas se apresentaria no quartel de Abrantes ao princípio da tarde de 25 de Novembro altura para que a suvalhada iria convocar um plenário de unidade. Entretanto, ficou também decidido que o capitão Carvalhão e capitão Pulguinhas assegurariam as comunicações telefónicas com o comando dos pára-quedistas através de código para se saber do evoluir do golpe e das acções a desenvolver pelo RIA no sentido de cumprir a missão de apoio militar aos pára-quedistas que lhe havia sido atribuída pelo P«C»P.
O PLANO COMEÇA A CONCRETIZAR-SE
Logo que a delegação chegou da Base-Escola de Tancos a suvalhada social-fascista vê da necessidade de convocar o plenário não só para dar informações sobre o desencadear do golpe mas também para fazerem aprovar as medidas que lhes permitiriam cumprir as suas missões.
É nesse sentido, que o soldado de aviário Ferro Rodrigues pede, cerca das 14 horas do dia 25, autorização ao comandante para se realizar um Plenário de Unidade dizendo ser uma exigência da comissão dita de Soldados. O comandante da unidade que, sempre havia conciliado com os social-fascistas diz ser necessário convocar uma ADU para resolver tal assunto já que o plenário normal da unidade só estava marcado para o dia seguinte. Reunida a ADU esta decide-se pela realização do plenário a 25 de Novembro.
Nesta reunião da ADU foi ainda apresentado ao Comandante o que tinha ficado assente na reunião entre os social-fascistas do RIA e o comando dos pára-quedistas a vinda à unidade de uma comissão da Base-Escola de Tancos.
O comando diz estar tal tipo de visita proibido pelo Estado Maior do Exército mas hesitante como sempre, como é próprio da sua classe, disse que iria pôr o problema ao Plenário da Unidade e aí se decidiria.
Convocado o plenário, a ele compareceu uma delegação de para-quedistas da inteira confiança dos social-fascistas que disse que estava tudo já praticamente ganho já que as grandes unidades militares da Região Militar de Lisboa apoiavam a acção desencadeada pelos pára-quedistas.
Estas declarações a juntar aos inflamados discursos dos caciques da suvalhada social-fascista fizeram com que os soldados, momentaneamente iludidos com a tese de que a luta dos pára-quedistas era contra o golpe fascista, aprovassem uma moção de apoio pela demissão imediata do Chefe de Estado-Maior da Força Aérea, general Morais da Silva e que aprovassem também a constituição de uma companhia para «defesa imediata», isto é, ataque imediato, bem como a proposta para que a unidade entrasse de prevenção rigorosa imediatamente.
O plano da suvalhada social-fascista começava a concretizar-se. Na mesma altura em que decorre o plenário, aparece um social-fascista do P«C»P à porta da unidade para informar que «os metalúrgicos da Duarte Ferreira» haviam montado na estrada uma barricada para evitar que quaisquer «tropas fascistas» avançassem sobre o RIA.
O plano não só começava a concretizar-se como parecia já obter o «apoio» do povo. No entanto, uma coisa é certa é que a barragem dos operários da «Duarte Ferreira» não tinha mais que 15 social-fascistas dos quais a maioria de operários nada tinha.
A COMPANHIA DE DEFESA — COMPANHIA DE SOCIAL-FASCISTAS
A aprovação pelo plenário de unidade da formação de uma companhia de «defesa» do RIA cujo comando foi atribuído ao capitão social-fascista Pulguinhas era uma importante peça para o envolvimento militar do Regimento nas operações militares do golpe.
Logo a seguir ao plenário, os social-fascistas iniciam o recrutamento de todos os seus apaniguados e de todos os que conseguiam iludir para fazerem parte desta companhia.
Sentindo que a situação no quartel evoluía de uma forma favorável à concretização dos seus planos, a suvalhada social-fascista decide avançar e passar à fase seguinte que se caracterizava já por acções militares ofensivas que faziam parte do plano mais geral do golpe.
É assim que, sob a capa de que os emissores da Lousã estavam para ser ocupados por uma força militar vinda do Norte, a suvalhada social-fascista propõe que a tal companhia de «defesa imediata» os ocupe. O capitão Pulguinhas diz então que a ainda não tem efectivos suficientes para desempenhar tal operação. A suvalhada pretende então impor que o comandante envie ele próprio para executar tal ocupação uma companhia. O comandante nega tal autorização e os social-fascistas retiram se telefonando para a Base-Escola de Tancos a dizer que ainda não tinham condições para executar tal operação. É por este telefonema que os social-fascistas são informados da falta que os pára-quedistas têm de munições para lança-granadas-foguete e para canhões sem recuo de 10,6 mm, e a partir de então desenvolvem na unidade todo o tipo de buscas e de manobras no sentido de obter tais munições, no que não têm qualquer sucesso.
A SUVALHADA PASSA A CONTROLAR A UNIDADE
Para manterem o controlo da unidade que haviam conseguido durante o dia 25, a suvalhada social-fascista reúne-se na noite desse mesmo dia na sala de conferências do RIA para discutir a situação política que consideraram ser favorável e para entre si distribuírem as tarefas que lhes permitiriam controlar o quartel.
Assim, os social-fascistas distribuíram ao soldado de aviário Ferro Rodrigues a tarefa de controlar todos os telefonemas comandando ainda um grupo de capangas constituído pelo Canelas, Pereira e Pessoa e pelos furriéis Malheiro, Diegues e Costa que controlariam a entrada da Central Telefónica e o gabinete do oficial de dia.
O 1.º cabo Sardinha foi encarregado de escutar e interceptar todas as mensagem que fossem transmitidas através dos rádios militares instalando para isso um posto de escuta na Arrecadação de Transmissões.
Toda uma outra série de caciques social-fascistas foi encarregue de, sob a direcção do alferes Soares, controlar a Casa da Guarda, as entradas e saídas do quartel bem como das sentinelas, postos de vigia e rondas no perímetro do quartel.
Esta situação acabou por se manter durante toda a noite tendo os social-fascistas controlado praticamente toda a unidade sem que se lhe opusessem.
Só no dia 26 de Novembro, quando o golpe tinha começado a ser contido, é que a maioria dos oficiais do quadro permanente e dos sargentos se reuniram e à pressa aprovaram moções em que «repudiavam» as moções do dia anterior. No entanto nesse dia não só se pronunciaram como a esmagadora maioria votou mesmo a favor. No entanto, foi a acção desses oficiais e sargentos que impediu que a suvalhada social-fascista avançasse mais na concretização do seu controlo sobre o quartel.
O PAPEL DOS «S»UV
Os acontecimentos que acabamos de relatar e que são parte integrante do golpe social-fascista do 25 de Novembro demonstram bem para que foram criados os «S»UV, porque foram promovidos por toda a imprensa social-fascista que lhes dedicava as primeiras páginas dos jornais e revistas. Os «S»UV eram uma peça fundamental da preparação e do desencadeamento do golpe social-fascista. O p«C»p e todos os seus cães de trela dedicaram-lhe as maiores das atenções e cuidados dispensando à sua organização os seus melhores quadros e dirigentes revisionistas. Os «S»UV eram uma peça fundamental para o golpe porque sem arregimentarem os soldados e marinheiros para a sua aventura os social-fascistas teriam poucas possibilidades de o conduzir à vitória.
Foi por isso que o nosso Partido sempre atacou e desmascarou a suvalhada social-fascista apontando aos soldados e marinheiros a necessidade de se organizarem escorraçando do seu seio os revisio­nistas que dizendo-se seus amigos e defensores mais não pretendiam do que atrelá-los à aventura contra-revolucionária que vieram a desencadear a 25 de Novembro.
É perante estes factos que é necessário tirar as devidas lições para intensificar a luta vendo bem quem são os nossos amigos e os nossos aliados.

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