segunda-feira, 8 de agosto de 2016

1976-08-00 - Organizar os Estudantes Nº 06 - UEDP

ORGANIZAR OS ESTUDANTES n°6/76
Folha Informativa Interna da UEDP

"É errado pensarem que vão ter só as massas escolares com os olhos em vós. A classe operária nas fábricas, os camponeses, o povo trabalhador, todo o povo que quer lutar pela revolução, vai ter os olhos postos em vocês. A vós cabe uma grande responsabilidade: vocês têm que manter bem alto a bandeira da UEDP, vocês têm que levar para as escolas a Democracia Popular, vocês têm que levar todos os antifascistas a organizarem-se na luta contra o fascismo."
(Da Conferência Nacional da UEDP)

Sumario
Relatório - transformar os erros em vitórias - pag. - 2
Comunicado da III Reunião da Direcção Nacional – pag. – 8

"Transformar os Erros em Vitórias”
O balanço político que vos apresentamos da vida da UEDP desde a sua criação, é uma síntese do enunciado das discussões havidas, sobretudo no Porto e em Lisboa, onde vários problemas graves surgidos têm sido discutidos com profundidade.
O alargamento da organização que se têm vindo a verificar nomeadamente no norte do país e as condições objectivas existentes em que um cada vez maior número de estudantes antifascistas e revolucionários estão dispostos a apoiar as nossas posições nas escolas, fruto da simpatia sempre crescente que a linha política da UEDP e UDP vêm granjeando, impõe-nos determinar com clareza a raiz da situação actual e dos erros cometidos de forma a tirarmos daí os ensinamentos necessários para que a nossa actividade futura se corrija e possamos deste modo estar à altura das responsabilidades que a actual situação política exige de todos os membros da UEDP. A insistirmos nos erros cometidos, não os corrigindo radicalmente, a UEDP mergulhará na inoperância e caminhará mesmo para a desagregação.
Será no ano que começa e nas diversas regiões que mais em concreto teremos que aprofundar a nossa crítica aos erros e a sua correcção prática. Este relatório, sem pretender fazer o balanço exacto, de todo a actividade desenvolvida dos erros e vitórias alcançadas, sistematizar desde já alguns aspectos que a direcção nacional considera importantes para o prosseguimento da discussão já encetada em algumas regiões e para que nas restantes estes processo se inicie e se possam tirar igualmente ensinamentos destes primeiros messes da nossa actividade.

Em que fase nos encontramos?
Parece-nos correcto dividir a vida dos núcleos estudantis em três fases:
A primeira fase inicia-se em Dezembro com a formação da comissão promotora do trabalho estudantil e termina em Março na primeira Conferência Nacional que constituiu a UEDP.
É um período de arranque em que o fundamental foi a definição da linha geral da UEDP, a formação do máximo número possível de núcleos, a criação das primeiras estruturas organizativas regionais, o alargamento da organização e os primeiros contactos com o movimento de massas.
Este período foi essencialmente positivo e as tarefas foram cumpridas culminando com a realização da I Conferência.
Há no entanto aqui já algumas dificuldades a notar: a pouca importância dada ao estudo da situação do ensino e à concretização da nossa linha, o descuido do contacto com diversos pontos do país, a não discussão na conferência do documento que apontava as tarefas políticas da UEDP.
A segunda fase, e vai desde a I Conferência até a II reunião da direcção nacional (embora seja difícil determinar exactamente o ponto em que ela culmina).
Tinha sido definido na I reunião da direcção que nesta fase o decisivo era a viragem para as massas e que todas as nossas deficiências organizativas, de linha política e de formação de quadros só poderiam ser superados pelo esforço colectivo de condução das massas na luta.
Durante este período a organização alarga-se muito nos três centros, são integrados os camaradas dos núcleos sindicais, a nossa influência estende-se a multas associações e a vários terrenos de luta. Simplesmente, a organização não consegue, no seu conjunto, reforçar-se na condução do movimento de massas. Surgem grandes campanhas políticas e associativas: eleições para a assembleia da república, início do processo de exames do ensino secundário e encontros associativos com vista ao avanço para a UNEP. E, nestas campanhas, a organização não consegue actuar com uma táctica e um plano únicos, coordenados e constantemente concretizados a nível regional e nacional, compreendidos e levados à prática por todos os núcleos.


A que se deveu no emendar esta situação?
A direcção nacional considera que no essencial os erros cometidos durante a nossa intervenção no movimento de massas ao longo destas campanhas se deveu por um lado à incapacidade que teve em certos períodos de dar directivas concretas que estivessem de acordo com a situação da organização e do movimento de massas e por outro, quando o fez, não soube acompanhar a sua concretização nas diversas reuniões e núcleos a fim de aí colher ensinamentos que permitissem a evolução da táctica da organização no sentido do alargamento da nossa influência junto das massas estudantis.
Idênticos foram os erros cometidos pelas direcções regionais que de um modo geral não souberam concretizar as directivas da direcção nacional tomando posições de irresponsabilidade perante importantes campanhas políticas permitindo com o seu estilo de funcionamento o modo deficiente de cumprimento das directivas nos núcleos e deixando-os em “auto-gestão", permitindo a instalação de um certo clima de desânimo em membros de núcleos de algumas escolas que não acompanhavam os êxitos que a organização ia alcançando a nível geral e, o que é fundamental a nível dos núcleos conciliando com a sua demissão de tomar uma atitude revolucionária criadora, ligando-se às massas e não permanecendo num circulo fechado, extraindo então lições sobre qual a orientação a dar à sua actividade.
É neste quadro, em que as directivas da direcção nacional e do secretariado nacional passavam por vezes despercebidas ou não eram concretizadas em que não se fazia um balanço da actividade para cada campanha concreta lançada, e em que a direcção nacional e o secretariado nacional não se apercebia do que estava mal a fim de se debruçar sobre a situação real da organização, é neste quadro, digamos, que se desenvolve a segunda fase da nossa actividade.
A terceira fase, inicia-se por volta da II reunião da direcção nacional e prolonga-se até ao momento presente. Nesta fase os erros principais manifestados já anteriormente e esse agravamento é tanto maior quanto em Portugal se travou a batalha ímpar das eleições para a presidência, batalha que apanhou a UEDP despreparada e veio ainda aumentar a descoordenação existente.
Simultaneamente por parte de grande número de militantes a ganhar consciência da profundidade dos erros cometidos. Um movimento de crítica primeiro localizado, depois geral, primeiro virado sobre aspectos particulares, depois atingindo os erros de fundo, começa-se a levantar por toda a organização.
Simplesmente, este movimento é mal dirigido por parte das direcções regionais e nacional, incapazes de o fazer. E isto dificulta que se chegue rapidamente a conclusões justas, e que o movimento de crítica se conjugue com a participação de todos os militantes na correcção prática.
Neste momento, nos três centros principais e em alguns outros pontos, já foi realizado um debate relativamente profundo. Falta agora começar na prática e sob o fogo da luta de massas, a limpar o podre existente na nossa organização e substituir o errado pelo certo, a paralisação pela revolucionarização.
Ultrapassar vitoriosamente a terceira fase como em termos sintéticos pode ser definida a tarefa que hoje se nos coloca, significa virar toda a organização para a luta reivindicativa e política de massas, no decurso desse processo estreitar a nossa organização às massas e colocarmo-nos na sua vanguarda, e significa ainda colocar a nossa linha e as nossas directivas tácticas, os nossos métodos, estilo de trabalho e de direcção ao nível das importantes tarefas revolucionárias do movimento de massas estudantis.

QUE NOS FALTA PARA ULTRAPASSAR VITORIOSAMENTE A FASE CRITICA EM QUE NOS ENCONTRAMOS?
Parece-nos haver três erros principais a corrigir e simultaneamente três factores principais dos quais depende ou a estagnação e mesmo o retrocesso da nossa organização ou então um avanço num salto em frente. O primeiro erro é o desligamento das massas e da sua luta, o segundo são as insuficiências na concretização e assimilação da linha política e das palavras de ordem tácticas, o terceiro é o estilo de direcção rotineiro e burocrático. Tomando como eixo a correcção dos métodos de direcção, como orientação política sempre presente a concretização da linha e como objectivo a condução das massas, assim simultaneamente, as três grandes faltas poderão ser liquidadas vitoriosamente e ultrapassar-mos a fase crítica em que nos encontramos.

a) Viremos toda a organização para a luta política e reivindicativa das massas.
Nos últimos meses vinha-se generalizando um afastamento progressivo entre os núcleos e as massas. Raros camaradas iam normalmente às aulas, poucos núcleos estavam de facto a desenvolver uma actividade entusiasta de mobilização e esclarecimento das massas, nas Direcções poucas alternativas e programas de luta eram postos em prática, e os grandes processos de massas como os exames e a luta pela ilibação de Fausto Cruz passaram sem que a UEDP conseguisse de facto conduzi-los.
Por outro lado, nas campanhas políticas a UEDP não conseguiu ter voz activa. Sintomaticamente as primeiras dificuldades sérias vieram a verificar-se quando pela primeira vez enfrentámos uma grande campanha política: as eleições para a presidência da República. Os núcleos, até aí habituados a concentrar a sua força no trabalho sindical (o que foi justo de início) apresentaram grande resistência a fazer propaganda política aberta.
O desligamento das massas e a incapacidade da UEDP para se pôr decididamente à sua frente manifestaram-se tanta nas lutas reivindicativas e sindicais como nas políticas. São duas fases da mesma medalha porque de facto não há trabalho sindical para um lado e trabalho político para outro e a separação rígida dos dois (ou por outras palavras agora em voga o "desvio sindicalista”) veio tanto a impedir a existência de perspectivas políticas para o trabalho sindical como a ligação às massas para o trabalho político.
Para corrigir este desfasamento entre a organização e as massas importa tanto reforçar a ligação às massas obtida na resolução dos pequenos problemas e nas pequenas lutas reivindicativas, como reforçar a nossa liderança sobre as suas lutas através do audacioso lançamento de campanhas políticas, da incentivação da campanha política autónoma da UEDP e da demarcação clara face às massas da nossa perspectiva política.
As medidas concretas a tomar são as seguintes;
1º Reforçar a ligação individual às massas de cada elemento da UEDP nas turmas, nos cursos, nas aulas, na vida desportiva, cultural e na camaradagem. Essa ligação tem de ser reforçada também pelo papel de vanguarda, esclarecedor e mobilizador dos estudantes, sindical e políti­co que cada camarada tem de ter junto aos seus colegas.
2° - Reforçar o conhecimento dos núcleos sobre a escola, do nível político dos estudantes, dos seus problemas, hábitos, mentalidades e aspirações. Esse conhecimento tem de ser reforçado também no treino colectivo de condução das massas, na análise da receptividade das palavras de ordem e propostas de luta.
3° - Ligar a Linha, aos problemas concretos, utilizar a linha como arma da nossa actividade e aperfeiçoá-la no decurso da luta. Isto implica que tenhamos "a política na cabeça e no posto de comando", que sejam constantemente analisados do ponto de vista político da linha revolucionária da UEDP das nossas lutas em defesa dos interesses dos estudantes e que sejam sistematicamente traçados objectivos políticos discutidos antes de cada acção e realizados após cada luta.
4º - Incentivar a propaganda e agitação política da UEDP, através do jornal, de comunicados, de cartazes e de jornais murais, de intervenções e do esclarecimento individual. Isto implica um esforço colectivo para assimilar e ligar a linha e os objectivos políticos à situação concreta de forma a que a agitação e propaganda possam ser efectuados de uma forma viva e rica e não rotineira e abstracta. Para isto terá de se reforçar a vida política interna da UEDP e a discussão em torno da Voz do Povo.
5º - Colocar toda a organização dos núcleos, direcção nacional, virada para as massas e para a aplicação da linha na luta. Fazer com que todos os problemas tratados em todas as estruturas e reuniões sejam os problemas da linha, das palavras de ordem, das propostas de lutas e das aspirações e lutas das massas. Pôr as direcções a ajudarem os núcleos e os núcleos a informarem as direcções e exigirem directivas.
Que sejam estas as nossas preocupações e que em toda a UEDP o critério da justeza da actividade seja o conhecimento dos problemas das massas e a influência crescente sobre elas.

b) Coloquemos a linha, as directivas e as propostas de luta à altura das nossas tarefas.
Outra insuficiência marcante que começou a preocupar muitos camaradas foi a falta de directivas, de orientação, de propostas de luta, e de alternativas concretas com que a organização se começou a debater. De facto isso foi-nos impedir em múltiplos casos de isolar os oportunistas, de mobilizar-mos as massas e de dar um sentido dinâmico e revolucionário à actividade da UEDP. Isto deve ser visto como uma das causas a superar para conseguirmos de facto virar toda a organização para a luta e para as massas.
Indicámos atrás que era preciso ligar a linha aos problemas concretos, isso significa que consideramos haver já uma linha geral definida pela conferência. Então, o que é preciso neste campo, no campo da linha, das orientações e das propostas de luta, o que é aqui preciso para colocarmos a organização capaz de responder às aspirações do movimento de massas?
Primeiramente é preciso que todos os militantes conheçam a linha elaborada pela conferência. Continuam a manifestar-se incompreensões resultantes apenas do desconhecimento dos textos aprovados pela conferência e de outras orientações publicadas no "Organizar os estudantes". É necessário incentivar o estudo individual dos documentos da I conferência e de outros textos e do "Juventude Revolucionária". É necessário também discussões gerais e debates nos núcleos sobre os diversos aspectos da linha política. Será também útil a programação de cursos de quadros sobre alguns temas bem determinados.
Em segundo lugar, é necessário avançar na concretização e enriquecimento da linha política numa série de aspectos. Isso é possível, nomeadamente quanto aos problemas do ensino e reestruturações, quanto ao trabalho associativo de frente nos GDUPs e deve ser feito sem demora pois a não concretização da orientação e não apresentação de alternativas tem deixado muitos camaradas desarmados e com dificuldades na intervenção na luta de massas. Naturalmente o estudo da situação do ensino e o levantamento dos problemas existentes é indispensável para apresentar o programa de luta adequado que neste campo nos falta.
Em terceiro lugar é necessário definir claramente objectivos a atingir e não somente orientações gerais. A inexistência de objectivos bem definidos tem desorientado a actividade de muitos camaradas que não sabem bem o que se deve fazer nas associações, nos GDUPS, etc.
Se bem que seja o desligamento completo das massas e a falta de iniciativa revolucionária que têm causado a total desorientação de muitos camaradas, pois não se pode aceitar que um revolucionário não saiba o que fazer numa escola por falta de directivas, temos de compreender que a não marcação de etapas a atingir não tem possibilitado a galvanização de toda a UEDP na luta pela sua realização.

c) Elevar o estilo de direcção ao nível das necessidades de uma organização revolucionária e das tarefas políticas que se nos colocam.
O desligamento das massas é a fonte de muitos erros, dum estilo de trabalho rotineiro e pouco vigoroso, da desorganização, da desorientação e do liberalismo. Mas o desligamento das massas é o resultado de algumas coisas. Compreende-se claramente que as faltas na orientação e na concretização de directivas tácticas contribuíram para a inactividade e para o desligamento das causas. Mas essas falhas não existiram no fundamental da linha. Com a linha geral que havia era possível ter-se avançado muito mais do que aquilo que se avançou. Há pois outras falhas mais importantes, são as falhas, na organização, no estilo de trabalho da direcção. Foram estas falhas que impediram a viragem decisiva da organização para as massas. Foram estas falhas que impediram que se avançasse na concretização da linha. É por isso que dizemos: houve erros fundamentais da organização e do estilo de direcção. Se eles não se tivessem cometido não estaríamos hoje nesta situação crítica. Erros esses que não permitiram a utilização da linha duma forma concreta, na forma de orientação prática nem na obtenção do nosso objectivo: virar toda a organização para a luta de massas e estreitar a ligação com elas. Também é da correcção desses erros de organização e de estilo de trabalho que depende actualmente o conseguir-se ou não ultrapassar vitoriosamente esta fase e dar um salto em frente. Por isso uma atenção especial merece a análise destas falhas.
Começando pela direcção nacional, ela tem estado totalmente afastada da realidade, não tendo conseguido nalgumas situações (nomeadamente no processo dos exames do ensino secundário) dar as directivas necessárias; o erro fundamental, contudo, foi o do secretariado não ter acompanhado a vida da organização, desde os núcleos às direcções regionais e ter caído num estilo fechado de dar as directivas e depois não acompanhar a execução, verificar as dificuldades e ajudar a superá-las.
Quanto às direcções regionais, o que se verifica é o desfasamento quase completo da situação das escolas e dos núcleos, uma vida fecha da, burocrática e rotineira, o que impede de facto as direcções regionais de, com base na situação nas escolas e aos núcleos, darem directivas apropriadas e ajudarem os núcleos nas suas dificuldades. Verifica-se também uma grande despreocupação relativamente à transposição para as reuniões da direcção dos problemas surgidos nas escolas e núcleos e à necessidade da discussão colectiva desses problemas nas reuniões. Com este funcionamento, é impossível a concretização da linha e é impossível que se tracem directivas.
Quanto aos núcleos o que aí verificamos é o total desprezo pela discussão em termos políticos das tarefas e do trabalho o que vem a provocar um estilo tarefista e desorganizado, sem orientação da actividade dos núcleos. Verificamos também que não se parte dum inquérito à situação da escola e do estudo da consciência das massas e suas aspirações o que vem a provocar um estilo subjectivista, desligado da realidade na direcção das massas. Verificamos ainda que não se traçam objectivos nem um plano de actuação e de influência em todos os aspectos da vida da escola, nos GDUPs e no movimento associativo, o que provoca um estilo espontaneísta de trabalho, não se coloca o núcleo de facto como dirigente de mansas, da associação e do GDUP e cai-se em posições conciliadoras, basistas, massistas, etc., resistindo mesmo a influenciar de forma dirigida a vida da escola.
Para liquidar esta situação, é necessário que os núcleos discutam politicamente as tarefas e as suas actividades, que estudem a situação da escola e estreitem as ligações com as massas, e que tracem planos e orientações para a luta da escola.
Cremos que o fundamental aqui para superar todos estes erros de que só traçámos uma panorâmica muito geral, será assimilar a fundo um outro estilo de direcção não burocrático, não rotineiro, não afastado da realidade, mas vivo, dinâmico e ligado às massas. Esse novo estilo de direcção consiste sobretudo em três movimentos complementares:
1º - Elaboração de um plano e sua compreensão
2º - Aplicação do plano
3º - Fazer o balanço
O primeiro movimento implica a discussão dos objectivos políticos, a determinação das tarefas a levar a cabo e o seu planeamento. Muitas vezes ficamos pela distribuição das tarefas e tarefinhas e não vemos os seus objectivos políticos, a nossa prática fica então cega e somos incapazes de nos guiar perante as dificuldades que vão surgindo. Foi por não compreendermos que o primeiro passo, em qualquer campanha política é a compreensão política dos seus objectivos que não aprofundámos o debate vencendo incompreensões e resistências. Foi isso que veio a provocar a meio de campanhas importantes como a das eleições para a assembleia, resistência por parte dos núcleos no cumprimento de directivas, resistências que tinham raízes na incompreensão po­lítica da importância da directiva de propaganda nas escolas.
O primeiro movimento implica, ainda que sejam definidas tarefas concretas, ou seja, que não se fique simplesmente por apelos gerais que não passaram do papel mas que se tomem medidas efectivas para que os apelos gerais sejam traduzidos em tarefas concretas bem determinadas. E essas tarefas não só devem ser apontadas como planeadas de uma forma realistas, distribuídas responsabilidades, marcados prazos e assegurando o controle de execução. Verificou-se que a ausência de um plano foi das razões principais que motivaram a anarquia no trabalho de algumas estruturas, direcção individualista, sobrecarrego de reuniões e outras tantas maleitas.
O segundo movimento, então foi para nós de forma absolutamente leviana. Pensávamos que as estruturas dirigentes, após dar as directivas gerais nada mais tinham a fazer e não vimos que começava aí outra sua tarefa tão importante como a definição de orientação: a tarefa de ajudar os núcleos a aplicar essas orientações discutindo com eles, todos os pormenores do processo e acompanhando a sua aplicação. Como resultado destes erros, os organismos dirigentes fechavam-se em discussões num trabalho burocrático e não conseguiram acompanhar a aplicação das resoluções e aperceber-se das incompreensões surgidas ou dos erros das directivas e assim ao mesmo tempo que ajudavam os núcleos serem pelos núcleos ajudados a melhor compreender a situação concreta das escolas e da organização para corrigirem as directivas e as adaptarem à realidade.
Estes erros terão sido mesmo os mais graves. Foram eles que determinaram o afastamento crescente topo-base, uma burocratização e irresponsabilidade cada vez maiores das direcções e uma paralisação por falta de ajuda e de directivas da actividade dos núcleos.
Depois de dadas as orientações, as estruturas dirigentes devem em certo sentido, dissolver-se e todos os elementos devem baixar aos núcleos. Esta é uma norma essencial do estilo revolucionário de direcção que a prática vem uma vez mais evidenciar como indispensável.
Quanto ao terceiro movimento e do balanço e correcção dos erros, também não foi, regra geral, efectuado. A consequência foi igualmente desastrosa. Os erros sucederam-se e agravaram-se enquanto que, caso tivesse sido aplicado sistematicamente o método dos balanços mais rapidamente teriam sido detectados os erros que, em vez de se agravarem, teriam sido corrigidos.
Parece-nos serem estes os erros fundamentais no método e estilo de direcção. A pouca importância dada às reuniões como momentos centrais e mesmo solenes da nossa actividade revolucionária, o tarefismo e o desdobramento de camaradas por reuniões e tarefas onde acabam por nada cumprir bem, o liberalismo e as irresponsabilidades com que eram encaradas as tarefas organizativas, tudo isto são manifestações da não aplicação deste estilo vivo, responsável pelos resultados, e criador de direcção revolucionária.
Dois pontos ainda, da política organizativa, nos parecem merecer atenção especial.
O primeiro é o desprezo a que votamos a organização e coordenação nacionais. Concentra-mos a actividade nos três grandes centros, principalmente em Lisboa, e nada ligámos quer à coordenação nacional quer aos contactos com outros pontos do país. Camaradas da província disseram-nos: "vocês pensam que Lisboa é Portugal e o resto é paisagem". Assim foi de facto. Atrasámo-nos enormemente no contacto com diversos pontos do país mas mantivemos bem oleado o aparelho de distribuição de materiais e de troca de informações com todo o país, votámos ao desprezo as tarefas "burocráticas" de recolha de cotas, pagamentos, fundos, etc.. Esta é uma manifestação de desprezo pequeno-burguês pela organização metódica e paciente que temos de corrigir. Pensamos que aqui deve ser esta uma preocupação central no começo do novo ano e que, tanto os aparelhos centrais técnico e distribuição devem ser aperfeiçoados como devemos montar um sistema de organização e contactos nacionais à altura.
O segundo ponto é a descoordenação ainda existente entre a UEDP e a UDP e a não inserção das estruturas regionais da UEDP nas distritais da UDP. A falta de contactos e de conhecimentos da actividade da UDP e da situação do movimento popular veio a dificultar a integração dos estudantes revolucionários nas campanhas políticas gerais e o seu conhecimento da situação e das tarefas do movimento popular. Isto deve ser rapidamente corrigido com o destacamento de um camarada por cada estrutura regional e a sua integração na distrital da UDP correspondente.

QUAIS AS PRINCIPAIS CAUSAS DOS ERROS APONTADOS E OS IMPEDIMENTOS PRINCIPAIS A SUA CORRECÇÃO?
A nosso ver, além da compreensão dos erros cometidos, é necessário saber detectar os vícios e tendências principais não revolucionárias que vieram a permitir a situação actual. É igualmente nesses vícios e tendências que temos de centrar a nossa vigilância e o nosso combate ideológico com vista a superarmos os erros já analisados.
São quatro esses vícios e tendências nocivas.
É a tendência do círculo fechado.
É a tendência a fugir ao contacto com as massas e ao seu comportamento, a tendência a fecharem-se os organismos e transformarem-se em círculos onde a prática comum é o amiguismo e não a crítica e autocrítica pautadas pela actividade revolucionária, é o espírito estudantesco de seita e não de revolucionários. (Em quantas escolas ê que os camaradas da UEDP almoçam juntos?). E o espírito que leva alguns camaradas a intervirem nos GDUPs de escola propondo só elementos da UEDP (ou a maioria) para a coordenadora e não se preocupando em propor os melhores elementos da escola; independentemente da sua organização ou de estarem organizados ou não, tentando assim "dominar" os GDUPs por uma via controleira profundamente incorrecta. Na coordenadora devem estar membros da UEDP porque a UEDP deve ter os melhores elementos da escola, mas isso, não deve servir para fechar os GDUPs às massas pois a sua razão de existir e organizar amplas massas estudantis para a luta política.
É o estilo liberal, anárquico, rotineiro, e burocrático.
É a tendência à irresponsabilidade, ao deixa andar, à desorganização, ao liberalismo, ao atraso, ao não cumprimento das tarefas. É a tendência para encontrar o mínimo motivo de desculpa para não cumprir uma tarefa e não a tentar compreender politicamente. É o mau comportamento junto das massas que passa pelos golpes nas bichas para ao almoço e, vai até às interrupções anti-democráticas de intervenções de outros estudantes em reuniões de massas (com "bocas", piadas, etc.), a não preparação dessas reuniões, à realização de intervenções em estilo arrogante ou "abandalhado". É o espírito que leva os camaradas a desprezarem a agitação individual nas turmas e grupos de trabalho (um camarada de um núcleo de Lisboa promove a venda de livros das bancas da UEDP através de discussões com colegas da turma, tendo obtido excelentes resultados).
É a fuga às tarefas de direcção.
É a resistência da maioria dos camaradas ligados às massas a assumirem posições responsáveis da organização em todos os escalões, mesmo nos mais elevados. É a fuga de muitos militantes às tarefas de organização e a resistência a considerarem de facto os núcleos e os organismos dirigentes como centros de coordenação e direcção do qual tudo depende e aos quais devemos dar o melhor dos esforços.
É o estilo de trabalho segundo o qual se tenta resolver sozinho os problemas que se põem, não se transformam os organismos em colectivos, não se levam os resultados positives ou negativos da nossa actividade a fim de todos os camaradas os poderem discutir, não se compreende a importância da direcção colectiva,
E o facto de um camarada que não participou na preparação de uma reunião de massas não se preocupar em intervir de modo contrário ao de outros camaradas do núcleo, apresentar propostas diferentes, votar de modo diferente, em vez de tentar esclarecer-se antes ou durante a reunião dos motivos pelos quais o núcleo tomou determinadas posições.
É o desprezo pela democracia interna.
É a não prestação de contas das direcções regionais aos núcleos, a não sujeição as reuniões plenárias das decisões fundamentais, é a falta de controle da maioria sobre a minoria.
Compreende-se o enorme prejuízo causado à nossa organização pelo alastrar des­tas tendências nocivas.
A primeira afasta-nos das massas e da luta, por desenvolver todos os vícios de uma organização fechada e não forjada na prática da luta. A segunda desorganiza toda a actividade interna, impedem a desorganização e a correcção dos erros. A terceira desorganiza os organismos de direcção e afasta-os da participação activa na definição dos rumos a seguir pela organização. A quarta cria métodos individualistas de direcção e impede a vigilância crítica à actividade dos organismos dirigentes.
Contra estas quatro tendências nocivas o combate tem de ser de morte e é um combate que tem de ser movido por todos os militantes e em todos os aspectos da nossa actividade revolucionária.
Ainda é cedo para tirar conclusões definitivas sobre o balanço da nossa actividade. No entanto os erros apontados existem, outros serão detectados no decurso do actual movimento de crítica e competir-nos-á no futuro, partindo dos ensinamentos colhidos, virar-nos para o trabalho de massas e pormos ai à prova a nossa capacidade de dirigir o movimento estudantil.

COMUNICADO DA III REUNIÃO DA DIRECÇÃO NACIONAL DA UEDP
Realizou-se em Lisboa no dia 1 de Agosto nova reunião da Direcção Nacional, A ordem de trabalhos era a seguinte:
1 - Informações da actividade e questões de organização internas.
2 - Balanço da actividade.
3 - Perspectivas imediatas.
4 - Próxima reunião.
No primeiro ponto foi informada a situação política e organizativa nas diversas regiões. O que se verifica em todas elas é semelhante. Os erros de organização, o estilo de trabalho, direcção e as falhas de orientação política são comuns.
Nos três outros iniciaram-se balanços de trabalho e um movimento de crítica que são acompanhados em alguns outros locais. Na preparação e início do próximo ano lectivo vão ser feitos balanços mais completos e eleitas novas direcções regionais. Quanto à situação organizativa neste momento existem três Direcções Reginais — Lisboa, Coimbra e Porto; cinco Comissões Distritais Provisórias — Minho, Aveiro, Viana, Covilhã e Entroncamento —, e uma Direcção Distrital na Madeira.
Foram tomadas medidas para se entrar em contacto directo com os camaradas da Madeira ainda antes do novo ano lectivo.
Da direcção Nacional foi aceite a suspensão às responsabilidades de um camarada que simultaneamente pertence ao Conselho Nacional da UDP e que, nesta qualidade, foi enviado para uma região. Foi aceite a demissão de dois membros efectivos por afastamento do trabalho estudantil. Esses camaradas empregaram-se nas suas terras como assalariados agrícolas. Idêntica medida foi tomada em relação a um camarada suplente por razões semelhantes. Outro caso é o de uma camarada, efectiva que não esteve presente e enviou o seu pedido de demissão sem razões claras. Foi decidido em consequência; formar uma comissão para falar com a camarada e expor depois à Direcção os reais motivos; essa comissão envidará todos os seus esforços para trazer à próxima reunião a referida camarada.
No segundo ponto foi apresentado pelo secretariado um relatório-síntese, balanço provisório da actividade deste ano. Sobre esse relatório foi dada uma volta à mesa. Todos os presentes foram unânimes em considerar uma falta fundamental: Não era um relatório auto-crítico mas simplesmente crítico, não analisava as responsabilidades da Direcção Nacional, da Comissão Política e do Secretariado nos erros cometidos. Diversos camaradas completaram esse aspecto com críticas e autocríticas unanimemente aceites. Foi então eleita uma Comissão de Redacção para alterar o relatório que neste número do “Organizar os Estudantes” reproduzimos.
Seguidamente, compreendendo a sua maior responsabilidade nos erros cometidos a Comissão Política e o Secretariado puseram a sua demissão à consideração da reunião que a aceitou. Procedeu-se a nova volta à mesa em que cada camarada fez um balanço autocrítico das suas responsabilidades pessoais e aceitou as críticas sobre ele produzidas pelos restantes elementos da Direcção Nacional. Após esta apreciação individual colectivamente elaborada procedeu-se a novas eleições. Foi eleita a nova Comissão Política bastante semelhante à anterior e n~ovo Secretariado, embora com carácter provisório.
No ponto terceiro salientou-se a importância política de todos os camaradas irem nas férias trabalhar junto ao povo do campo e determinou-se fazer tudo o ainda possível para enviar o maior número de camaradas para as cooperativas. Salientou-se ainda decisiva do trabalho nos GDUP's e a pelou-se a todos os camaradas para, encarando os GDUP's como sua tarefa central se prepararem em Setembro para participarem activamente no Congresso.
Ficou a cargo das estruturas eleitas entre a Direcção: a) a elaboração de um plano de trabalho para o novo ano lectivo incluindo uma data e método para a Conferência Nacional, b) a apresentação do levantamento da organização existente, da estrutura de contactos e sedes regionais, c) a proposta à próxima reunião de um esquema organizativo nacional incluindo estruturas de coordenação. d) apresentação de uma proposta de campanha de fundos, e) o controle e incentivo, em colaboração com os professores, do estudo da situação do ensino em Portugal.
Foi ainda decidido formar duas comissões específicas: uma para elaborar um projecto de funcionamento dos serviços centrais e administração a nível nacional, outra para apresentar um rela­tório sobre o trabalho de férias realizado.
No quarto ponto foi marcada a próxima reunião para dia 11 e 12 de Setembro, no Porto aonde será apresentado todo este trabalho e propostas referidas atrás, reunião esta que se prevê alargar a camaradas recentemente agregados às Direcções Regionais.
No final, após o cumprimento de todos os pontos da ordem de trabalhos, tirou-se a conclusão máxima de considerar a reunião como um importante passo em frente na colocação da nossa Direcção Nacional à altura das grandes responsabilidades lhe estão confiadas. O salutar e demonstrado espírito analítico, critico e autocritico, o sentido das responsabilidades colocado durante o balanço do trabalho e nas conclusões e decisões tomadas foram um vento novo que irrompeu e que é resultado o espírito e de vigilância revolucionaria manifestada pelos militantes da UEDP durante o movimento de crítica.

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