terça-feira, 16 de agosto de 2016

1971-08-00 - Luta Anti Colonial Nº 03

LUTA ANTI-COLONIAL nº 3
Agosto/Setembro de 1971

A C.I.A. DOS ESTADOS UNIDOS COLABORA COM O GOVERNO PORTUGUÊS EM ANGOLA
Um dos nossos objectivos é a denúncia sistemática e implacável dos con­luios que a todos os níveis se estabelecem entre a ditadura fascista que governa o país e o imperialismo internacional.
É o que tentaremos com a transcrição de parte de um trabalho publicado no nº 2 da revista Africasia que a todos aconselhamos para leitura e estudo critico.
"A CIA EM ÁFRICA:
Os B26 para Angola sobrevoavam a Casa Branca
Todos os dias, deixando uma pista algures em Angola, os B26 americanos partem em "missão": esta "missão" é a de atacar as concentrações de revolucionários angolanos que lutam de armas na mão contra o colonialismo português.
O piloto não distingue os combatentes dos aldeões que vivem pacificamente. Para ele trata-se de inimigos "potenciais". O avião larga as suas toneladas de bombas, semeando a destruição e o terror, matando sem discriminação homens, mulheres e crianças. E logo que chega com o seu aparelho, ao por do sol, o relatório que dirige aos oficiais portugueses precisa? "Missão cumprida. Destruí o inimigo no local indicado."
Air América
Como é que os bombardeiros B26 aparecem em Angola, com os seus pilotos, os seus mecânicos treinados nos Estados Unidos? É uma curiosa história, um novo episódio das investidas militares da CIA em África.
Mas não foi somente aí que os B26 da CIA se distinguiram. No Vietnam, Laos, Tailândia, América Latina e Colónias Portuguesas, os B26 equipados, fretados e financiados pela CIA, tiveram um papel do primeiro plano na intervenção militar contra regimes e movimentos progressistas ou revolucionários.
A companhia de aviação "Air América" não é outra coisa senão uma empresa privada criada pela CIA para a venda e conservação dos B26 na Ásia. A companhia Sons and Birds opera igualmente na Ásia em cooperação directa com o Departamento de Estado americano e com o Governo Laociano.
Foi em Outubro de 1965 que, pela primeira vez, o grande publico tomou conhecimento do verdadeiro papel da CIA na repressão do movimento de libertação angolano. O Conselho de Segurança da ONU estava em plena sessão quando o delegado soviético, M. Fedorenko, acusou abertamente os Estados Unidos do fornecer aviões a Portugal. O delegado húngaro foi mais preciso ao afirmar que entre os armamentos fornecidos pela NATO, sete bombardeiras B26 tinham sido entregues pelos Estados Unidos a Portugal para serem utilizados em África.
(...)
Traficantes
Alguns dias mais tarde, um outro embaixador americano, Senhora Eugénia Andersen, reconhecia, face a provas irrefutáveis apresentadas pelas delegações africanas à ONU, entre outras coisas a participação dos B26 em Angola e que sete B26 tinham sido entregues a Portugal. Mas, precisou que "a operação tinha sido efectuada por traficantes que estavam actualmente nas mãos da justiça". Os diplomatas sorriram. Não era a primeira vez que os representantes americanos à ONU tinham uma tal linguagem(...).
(...)Mas quem eram estes "traficantes”? Como tinham eles podido entregar e despachar os B26 com a colaboração das autoridades americanas?
Um piloto britânico de 29 anos, John Richard Hawke, encontra-se em 1963 com um agente da CIA, Gregory Board e um dos seus amigos, Martine Candin, também piloto e perito em questões espaciais.
Em Fevereiro de 1965, Caindin dirige-se à cidade de Tucson, para aí encontrar Gregory Board. Este diz-lhe que combinou em vários encontros com o chefe da polícia secreta portuguesa (P.I.D.E. ou D.G.S.) tendo em vista a compra de bombardeiros B26, Porque os aviões não podiam ser vendidos "legalmente" a Portugal sem o consentimento formal do Departamento de Estado americano, era necessário conseguir negociações a um escalão superior entre o Governo e a CIA para cobrir a operação.
Um Curioso Coleccionador
Estas negociações deviam ter lugar no mais absoluto segredo, disse Board a Caindin. Pilotar-se-ão os aviões às claras mas será uma espécie de operação escura, O Governo fechará os olhos logo que os aviões a caminho de Portugal, voem por cima do território americano. As instalações da aviação militar americanas estarão à disposição dos pilotos.
Era com efeito impossível fazer sair aviões dos Estados Unidos sem a completa corporação de vários organismos governamentais.
Por recomendação de Caindin, Board recrutou Hawke para pilotar os B26.
Foi estabelecido que, por cada um dos vinte aparelhos que traria a Portugal hawke receberia 3.000 dólares (cerca de 84 contos).
Em Maio do 1965, Hawke e Board partiram para Tucson, sede de duas companhias aéreas, "Aero Associates" dirigida por Board, e "Hamilton Aircrafft", dirigida por Gordon B, Hamilton, Devido a uma letra de crédito no montante de 694.000 dólares (cerca do 19.432 contos) dum banco suíço, a "Aero Asso­ciates" prontificou-se a pagar 450.000 dólares à Hamilton para entrega dos vinte B26.
Gordon B, Hamilton possui a maior colecção de B26 do mundo. Representantes do FBI, dos serviços da alfândega, da agência federal de aviação fizeram várias visitas às suas instalações. Cada um dos sete bombardeiros B26 que chegaram a Portugal tinha recebido um certificado oficial de segurança da Guarda Nacional Aérea Americana.
John Hawke pilotou o primeiro aparelho. Pousou primeiro em Rochester no Estado do Nova York e passou a noite num hotel. De lá partiu para Torbay, Torra Nova, depois do ter obtido a autorização das autoridades do Canadá para passar a fronteira e chegar por fim a S. Maria nos Açores (base americana das Lajes). Daqui partiu para Tancos onde o esperava, entro outros o adjunto do adido militar americano, Mário di Silvestero.

Operação Sparrow
 Alguns dias mais tarde, Hawke, regressou aos Estados Unidos para levar o segundo B26. Um pequeno incidente mecânico obrigou-o a aterrar aeroporto de Washington. A Polícia quis prende-lo porque ele tinha sobrevoado a Casa Branca considerada "zona interdita". Hawke deu-lhe a garantia de saída dos agentes governamentais americanos e pôde partir no dia 2 de Julho de 1 5 para Lisboa. Assim os sete bombardeiros chegaram todos ao destino.
Foi em Setembro do 1965 que a CIA decidiu parar a operação conhecida com o nome de código "Operaçao Sparrow”. Informações de numerosas fontes foram chegando segundo as quais vários serviços do informações estrangeiros compreendendo os soviéticos, estavam ao corrente da participação da CIA na guerra contra os movimentos do libertação angolano e moçambicano.
A sessão da ONU devia abrir em breve e a diplomacia americana estava profundamente inquieta por ver as delegações de África e de outros países do Terceiro Mundo denunciar a política de Washington em relação aos movimentos de independência. Várias mensagens foram dirigidas pela delegação americana na ONU ao Departamento de Estado para o pôr do sobreaviso contra esta "ofensiva em preparação" contra os Estados Unidos.
A Casa Branca interveio. Era preciso parar a operação Sparrow. A CIA decidiu então sacrificar, mas em certa medida apenas, alguns dos seus colaboradores para "salvar a honra dos Estados Unidos". Ela mandou prender em Setembro do 1965, em Miami, na Florida, John Hawke e um conde francês, Henry François de Marin de Montmarin, "homem de negócios" especialista de equipamento aéreo que se tinha distinguido durante Grande Guerra como piloto de caça e tinha sido condecorado com a legião de Honra. Quanto ao agente da CIA, Gregory Board, ele foi "informado" a tempo, e simplesmente desapareceu; para a Jamaica, diz-se. Encontrar-se-á, sem dúvida, um dia, sob outro nome, trabalhando, noutra parte qualquer, sempre por conta da CIA!
Hawke e o conde de Montmarin foram acusados do terem "violado a lei sobre o controle de munições", "fazendo contrabando de aviões B26 sem licença de exportação". Duas outras personagens foram libertadas pouco depois da sua prisão; Koat Grigas, que assegurava o treino de pilotos e mecânicos portugueses o Woodrow Wilson Roderick, um homem de negócios canadiano. O primeiro tomou o caminho de Lisboa onde continua o seu "trabalho” e o segundo voltou para casa, no Canadá. Os dois técnicos culpados, emissários duma operação inteiramente montada, organizada e financiada pela CIA eram dois estrangeiros, Hawke e o conde francês.
O Processo de Buffalo
Mas o processo que se abriu em Buffalo não decorreu sem surpresas. "Sim, devia afirmar, diante do juiz o piloto Hawke, pilotei B26 para Portugal e o conjunto da operação foi concluído por intermédio do Departamento de Estado da CIA.
- E está seguro do que foi mesmo a CIA quem dirigia o conjunto da Operação, perguntou o seu advogado Edwin Marger.
- Não tenho dúvida nenhuma. Uma tal operação não podia decorrer sem incidente nenhum, sem a cumplicidade das mais altas autoridades americanas" respondeu Hawke.
E logo que Caindin foi chamado a depor, precisou sem peias;
"Gregory Board (o agente da CIA) disseram que o envio dos B26 não se podia fazer sem que as autoridades o soubessem. Mas eles voltarão os olhos para o outro lado logo que os nossos aviões voarem..."
Submetidos a muitas perguntas, os numerosos funcionários que vieram depor durante o processo acabaram por a reconhecer que a CIA sabia muito que os bombardeiros B26 deviam ser enviados para Portugal.
Enganado e desgostoso, o júri não deliberou durante muito tempo antes de pronunciar, em 13 de Outubro, a prisão do piloto inglês e do conde francês.

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