domingo, 31 de julho de 2016

1976-07-31 - Luta Popular Nº 354 - MRPP

3.º Anexo ao Relatório Preliminar do 25 de Novembro
EPE-BE 3: O APOIO LOGÍSTICO AOS PARAQUEDISTAS E AS ARMAS PARA AS MILÍCIAS DO P«C»P

Uma das duas unidades de engenharia referidas no 3.” Anexo ao Relatório Preliminar do 25 de Novembro é o Batalhão de Engenharia n.° 3 que se situa no perímetro militar de Santa Margarida e portanto muito próximo da Base Escola de Tancos de onde os pára-quedistas saíram na madrugada do dia 25 de Novembro para desencadear a primeira operação militar do golpe: a ocupação das Bases Aéreas.
A proximidade geográfica que existe entre as duas unidades — B.E.-3 e BE TP — determinou as acções que vieram a ser desenvolvidas pelo Batalhão de Engenharia cujas forças não eram consideradas como «operacionais» e que também do ponto de vista dos oficiais social-fascistas que comandavam o golpe, movimentavam-se com dificuldade, tinham armamento reduzido e as tropas pouco treino de combate.
Sendo assim, esta unidade de engenharia assim como a outra que vem mencionada no Relatório, a Escola Prática de Engenharia (Tancos), tinham no golpe social-fascista um importante papel a desempenhar. Nas proximidades da Base Aérea de Tancos cabia-lhes dar todo o apoio logístico às tropas pára-quedistas, neutralizar qualquer ataque que se viesse a desencadear contra a base a partir do perímetro de Santa Margarida (B.E.3). apoiar as tropas pára-quedistas que estivessem de guarda à Base de Tancos em caso de ataque enquanto os pára-quedistas se mantivessem nas Bases da Forca Aérea (E.P.E.).
DUAS UNIDADES COMPLETAMENTE CONTROLADAS PELO P«C»P
Para se compreender realmente a importância destas duas unidades de engenharia é necessário ver qual foi o papel que elas desempenharam ao longo de quase dois anos em que o P«C»P moveu todos os esforços, desencadeou toda uma série de golpes e contragolpes para se apoderar do aparelho militar e com base nele poder vir a exercer a hegemonia na contra-revolução instaurando uma feroz ditadura social-fascista ao serviço do social-imperialismo revisionista soviético.
Destas duas unidades, especialmente da EPE, saíram muitos dos oficiais social-fascistas que vieram a desempenhar importantes cargos nos diversos governos do «companheiro» Vasco que também era oficial de engenharia e que já tinha ocupado postos de comando na EPE.
Sendo assim, as raízes do P«C»P que já vinham de longa data e que foram criadas entre os militaristas fascistas pela oficialagem revisionista do P«C»P, fez com que aquelas duas unidades militares fossem um dos principais campos de recrutamento de oficiais para o. P«C»P e para toda a espécie de manobras por ele desencadeadas.
Tendo desde o 25 de Abril passado a controlar as unidades que acima referimos, nunca perdendo posições importantes -ao nível do comando no seu interior, os social-fascistas permitiram-se chegar ao 25 de Novembro e envolver no seu golpe duas unidades em que tinham total confiança.
OS «S»UV ORGANIZADOS PELOS COMANDANTES DAS UNIDADES
É com o objectivo de preparar esse golpe que, tal como em outras ocasiões da ofensiva social-fascista pelo controlo do aparelho militar, os oficiais de engenharia quer do BE-3, quer do RE-1 (Pontinha
— Lisboa) quer da EPE, se reúnem nas instalações da Escola Prática de Engenharia em Tancos ou nas imediações desta em casa de vários oficiais social-fascistas.
À frente de cada uma das unidades estavam oficiais da total confiança do P«C»P e bem conhecidos pela sua fidelidade a tudo quanto a 5.ª divisão social-fascista dissesse. Exemplos do que afirmámos são os que foram dados pelo major Sardinha Dias, comandante da EPE, e cap. Marques dos Santos, BE 3.
É assim que quando o P«C»P lança -os «S»UV no sentido de desviar o movimento revolucionário dos soldados e marinheiros e arregimentá-los para o golpe, os primeiros a aderir a tal organização social-fascista foram os comandantes da EPE e os oficiais do BE 3.
Para se ver até que ponto essa organização que se dizia de soldados nada tinha a ver com a organização revolucionária e autónoma dos soldados e marinheiros, basta citar duas passagens do Relatório Preliminar em que se diz quanto ao Batalhão de Engenharia n.° 3:
«Implantação da organização SUV feita com cobertura e apoio por parte do comando da unidade. (...) A estas actividades não terá sido estranha a actuação do capitão Marques dos Santos, considerado como elemento de confiança da organização «S»UV/P«RP» para o sub-comando regional de Abrantes.»
Quanto à EPE e ainda relacionado com isto diz o Relatório:
«Teve grande incremento na EPE a organização SUV à qual não será estranha a cobertura e apoio dado pelo Comando da Unidade a determinados oficiais.
(...) para tomarem parte nas manifestações dos SUV, tendo sido detectada a presença do comandante, major Sardinha Dias, no cortejo da manifestação do Entroncamento».
Por aqui se pode vê, quem estava por detrás de uma organização que se dizia ser de soldados, quem eram os seus quadros dirigentes e quais os objectivos que presidiam às convocações das suas manifestações onde até participavam os comandos das unidades.
Aliás, a tentativa feita cela oficialagem social-fascista destas duas unidades de engenharia de arregimentar os soldados através dos «S»UV chegou ao ponto de convidar para vir dar um espectáculo para os soldados do B.E. n.° 3 um agrupamento de neo-revisionistas e anarco-sindicalistas que dão pelo nome de «Grupo de Acção Cultural» da UDPide que actuou na unidade a 12 e 13 de Novembro numa clara tentativa de pela cultura adormecer a consciência de classe dos soldados e levá-los a participar no golpe.
A PACTUAÇÃO E CONCILIAÇÃO EXPRESSAS NO RELATÓRIO
Isto é o que explica o domínio e o controlo social-fascista sobre as duas unidades e o seu envolvimento no golpe de 25 de Novembro. No entanto, o Relatório vira tudo de pernas pai a o ar, tenta fazer o branco passar pelo preto e o preto pelo branco, acabando por nem uma única vez mencionar quem controlava estes dois quartéis, quem era o partido responsável pelo aparecimento e a actividade dos «S»UV e a que partidos servia em primeira e última análise toda a actividade e toda a acção desenvolvida pelos comandos e oficiais dessas duas unidades.
Pelos «S»UV o Relatório responsabiliza o P«RP» enquanto que tal organização foi montada e dirigida pelo P«C»P. Pelas actividades o Relatório responsabiliza muito vagamente e muito cuidadosamente os oficiais da «linha gonçalvista» como se tal coisa alguma vez tivesse existido senão nas cabeças daqueles que encobrem as actividades contra-revolucionárias do P«C»P e conciliam com o sua política.
Mas como causas do golpe e da participação destas unidades nele, os oficiais que redigiram o Relatório puseram logo à cabeça que tal sucedeu porque os soldados não obedeciam às ordens dadas pelos oficiais, faziam muitos plenários, cumpriam à risca as decisões dos plenários contra ordens que lhes são dadas, etc., etc.
Mas se assim é, e os soldados é que portanto são os responsáveis pela participação da unidade no golpe social-fascista, por que é que as ordens de actuação, os desvios de armas para o P«C»P, o apoio logístico aos pára-quedistas, foram tudo operações ordenadas pelos oficiais e muitas delas executadas apenas pelos oficiais social-fascistas?
Isto é o que o Relatório pretende escamotear e esconder dos olhos do povo.
OS OFICIAIS SOCIAL-FASCISTAS DA EPE E BE-3 ARMAM OS PÁRA-QUEDISTAS
No dia 25 de Novembro e já depois dos social-fascistas terem conduzido os pára-quedistas à ocupação das bases aéreas, o major. Pessoa, comandante dos pára-quedistas, telefona ao major Sardinha Dias, comandante da EPE, no sentido de lhe ser fornecida uma berliet que era para ser utilizada num transporte de armas (lança-granadas foguetes), que seriam fornecidos pelo COPCON aos pára-quedistas.
O major Sardinha do Vale aceitou tal tarefa pois que ela se incluía nas missões de apoio logístico que, segundo as ordens e o plano do P«C»P para o golpe de 25 de Novembro, deveriam ser prestadas à Base-Escola de Tancos. No entanto, esta operação deveria ser mantida no maior sigilo para evitar que qualquer força interceptasse o transporte das armas que eram indispensáveis para o cumprimento das missões militares que dentro do plano do golpe cabiam aos pára-quedistas.
A missão de transporte do material foi dada ao capitão Marques dos Santos que, fazendo-se acompanhar de um soldado vendido aos social-fascistas, se deslocou a Lisboa no sentido de obter o referido material.
Como a situação já se tinha começado, a modificar e a contenção do golpe já se tinha iniciado, o capitão Marques dos Santos apesar de ter ordem do COPCON para receber 15 L.G.F. no DGMG não os conseguiu obter naquele local.
Dirigiu-se então às unidades militares que em Lisboa eram controladas pelos social-fascistas no sentido de obter o material que ele sabia indispensável para as operações de reactivação do golpe que o P«C»P tinha ordenado.
Depois de alguns contactos com o comando militar do golpe instalado no Forte do Alto do Duque (no COPCON), o capitão Marques dos Santos dirigiu-se ao RPM e ao Ralis onde obteve o material que era necessário para os social-fascistas da Base-Escola de Tancos e, com uma escolta fornecida pelo major Dinis de Almeida, dirigiu-se para Tancos onde entregou o material exigindo de todos os intervenientes na operação o maior segredo.
OS OFICIAIS SOCIAL-FASCISTAS DO BE-3 ARMAM AS MILÍCIAS DO P«C»P
Um outro objectivo do plano do golpe social-fascista, no que diz respeito a estas duas unidades de engenharia, era que elas deveriam armar logo que fosse possível o maior número de militantes do P«C»P de modo a que estes pudessem ter um papel importante quer no controlo das vias de comunicação, quer em acções militares a desenvolver mais tarde por forças constituídas por militares e milícias do P«C»P.
Tal ordem era para ser cumprida sendo que o desvio das armas deveria ser feito de forma a não deixar qualquer rasto de modo a que o P«C»P se tivesse que recuar e desmobilizar perante qualquer desaire no golpe o pudesse fazer sem deixar rastos da participação da sua estrutura partidária legal em operações de carácter militar.
A cobertura para tal acção foi encontrada quando cerca das 11 da manhã os oficiais social-fascistas dos pára-quedistas telefonam para o BE-3 e pedem a comparência na BETP de um oficial daquela unidade de engenharia.
O comandante do BE-3 destaca para tal contacto o tenente Miranda que se dirige até à Base Escola de Tancos onde é informado que os pára-quedistas necessitam de Lança-Granadas Foguetes.
O tenente Miranda, um cacique do P«C»P deixa a Base-Escola de Tancos e dirige-se à sede do P«C»P no Tramagal onde contacta com Afonso Campante membro da Comissão Administrativa da Câmara de Abrantes. Os dois combinam então o desvio de armas que deveria ser efectuado no percurso entre Santa Margarida e Tancos. Nesta reunião fica estabelecido que as armas a desviar serão G-3.
Depois deste contacto o tenente Miranda dirige-se de novo ao BE-3 e perante os oficiais do comando da unidade explica o que os pára-quedistas necessitam e como planeou fazer o desvio das G-3 para o P«C»P. Os oficiais presentes concordam. Dirigem-se à arrecadação de material de guerra e aí carregam 120 G-3, 6 LGF e 4 a 6 cunhetes de balas de calibre 7,62 (munição usada pela G-3).
De notar que esta operação foi comandada e supervisionada pelo major Afonso Dias que era comandante da unidade.
Mal a berliet estava carregada, o tenente Miranda, com um condutor da sua confiança, arrancou de modo a que ninguém o pudesse deter saindo do Centro de Instrução Militar de Santa Margarida por estradas secundárias de modo a não ser detectado.
Chegando a um local descampado entre Santa Margarida e Tancos que previamente havia combinado com Alfredo Campante do P«C»P, o tenente Miranda mandou a viatura parar. Descarregaram as G-3 para o chão ao mesmo tempo que se aproximava do local outro cacique do P«C»P o tenente Lameirinhas que transferiu os LFG para a sua viatura.
Tendo toda a carga sido transferida, o condutor e a viatura regressaram ao BE-3 e os dois tenentes partem para Tancos onde entregaram os Lança-Granadas Foguetes.
AS MILÍCIAS DO P«C»P NÃO ARRANJAM NINGUÉM PARA PEGAR NAS ARMAS
É de notar, que os social-fascistas armados como estavam e com a directiva que receberam do P«C»P na noite de 25 para mobilizarem tudo quanto pudessem para defender Tancos e apoiarem os pára-quedistas o tempo necessário para reactivar o golpe, não só não conseguiram mobilizar ninguém corno desabafaram numa reunião havida na metalúrgica do Tramagal que não tinham ninguém que quisesse pegar nas armas e «defender a revolução».
O isolamento a que foram votados quer pelo povo quer pelos operários da metalúrgica Duarte Ferreira no Tramagal era bem a prova de como a classe operária e o povo votavam o golpe social-fascista ao mais completo desprezo e o P«C»P e os seus apelos ao maior dos isolamentos.

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