domingo, 31 de julho de 2016

1976-07-31 - 25 de Abril do Povo Nº 05

Trégua que não existe

Uma semana à espera do programa do governo. Semana em que ele ficou completo.
De modo nenhum uma semana de trégua social. Há lutas, há acontecimentos, há movimentações das classes sociais, das forças políticas, de sindicatos, que negam a existência da "concórdia nacional" tão desejada pelo primeiro-ministro Mário Soares.
Sobre o governo, a grande burguesia e o imperialismo têm a sua opinião, os seus planos e as suas esperanças. A CIP está confiante no governo. Embora seja só a confiança que se tem nos batedores, naqueles que vão à frente para abrir o caminho para o verdadeiro governo da grande burguesia, o governo da "maioria presidencial" com o CDS nos lugares-chave. O imperialismo espera do governo as facilidades de investimento, o recurso aos seus empréstimos, uma política externa adequada. Mas, por mais planos económicos que o PS tenha para agradar à burguesia e ao imperialismo, dificilmente sairá do atoleiro da crise.
"Se este governo não é ainda o dos capitalistas, será o governo que os trabalhadores desejam? Não! E à partida dizemos: Não são os trabalhadores que depositam esperanças no novo governo. Quem deposita as esperanças são os capitalistas". Esta posição do GDUP da Efacec-Norte resume bem a atitude com que os trabalhadores encaram este governo. Posição de desconfiança que atinge as próprias bases do PS que votaram neste partido na esperança de que ele cumprisse o seu "programa socialista".
Mais do que esperar algo do governo, os trabalhadores têm de tratar de si próprios, da sua organização para que obriguem o governo a tomar determinadas posições, a seu favor e contra os fascistas. Como diz o mesmo GDUP:
"Temos que iniciar desde já a nossa mobilização em torno dos problemas que queremos ver resolvidos e prepa­rarmo-nos para constituirmos uma força organizada capaz de combater as medidas anti-populares e, ao mesmo tempo, combater as pressões que a direita não vai deixar de fazer sobre o governo".
Essa força organizada tem de nascer do desenvolvimento das lutas e da sua ligação na prática. Nesse sentido, é animador constatar a pujança que os GDUP's têm manifestado no apoio a importantes lutas operárias, por exemplo a das conserveiras, ou contra as acções de despejo e a repressão policial que as acompanha.
Outro sinal da excelente disposição dos trabalhadores para a luta é a greve dos metalúrgicos nos Açores. Ela mostra que os trabalhadores não se deixam intimidar mesmo com as formas mais reaccionárias de exercício do poder pela burguesia.
A vitalidade dos GDUP's e da actual luta do povo dará certamente um grande impulso para que do congresso dos GDUP's surja uma Frente Popular já com força e adesão de massas.
No que respeita a organização dos trabalhadores, está também na ordem do dia o Congresso dos Sindicatos.
Com algumas grandes empresas fechadas para férias e muitos outros trabalhadores também em férias, a preparação do Congresso tem conhecido uma relativa apatia. A importância do congresso e até a urgência de dar mais rapidez à sua preparação não pode servir para justificar autênticos golpes nas costas dos trabalhadores, como era a tentativa do Secretariado da intersindical aprovar o regulamento do Congresso sem que ele fosse amplamente debatido, não só nos sindicatos, mas inclusive nos próprios locais de trabalho.
A atitude do Secretariado da Intersindical, na reunião anteontem realizada (notícia noutra pág.), dá razão às críticas que lhe têm sido dirigidas, devido à sua falta de democraticidade, tanto por direcções sindicais de tendências revolucionárias como por direcções afectas ao PS. Neste caso, estaria presente a nova táctica do PCP de procurar, através dos sindicatos, realizar a “maioria de esquerda", oferecendo ao PS lugares na direcção da central sindical, na esperança de, num futuro próximo, o PS fazer-lhe o mesmo, a nível de governo.
Os trabalhadores, independentemente das suas tendências partidárias, acabaram por se impor, exigindo que o regulamento fosse às bases para aprofundada discussão e posterior aprovação, obtendo assim uma condição mínima da existência de democracia na preparação do Congresso.
A reacção fascista não descansa. Por um lado Spínola regressa e os pides continuam a ser libertados. Por outro continua a sua acção nas Forças Armadas. Com o forte apoio dos americanos que intensificam a sua presença militar e impõem os altos comandos que lhes convêm.
O alvo escolhido pela reacção são oficiais liberais, que têm tomado posições públicas de condenação da actividade da direita fascista ou que tiveram papel importante na descolonização.
A descolonização continua, aliás a ser cavalo de batalha para a reacção. O regresso dos prisioneiros militares de Timor, facto em si obviamente positivo e de relevo na semana que finda, serve à direita de pretexto para muita coisa. Para abrir o dossier descolonização, para mandar rezar mais umas missas (políticas e não religiosas!). Isto quando em Timor-Leste, o povo maubere e a sua vanguarda, a FRETILIN, lutam com grande sacrifício contra a integração forçada na Indonésia.
Há, evidentemente, pressões para que o governo português reconheça essa integração. A libertação dos prisioneiros não é feita de mão beijada. A resposta do governo será mais um indicativo da política do PS. Do respeito que tem pela luta dos povos, pela sua liberdade e independência, da sua capacidade de resistir às pressões imperialistas.
Um indicativo muito útil aqui, para o povo saber o governo que tem pela frente.

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