sábado, 30 de julho de 2016

1976-07-30 - Nortada Nº 04

EDITORIAL

Ao longo deste processo revolucionário desencadeado pelos capitães de Abril e tendo como documento fundamental o programa do MFA, entre todas as variações e colapsos característicos de um período como este, houve um homem que se destacou pela sua formação, pelo seu saber, pelo seu equilíbrio: o general Costa Gomes.
Lançado às feras em grandes letras pelos partidos seguidores da ANP e pela sua imprensa, resistiu a todas as investidas e soube claramente determinar uma linha justa resultante duma correcta análise da relação das forças em presença.
Com um prestígio militar inatacável, homem modesto e de falar claro e sereno, o general Costa Gomes soube manter uma direcção justa no processo revolucionário e não trair no essencial a martirizada classe trabalhadora, ainda hoje matrei­ramente lançada contra os seus próprios interesses objectivos. Se mais não tivesse feito, bastava a sua coragem em recusar a promulgação do decreto-lei do VI Governo, chamado «Controle Operário» (que, a ser lei, constituiria a maior fraude para a classe operária neste processo) para o identificar como um homem do nosso tempo.
Ao tomar esta atitude, que fará parte da história da luta dos trabalhadores em Portugal, Costa Gomes fez perante o Povo Português um dos actos políticos mais marcantes desta revolução. Veio provar que os dignos e verdadeiros militares do 25 de Abril, apesar de tudo, têm uma opção clara quanto aos problemas centrais da luta de classes neste País.
Também desta forma Costa Gomes deixou aberta a porta para que possamos já tirar a «prova dos nove» ao novo Presidente da República, que se viesse a promulgar esta lei, realizaria a sua primeira acção anti-constitucional.
Interrogado há dias numa entrevista pelo «Jornal de Notícias» quanto aos frequentes ataques da direita reaccionária, o general Costa Gomes respondeu: «Eu sou um obstáculo».
Um homem, um Presidente, que soube ser um obstáculo às forças de direita neste País tem de ser um homem e um Presidente que o Povo Português não poderá esquecer.

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