sábado, 30 de julho de 2016

1976-07-30 - Luta Popular Nº 353 - MRPP

3.° Anexo ao Relatório Preliminar do 25 de Novembro
RAC: A ARTILHARIA DE COSTA AO SERVIÇO DO GOLPE SOCIAL-FASCISTA

Retomando hoje a análise ao 3.° Anexo do Relatório Preliminar do 25 de Novembro abordaremos no nosso artigo o envolvimento do Regimento de Artilharia de Costa no golpe social-fascista.
A importância militar e estratégica desta unidade está intimamente ligada e é directamente proporcional a todas as manobras que o partido social-fascista desencadeou para se apoderar do seu comando e de toda uma série de postos importantes nos cargos hierarquicamente inferiores ao de comandante de unidade.
Onde reside a importância militar e estratégica desta unidade?
Essencialmente, ela reside em o Regimento de Artilharia de Costa controlar, com os seus canhões de grande calibre e longo alcance, a entrada no porto de Lisboa, isto é, a entrada ou saída de qualquer navio no porto de Lisboa pode ser impedida pela artilharia de costa do RAC.
Para desempenhar tal tarefa, o Regimento de Artilharia de Costa, que tem o quartel principal (sede) em Oeiras, dispõe de toda uma série de baterias e de destacamentos que as guarnecem que se espalham por várias povoações da região que normalmente é conhecida pela «linha do Estoril» (Alto da Parede, Alcabideche, Santo Amaro de Oeiras, etc.).
Sendo que o partido social-fascista de Barreirinhas Cunhal se apoderou do comando das unidades de marinha, incluindo os navios de guerra, pouco depois do 25 de Abril, ele necessitava controlar o comando do RAC para permitir que todas as missões que fossem atribuídas aos navios de guerra em futuros golpes não fossem contrariadas pela acção das baterias de costa que dificultariam a saída ou a entrada desses navios no porto de Lisboa.
Aliás, o controlo do RAC permitia também ao partido social-fascista impedir a entrada no porto de Lisboa de quaisquer navios de guerra que se opusessem aos seus golpes e manobras.
A ÍNTIMA LIGAÇÃO ENTRE OS OFICIAIS SOCIAL-FASCISTAS DO RAC E O P«C»P
Tendo triunfado nos seus objectivos e com um comando totalmente controlado pelo P«C»P, o RAC veio, como não podia deixar de ser, a ter um importante papel no golpe que a 25 de Novembro foi desencadeado.
No entanto, não foi só no golpe que o RAC e os oficiais social-fascistas que o comandavam desempenharam um papel importante ao serviço do P«C»P. Durante cerca de um ano, esses oficiais desenvolveram todos os esforços no sentido de, sob a capa da «Aliança Povo/MFA», se imiscuírem nas eleições e plenários dos órgãos da vontade popular tendo como finalidade eleger, contra os interesses e muitas vezes contra a vontade dos trabalhadores e dos moradores, Comissões de Moradores e. Comissões de Trabalhadores controladas pelo P«C»P e seus apêndices. É assim, que o major Borrega comandante do RAC participa e intervém na formação da Assembleia Popular de S. Domingos de Rana, na Assembleia Popular da Amadora, etc., etc.
Esta intima ligação entre os oficiais social-fascistas do RAC e a organização local do P«C»P faz com que a sede deste partido na vila de Oeiras fosse equipada com um rádio militar destinado a comunicar com os oficiais de confiança no interior do quartel.
É aliás para coordenar todo este trabalho de assalto aos órgãos da vontade popular pelo P«C»P, tarefa essencial para mobilizar o povo para o golpe. Que os dirigentes daquele partido na zona «visitam» amiudadas vezes o quartel, onde vão pedir «informações».
DENTRO DO QUARTEL IMPERAVA O MILITARISMO SOCIAL-FASCISTA
Esta situação levava a que, os senhores oficiais do P«C»P tudo fizessem, para atrelar os soldadas às suas posições e levá-los a colaborar nas suas acções contra-revolucionárias.
Para atingir tal fim os social-fascistas seguiam os métodos e os meios característicos de toda a escumalha reaccionária. Nos plenários de unidade faziam ameaças, prometiam pancada, faziam chantagens com saneamentos e transferências e chegavam mesmo a proibir que determinados soldados assistissem aos plenários da unidade. Esta situação é descrita em traços muito gerais no Relatório sem que, no entanto, a Comissão que o redigiu dissesse contra quem eram cometidos tais actos de terrorismo social-fascista e quem os cometia.
Com elevado número de caciques social-fascistas na unidade quer a nível da oficialagem, quer a nível dos sargentos, foi fácil constituir o núcleo dos «S»UV no RAC.
Com o total apoio do comando que incentiva tal tipo de actividade promovendo-a nas habituais «conversas em família» que tinha com os soldadas, os «S»UV puderam-se deslocar com viaturas militares postas à sua disposição, para as manifestações que precederam o golpe social-fascista.
No entanto, uma coisa é certa, é que era sempre cada vez mais reduzido o já pouco numeroso grupo de soldados do RAC que os caciques social-fascistas conseguiam atrelar à sua ideologia e à sua politica contra-revolucionária.
A PREPARAÇÃO DO GOLPE; O PLANO PARA O RAC; AS MILÍCIAS SOCIAL-FASCISTAS
Tal como se pode depreender, o controlo exercido pelos social-fascistas no RAC fazia com que o P«C»P depositasse na unidade toda a sua confiança e lhe atribuísse importantes tarefas a cumprir para que o golpe social-fascista se pudesse desencadear, consolidar e triunfar.
É assim que o RAC, representado pelo maior Borrega e por um cacique do P«C»P, cabo Gonçalves, participou em todas as reuniões preparatórias rias operações militares do golpe de 25 de Novembro.
Nessas reuniões (as primeiras realizaram-se no Ralis a 30 de Setembro e no Centro de Sociologia Militar a 30 de Outubro e as últimas no COPCON no dia 21 de Novembro e no dia 24 do mesmo mês), ficou decidido quais eram as operações militares que o RAC deveria estar preparado para executar logo que recebesse ordens do comando militar do golpe. Essas operações estavam intimamente ligadas com os homens e as armas que a unidade dispunha bem como com a situação geográfica em que se situava. A primeira operação militar a desencadear logo que o quartel entrasse de prevenção, o que veio a suceder na noite de 21 para 22 de Novembro, era a de guarnecer todas as suas baterias de costa de modo a estarem prontas a disparar contra qualquer navio considerado inimigo dos social-fascistas bem como a proteger a saída da barra dos navios de guerra que viessem a ter que desenvolver operações fora das bases da marinha. Tal protecção foi de facto dada pelo menos às duas fragatas equipadas com mísseis mar-terra que se foram colocar ao largo da base aérea de Cortegaça que não fora. ocupada pelos pára-quedistas.
A segunda operação militar a desencadear era, já numa segunda fase do plano, a participação do RAC, juntamente com outras forças, contra as unidades militares que eram consideradas inimigas pelos social-fascistas. Assim, forças do RAC integrariam colunas militares que juntamente com o Ralis, RPM, fuzileiros e pára-quedistas atacaram o Regimento de Comandos e de seguida outras unidades. A outra operação de neutralização que deveria ser efectuada pelas forças do RAC era a que dizia respeito ao C1ACC que seria também intimidada por meias navais da Armada.
Como as forças militares que o RAC poderia dispor para estas operações eram reduzidas, já que teria que guarnecer as baterias de costa, o P«C»P deu ordens no sentido de que a referida unidade armasse e enquadrasse militarmente corpos de milícias social-fascistas constituídas por caciques do P«C»P, M«D»P/C«D»E e M«E»S.
São aliás os elementos dessas milícias que se concentram no dia 25 de Novembro frente ao RAC e que o relatório refere dizendo:
«Em 25 de Novembro forma-se um aglomerado de civis à porta de armas da Sede (quartel de Oeiras) e a partir das 18 horas entram grupos de civis no aquartelamento para contactar o Comandante no gabinete do Comando onde estavam também os militares referidos em (a).» (Os militares referidos em (a) eram os caciques social-fascistas da unidade, 2 oficiais do quadro permanente, dois sargentos, e uma série de oficiais milicianos.) Os contactos duram até às 4 horas da manhã segundo diz o Relatório.
No entanto o que o Relatório escamoteia é que esses contactos com vista à formação de um comando político-militar das forças social-fascistas a constituir no RAC se tinham iniciado logo na noite de 24 para 25. O objectivo era: armar as milícias e desencadear as operações previstas das quais apenas uma de menor importância se concretizou: a ocupação do aeródromo de Tires.
Nas reuniões havidas durante o dia 25 a confusão era grande, muitos tinham já ordens para desactivar o golpe e começá-lo mesmo a desmantelar para cortar pistas que inculpassem o P«C»P. Os social-fascistas mais inconformados protestavam pois não percebiam patavina da explicação que lhes era dada. No entanto, escondia-se e escamoteava-se sempre as razões para que o golpe tinha falhado e a sua contenção se tinha iniciado: o povo não tinha apoiado o golpe. Só às 18 horas do dia 25 de Novembro é que os social-fascistas conseguiram arregimentar alguém para que para além das suas milícias se pudesse falar no «apoio popular» às «unidades progressistas».
Mas nem mesmo isso lhes serviu para reactivar o golpe como pretendiam. Estavam completamente isolados das massas, que os votaram ao maior desprezo e à derrota do golpe.

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